Uma das minhas grandes metas, depois de ver o Titanic, era aprender a cuspir a sério. À homem mesmo, com barulho e tudo, para bem longe, sem pingar o queixo de baba e parecer uma velhinha inválida incapaz de comer a sopa.
Agora que penso bem nisso, aquela cena tinha muito de simbolismo e muito pouco mesmo de romantismo. Era a libertação da Rose do seu mundo da etiqueta e dos protocolos: "Jack, ensinas-me a mandar uma escarreta?", pergunta com os seus olhos brilhantes, repletos de uma esperança inocente e bela. Para mim, aquele pedaço de cuspe lançado para longe significaria a possibilidade de encontrar um Jack. Hoje percebo que se tivesse andado por aí a cuspir provavelmente nem Jack nem Jaquim. Não sei, é um feeling que tenho...
Não aprendi a cuspir. Durante uns tempos, oh vergonha, quando cuspiam para o chão mesmo à minha frente e eu não era capaz de retribuir o cumprimento na mesma moeda. Passavam os velhos, mandavam a escarra, e eu ali, uma menina da cidade que nem sequer sabia mandar uma cuspidela valente!
Não aprendi a cuspir mas aprendi a evitar as cuspidelas no chão que também é coisa que dá trabalho. Mas a verdade é que, cada vez menos, se vê (e ouve! que aquilo se ouve bem!) gente a cuspir para o chão. Chamem-lhe boa educação, civilização, o que quiserem, mas o Sô Tónio diria, com o seu ar pachorrento "bah! modernices!" seguido de uma bela cuspidela... no chão!
São pequenos sinais, evidentes porém, de que o mundo está mesmo a mudar. Nalguns aspectos para melhor, noutros para... um diferente não tão positivo. Como os miúdos de 6 anos na escola primária a gritarem asneiras que, no meu tempo, eu nem sabia que existiam! E o azeite e o vinagre em pacotinhos individuais (que, por acaso ainda só vi no MacDonald's... bom povo lusitano!). E as portas automáticas no metro que nos podem cortar em dois.
"Bah! Modernices! RRRRROOOOOOONC CUSP!"
Thursday, October 04, 2007
Wednesday, October 03, 2007
Escrever a brincar
"Às vezes não compreendo nada do que escreves!"
Ele queria dizer "a maioria das vezes" mas controla-se. Não sabe se é ele que não entende ou se é ela que não escreve como deve ser. Ela tem a mania de escrever frases que violam a gramática, palavras que não existem fora da sua cabeça, ideias que são impossíveis no mundo dos homens.
"Eu escrevo o que me apetece. Mesmo que não faça muito sentido", responde, encolhendo os ombros, num misto de tristeza por ser incompreendida e um sentimento de individualidade que a seduz como é normal nos jovens.
"Então nunca vais poder escrever a sério. Assim como os escritores, que escrevem para os outros". Ficou ferido de morte pela aparente indiferença que relevou face à sua incompreensão. Quer feri-la também.
"Então vou escrever a brincar."
Ele queria dizer "a maioria das vezes" mas controla-se. Não sabe se é ele que não entende ou se é ela que não escreve como deve ser. Ela tem a mania de escrever frases que violam a gramática, palavras que não existem fora da sua cabeça, ideias que são impossíveis no mundo dos homens.
"Eu escrevo o que me apetece. Mesmo que não faça muito sentido", responde, encolhendo os ombros, num misto de tristeza por ser incompreendida e um sentimento de individualidade que a seduz como é normal nos jovens.
"Então nunca vais poder escrever a sério. Assim como os escritores, que escrevem para os outros". Ficou ferido de morte pela aparente indiferença que relevou face à sua incompreensão. Quer feri-la também.
"Então vou escrever a brincar."
Hi5 ou Época de Saldos (dá cá mais 5!)
Quando apareceu o Hi5, criei a minha conta. Uma página com fotos e umas quantas parvoíces acerca de mim: o meu perfil. Tem graça, como de repente nos resumimos a um grande catálogo de gente. Se quisermos conhecer alguém, vamos ao Hi5, procuramos por zona, por grupos de interesse, por idades, por aspecto físico. Enfim, tornámo-nos meros objectos de decoração, com umas quantas frases profundas que visam mostrar como somos pessoas sensíveis, inteligentes, espirituosas.
Uma coisa que nunca percebi, que continuo sem perceber, é a ideia de adicionarmos pessoas que nunca vimos na vida à nossa lista de amigos. Qual é o objectivo da coisa? Trocar e-mails e falar pelo msn? Ou é só para termos mais uma cara numa lista de 500 pessoas em que, como é óbvio, temos uma sorte do caraças se estiverem lá enfiados mais de dez amigos de verdade?
Não aceito "friend requests" de estranhos. Mas, mesmo assim, custa-me sempre carregar no botãozinho do "No Thanks". Fico a sentir-me presunçosa, "metida à besta" no topo dos meus saltos altos e do batôn vermelho (tudo coisas que não uso mas que enfim, nesta cena imaginada são indipensáveis) com um olharzinho de desprezo: não, obrigadinha, mas não estou interessada em ter-te como amigo.
Gosto de visitar as páginas dos meus AMIGOS, ver as fotos mais recentes, deixar uns comentários engraçados, cuscuvilhar um bocadinho sobre as relações que se vão trançando entre os perfis da maria e do manel... Coisas de gaja!
Mas existem muitos aspectos na instituição Hi5iana me fazem confusão. As fotos de meninas com mãos a tapar as maminhas "ui fui apanhada de surpresa.... mas vou pôr no hi5 na mesma, sem sequer me aperceber!", homens que insistem em mostrar músculos quase sem respirar, roxos do esforço, "oh sim vê como são definidos os meus bíceps e tríceps... e o cérebro também é músculo? ehpah, tenho já de ir tomar umas vitaminas para isso também!"...
Não entendo. Não entendo mesmo. Dizem que todos têm o seu preço, mas estas pessoas estão em saldos, dão-se de graça assim, a qualquer um que visite a sua página na internet. Donde vem esta vontade de se exibir? Se calhar, onde eu uso palavras eles usam imagens. No fim, expomo-nos relativamente da mesma forma. Será que isso me torna objecto de saldos também?Huuummm...
La vita è bella!
Acordei.
- Mãe, já está a ficar de noite? - pergunta-me uma filha que exige nestum de mel o mais depressa possível.
- Não, está mau tempo, só...
O humor começa assim, cinzento como o tempo. Os pés vão-se arrastando pelas divisões enquanto faço, mais uma vez, todas as operações mecânicas que cada manhã exige.
Dada minha cabeça, treinada no tempo em que Outono era Outono, Inverno era Inverno, e por aí em diante, sem mistos de 4 estações num dia só, pensei que o melhor seria mesmo levar as minhas botas de pêlo, também conhecidas como "Os Mamutes"...
Mas esqueci-me que a minha cabeça de 22 anos já está mais que ultrapassada, que o meu senso comum começa a passar do prazo, e que mais dia menos dia vou ser surpreendida pela palavra "cota" na boca de alguma amiguinha da minha piquena quando lhe perguntar pelo Noddy.
Chego à estação mesmo a tempo de ver partir o meu comboio. Que saía ás 13h08. Onde cheguei às 13h09. E o próximo comboio? Às 13h24. Quero atirar um caixote do lixo às malditas carruagens que se afastam mas o sr polícia está a olhar para mim com uma cara estranha e só depois percebo porquê. É que do escuro fez-se luz, do frio nasceu calor, e estou debaixo de um sol abrasador com botas de pêlo. E assim fico durante 16 minutos, sentada num banquinho, a amaldiçoar cada pêlo daquelas botas que decidi calçar e que agora queria atirar para a linha de comboio e vê-las serem esborrachadas pelo pouca-terra em fúria.
Finalmente, novo comboio, lugar sentado, está mais fresco lá dentro, tudo parece compôr-se. Levanto os olhos do livro que estou a ler, pronta a olhar o céu azul e sorrir-lhe em resposta, quando... sim, há um dilúvio.
Porque eu reclamei das botas. Porque não tenho guarda-chuva nem casaco nem porra nenhuma, mas tenho botas e por isso devia estar feliz porque calcei os meus mamutes portáteis e o sr lá das nuvens quis fazer-me sentir mais apropriada. Obrigadinha pah!
Tudo bem, enfio-me no metro a correr, estações que não acabam.
Lá está, "The postman always rings twice": sim, a Giovanna USA engravida e sim morre... num acidente de carro! E claro, os filmes eram baseados na mesma obra. Bem me pareciam coincidências a mais! Mas eu sou uma miúda que até acredita em coincidências..
Saio da faculdade e regresso ao metro onde começo a ser atacada ferozmente por uma velhinha. Mas eu quero dizer FEROZMENTE mesmo, com cotoveladas mesmo nas costelas, capazes de parar a respiração a um homem dos grandes. Sou atirada quase pelos ares para cima dum banco e olho para trás, onde a senhora de cabelos brancos me sorri "desculpe"... Eu rio-me, incrédula, mas passar-lhe ali uma rasteira não ficava bem e decido esperar até à próxima paragem. Mas antes que possa tomar qualquer medida surge a velhinha ninja número dois, desta vez empurrando-me para a saída, com as suas peles pendentes dos braços a girarem à minha volta como hélices devastadoras. Desisto. Elas são muitas.
Finalmente chego ao comboio. Depois de cargas de porrada, chuva intensa, calor abrasador, esperas intermináveis e mais uma hora de dramas a preto e branco, estou viva! Sim, estou viva!
Às vezes não são os dias melhores que nos deixam mais alegres. Às vezes são estes dias, em que tudo corre mal, em que tudo parece planeado ao milímetro para nos lixar a vida, que nos fazem sentir vivos, que nos dão vontade de atirar a cabeça para trás e rir às gargalhadas até nos doer a barriga e nos arderem os olhos das lágrimas do riso.
Nestes dias, em que o mundo me prega partidas e eu me molho com a chuva que cai dos telhados, em que os sapatos exigem ficar desapertados e o senhor das lotarias nacionais que não sei quando andam à roda tem vontade de nos gritar aos ouvidos, quero gritar-lhe de volta: LA VITA È BELLAAAAAAAAA!
- Mãe, já está a ficar de noite? - pergunta-me uma filha que exige nestum de mel o mais depressa possível.
- Não, está mau tempo, só...
O humor começa assim, cinzento como o tempo. Os pés vão-se arrastando pelas divisões enquanto faço, mais uma vez, todas as operações mecânicas que cada manhã exige.
Dada minha cabeça, treinada no tempo em que Outono era Outono, Inverno era Inverno, e por aí em diante, sem mistos de 4 estações num dia só, pensei que o melhor seria mesmo levar as minhas botas de pêlo, também conhecidas como "Os Mamutes"...
Mas esqueci-me que a minha cabeça de 22 anos já está mais que ultrapassada, que o meu senso comum começa a passar do prazo, e que mais dia menos dia vou ser surpreendida pela palavra "cota" na boca de alguma amiguinha da minha piquena quando lhe perguntar pelo Noddy.
Chego à estação mesmo a tempo de ver partir o meu comboio. Que saía ás 13h08. Onde cheguei às 13h09. E o próximo comboio? Às 13h24. Quero atirar um caixote do lixo às malditas carruagens que se afastam mas o sr polícia está a olhar para mim com uma cara estranha e só depois percebo porquê. É que do escuro fez-se luz, do frio nasceu calor, e estou debaixo de um sol abrasador com botas de pêlo. E assim fico durante 16 minutos, sentada num banquinho, a amaldiçoar cada pêlo daquelas botas que decidi calçar e que agora queria atirar para a linha de comboio e vê-las serem esborrachadas pelo pouca-terra em fúria.
Finalmente, novo comboio, lugar sentado, está mais fresco lá dentro, tudo parece compôr-se. Levanto os olhos do livro que estou a ler, pronta a olhar o céu azul e sorrir-lhe em resposta, quando... sim, há um dilúvio.
Porque eu reclamei das botas. Porque não tenho guarda-chuva nem casaco nem porra nenhuma, mas tenho botas e por isso devia estar feliz porque calcei os meus mamutes portáteis e o sr lá das nuvens quis fazer-me sentir mais apropriada. Obrigadinha pah!
Tudo bem, enfio-me no metro a correr, estações que não acabam.
Lá está, "The postman always rings twice": sim, a Giovanna USA engravida e sim morre... num acidente de carro! E claro, os filmes eram baseados na mesma obra. Bem me pareciam coincidências a mais! Mas eu sou uma miúda que até acredita em coincidências..
Saio da faculdade e regresso ao metro onde começo a ser atacada ferozmente por uma velhinha. Mas eu quero dizer FEROZMENTE mesmo, com cotoveladas mesmo nas costelas, capazes de parar a respiração a um homem dos grandes. Sou atirada quase pelos ares para cima dum banco e olho para trás, onde a senhora de cabelos brancos me sorri "desculpe"... Eu rio-me, incrédula, mas passar-lhe ali uma rasteira não ficava bem e decido esperar até à próxima paragem. Mas antes que possa tomar qualquer medida surge a velhinha ninja número dois, desta vez empurrando-me para a saída, com as suas peles pendentes dos braços a girarem à minha volta como hélices devastadoras. Desisto. Elas são muitas.
Finalmente chego ao comboio. Depois de cargas de porrada, chuva intensa, calor abrasador, esperas intermináveis e mais uma hora de dramas a preto e branco, estou viva! Sim, estou viva!
Às vezes não são os dias melhores que nos deixam mais alegres. Às vezes são estes dias, em que tudo corre mal, em que tudo parece planeado ao milímetro para nos lixar a vida, que nos fazem sentir vivos, que nos dão vontade de atirar a cabeça para trás e rir às gargalhadas até nos doer a barriga e nos arderem os olhos das lágrimas do riso.
Nestes dias, em que o mundo me prega partidas e eu me molho com a chuva que cai dos telhados, em que os sapatos exigem ficar desapertados e o senhor das lotarias nacionais que não sei quando andam à roda tem vontade de nos gritar aos ouvidos, quero gritar-lhe de volta: LA VITA È BELLAAAAAAAAA!
Tuesday, October 02, 2007
Adeus Codex, Olá Lisey!
As almas mais atentas hão de reparar que eu vou actualizando, ali naquele quadradinho à esquerda, as minhas leituras. Ainda há dias lia o Codex, do meu Sr. Professor José Rodrigues dos Santos, mas devo confessar que o deixei a meio, desiludida com as últimas linhas lidas por mim.
Muito na linha do Código Da Vinci, temos um professor de história, perito em códigos e cifras, que tem como missão recuperar as pesquisas feitas por um colega, entretanto morto.
Até aqui tudo bem. Uns enrolanços com uma sueca, uns talvez demasiados pormenores dos sítios que vai visitando (nós acreditamos que ele tenha lá estado, não é preciso mencionar quantos passos vão da porta do museu não sei quantos ao restaurante não sei que mais...), um casamento em crise e algum suspense na resolução dos mistérios. Bem, na resolução do primeiro. Se começou bem, introduzindo a história da escrita egípcia que é mesmo um dos meus ponto sensíveis (mas vai daí, quantas pessoas para além de mim estarão realmente interessadas em aprender a escrever e ler hieroglifos?), para mim enterrou-se na parte em que uma charada BÁSICA leva quase 10 páginas a ser resolvida. Juntem a palavra ECO, FOUCAULT e PENDENTE. Hummmm familiar? Demasiado familiar? Talvez nem todos tenhamos ouvido falar nisso, mas estamos a falar de um Sr. Professor, com um nível de cultura que será, ou deveria ser, mais elevado que o comum. Serão aceitáveis 10 páginas para descobrir que a charada se referia ao livro do Eco?
Então fechei o outro livro, o do Professor real, e abri uma das minha últimas aquisições, a Históiria de Lisey, do Sr. Stephen King. E tenho devorado cada palavra com a fome que o outro livro, aquele do professor, me deixou.
Não sou nenhuma crítica e o livro não está nada mal escrito. A história, porém, carece de acção, morre um bocado nas descrições exageradas e nas centenas de documentos que acreditamos que sim, que o sr leu, mas que se tornam aborrecidos.
Quem sabe se um dia não volto ao codex, já em paz com o professor fictício que não sabia o que era o pendente do foucault, e me disponho a "papar" os 3000 documentos que estão para lá enfiados? Mas por agora, vou abrindo os olhos de espanto e deixando a minha imaginação flutuar nesse universo do incrível que é o da mente do Stephen King. ..
PS- já agora, também baseado numa obra do Stephen King, está no cinema o "1408". Recomendo MESMO, com o aviso de que vão saltar da cadeira algumas vezes! E não é isso mesmo que queremos?
Muito na linha do Código Da Vinci, temos um professor de história, perito em códigos e cifras, que tem como missão recuperar as pesquisas feitas por um colega, entretanto morto.
Até aqui tudo bem. Uns enrolanços com uma sueca, uns talvez demasiados pormenores dos sítios que vai visitando (nós acreditamos que ele tenha lá estado, não é preciso mencionar quantos passos vão da porta do museu não sei quantos ao restaurante não sei que mais...), um casamento em crise e algum suspense na resolução dos mistérios. Bem, na resolução do primeiro. Se começou bem, introduzindo a história da escrita egípcia que é mesmo um dos meus ponto sensíveis (mas vai daí, quantas pessoas para além de mim estarão realmente interessadas em aprender a escrever e ler hieroglifos?), para mim enterrou-se na parte em que uma charada BÁSICA leva quase 10 páginas a ser resolvida. Juntem a palavra ECO, FOUCAULT e PENDENTE. Hummmm familiar? Demasiado familiar? Talvez nem todos tenhamos ouvido falar nisso, mas estamos a falar de um Sr. Professor, com um nível de cultura que será, ou deveria ser, mais elevado que o comum. Serão aceitáveis 10 páginas para descobrir que a charada se referia ao livro do Eco?
Então fechei o outro livro, o do Professor real, e abri uma das minha últimas aquisições, a Históiria de Lisey, do Sr. Stephen King. E tenho devorado cada palavra com a fome que o outro livro, aquele do professor, me deixou.
Não sou nenhuma crítica e o livro não está nada mal escrito. A história, porém, carece de acção, morre um bocado nas descrições exageradas e nas centenas de documentos que acreditamos que sim, que o sr leu, mas que se tornam aborrecidos.
Quem sabe se um dia não volto ao codex, já em paz com o professor fictício que não sabia o que era o pendente do foucault, e me disponho a "papar" os 3000 documentos que estão para lá enfiados? Mas por agora, vou abrindo os olhos de espanto e deixando a minha imaginação flutuar nesse universo do incrível que é o da mente do Stephen King. ..
PS- já agora, também baseado numa obra do Stephen King, está no cinema o "1408". Recomendo MESMO, com o aviso de que vão saltar da cadeira algumas vezes! E não é isso mesmo que queremos?
Ossessione VS The postman always rings twice

A sala está escura. "Estão a ver um filme", diz-me alguém que vem atrás de mim e entra, sem hesitar, na sala sem luz. Eu vou, pé ante pé, enquanto ouço o Gino e a Giovanna aos berros "Maledeta! Mia lasagna!". Sim, é só um filme. A preto e branco. Italiano. Com uma história que, se tivesse visto desde início, ameaçaria cunhar de ridícula. Mas enfim, é a magia do cinema, há para todos os gostos, e quem gosta de cenas tão "naturais" como um casal a dormir que, de repente, "ah, sim, estávamos a ser perseguidos não era?" e se levanta a correr e aos tropeções pela praia... sim, tudo bem. Tenho cá para mim que a Giovanna, que morre esticadinha depois de um acidente de carro, nem sequer estava grávida. Chamem-lhe o que quiserem, desconfiança, cepticismo, falta de romantismo, sei lá, mas uma mulher que confessa estar grávida logo quando ia levar uma carga de porrada do suposto pai da criança... humm eu não sei, mas a mim cheira-me a esturro.
E, enquanto na tela se vai projectando o Gino a gritar NOOOOOOOOOOOOON eu estou com uma fome danada e lembro-me que tenho um pacote de bolachinhas deliciosas na mala. O que é que eu fui fazer?!
O pacote faz rás-trás-splás, com o plástico a contorcer-se nas minhas mãos. Há uma menina que faz um ar incomodado. Desculpa, só tenho bolachinhas para mim! Olha, olha...
A partir do momento em que há o FINE e tenho o estômago mais aconchegadinho, aí sim, estou pronta para ver o Gino e a Giovanna em versão USA, also black and white, com morte certa no final que só conhecerei hoje, pelas 14h. Será que a Giovanna americana também vai engravidar? E o Gino americano, homem de fato macaco, também vai acabar a gritar NOOOOOOOOO?
Tudo questões importantíssimas que estou ansiosa por ver resolvidas! Por isso não percam o próximo episódio, porque eu não posso mesmo perdê-lo...
Thursday, September 27, 2007
Esquecida de mim
Será que posso ser eu só amanhã, e por hoje esquecer quem sou? Posso lavar os olhos das imagens guardadas, livrar o peito das dores acumuladas, estender as mãos ao alto na poética ignorância do saber imposível?
Será que só por hoje, umas horas, me posso esquecer dos dias, das noites, dos regressos intermináveis do sol no rendilhado dos estores? Posso fingir que não sei nada, nunca soube, que fui sempre uma folha de papel branca, uma tábua rasa, pronta a ser inscrita pela ponta dura da pedra da experiência?
Quem me dera nascer de novo, sentir-me inundada pela novidade das coisas mais simples, descobrir porque é que chove, porque é que o sol brilha, que o relâmpago e o trovão são simultâneos..
Será que, só por hoje, me posso fechar na concha mágica e perfeita da ingenuidade e dormir assim, esquecida de mim?
Será que só por hoje, umas horas, me posso esquecer dos dias, das noites, dos regressos intermináveis do sol no rendilhado dos estores? Posso fingir que não sei nada, nunca soube, que fui sempre uma folha de papel branca, uma tábua rasa, pronta a ser inscrita pela ponta dura da pedra da experiência?
Quem me dera nascer de novo, sentir-me inundada pela novidade das coisas mais simples, descobrir porque é que chove, porque é que o sol brilha, que o relâmpago e o trovão são simultâneos..
Será que, só por hoje, me posso fechar na concha mágica e perfeita da ingenuidade e dormir assim, esquecida de mim?
Sunday, September 23, 2007
É mentira.
A mentira tem perna curta. Curtinha, anda coxa, vai-se arrastando por aí. É por isso que, quando cai, cai com estrondo, não se levanta, fica suja da lama na estrada e é pisada por aqueles que passam.
Podes até fingir que não reparas, é de mau gosto ficar olhar assim, para quem passa, mas tu sabes. Reconhece-la pela hesitação com que se move, pelo engasgar dos seus passos, pela forma como tenta passar despercebida entre a multidão ruidosa.
Pelo seu jeito único de ferir os ouvidos quando ri, pelo seu gesto habitual de tentar desaparecer depressa depois de falar contigo...
Só porque não te chamo pelo nome, não quer dizer que não te conheça.
Podes até fingir que não reparas, é de mau gosto ficar olhar assim, para quem passa, mas tu sabes. Reconhece-la pela hesitação com que se move, pelo engasgar dos seus passos, pela forma como tenta passar despercebida entre a multidão ruidosa.
Pelo seu jeito único de ferir os ouvidos quando ri, pelo seu gesto habitual de tentar desaparecer depressa depois de falar contigo...
Só porque não te chamo pelo nome, não quer dizer que não te conheça.
Friday, September 21, 2007
Que estranha forma de vida!
Eu existo da minha maneira estranha. Existo com o mau humor de manhã, com a pasta dos dentes que me enche a boca, com os ganchos que insistem em sair do lugar.
Existo no carro, na estrada fria, no fumo inquieto de motores em fúria. Existo com a mala ao lado, meia cheia, o optimismo congelado para usar na altura certa.
Existo na sala, calada e dormente, o espírito perdido em montanhas distantes, a mão que vagueia em apontamentos ouvidos mas não apreendidos.
Existo no regresso, doce regresso, na casa que me espera, familiar e minha, as minhas coisas nos cantos que conheço de cor, as pantufas à porta para me receber.
Existo na noite, na minha almofada, na forma na cama que tem o meu ser, no lençol de algodão dobrado à pressa, no cheiro do champô que passeia por ali.
E fora daqui, o que é feito de mim?
Existo no carro, na estrada fria, no fumo inquieto de motores em fúria. Existo com a mala ao lado, meia cheia, o optimismo congelado para usar na altura certa.
Existo na sala, calada e dormente, o espírito perdido em montanhas distantes, a mão que vagueia em apontamentos ouvidos mas não apreendidos.
Existo no regresso, doce regresso, na casa que me espera, familiar e minha, as minhas coisas nos cantos que conheço de cor, as pantufas à porta para me receber.
Existo na noite, na minha almofada, na forma na cama que tem o meu ser, no lençol de algodão dobrado à pressa, no cheiro do champô que passeia por ali.
E fora daqui, o que é feito de mim?
Vida num acto
Tornei-me mais alta. Construí pontes a partir da matéria dos meus obstáculos. Uni mundos sem pensar nas diferenças que os poderiam arrasar. Arrisquei. Levei a melhor, às vezes perdi. Outras vezes encontrei-me, sozinha, encontrando-me. Fiz a reunião do corpo e da alma e brilhei, permanente combustão estrelar que acaba numa explosão. Os meus destroços, viajando numa atomosfera sem pressão. A fita-cola à mão de uma mão amiga que me cola a mão de volta no lugar. Única união. Resplandecente conclusão. Um fim feito de pontos de interrogação. Não é término, é interrupção. São três pontos de exclamação sem necessidade, só pelo gosto. A necessidade de gostar, do prazer. Uma necessidade desnecessária que me faz viver. Um olho aberto, outro fechado. Viro a cara sem olhar para o lado. Frente, trás, diagonais transparentes. O meu corpo, feito de linhas, novelos de cores diferentes. Nós, laços, traços, abraços. Nós, miscelância de ritmos e de compassos, numa melodia perfeita, polifonia polivalente. Em frente, em frente... Um atraso de ponteiros que nos acalma a alma, a palma da mão virada para sul, pano de tule que cobre o tempo, frágil teia de aranha por cima do vento, rasga-se a norma, rasga-se o trato, é tudo espontâneo, vida num acto, baixa-se o pano, agradece o actor. O tic-tac que pára, só sobrevive o amor.
Thursday, September 20, 2007
O meu polinho
Quando fiz os meus 17 anos e meio (e há quanto tempo foi isso?!), pedi ao meu pai a carta de condução. Era fundamental, essencial, indispensável para a minha vida! Era o meu bilhete para o comboio da independência, para o mundo das meninas crescidas que pintam os lábios paradas no trânsito (apesar de nem sequer usar batôn), para os pés descalços fora do vidro (impossível quando se vai a conduzir), para a música aos berros e cantorias assustadoras ao volante (revelou-se, de facto, a essência da condução).
Tirei a carta, com a garantia de que o pai não me ofereceria o carro. Um dia, teria um carro. Um dia, tal como ele, acabaria a minha licenciatura e compraria o meu calhambeque (bip bip, quero buzinar meu calhambeque!). "Tudo bem, para que é que eu quero um carro?", dizia eu, imaginando-me por aí, no carro do papá, cheio de amigas em pleno estado de êxtase, atravessando as estradas de alcatrão fumegante de todo o país (filmes americanos a mais... eu sei!).
Acabei a carta em Abril. Em Junho tinha um carro na garagem. Ele não era novo, não era brilhante nem tinha o cheiro a pele que sai dos bancos quando nos sentamos num carro pela primeira vez. Mas era meu, só meu, e de mais ninguém. Estado de graça que durou até a minha irmã, um ano depois, tirar a sua carta de condução de veículos ligeiros e passar a dizer que era "nosso". Sacrifícios que se fazem, pelo menos tinha meio carro que era melhor que um banco inteiro no autocarro!
Eu e o meu (meio) Polo! O meu (meio) Polo e eu! Tem cicatrizes de guerra, mas não as temos todos? O volante está gasto, o tablier meio rachado, o porta-bagagens cheio de todas as tralhas possíveis, o cachecol do SCP sempre a postos, no banco de trás.
A verdade é que o meu Polo não me levou a lugares distantes e improváveis. Não, eu e o meu (meio) Polo não levantámos poeira em estradas de terra batida, percorrendo o mundo sem saber onde parar.
Tinha um sonho modesto. Queria encher o depósito e partir sem rumo, escolher ao acaso uma paragem no mapa, ou pura e simplesmente fazer pim-pam-pum nos cruzamentos e deixar-me levar. Mas ainda temos tempo Polinho...
E quando me perguntam pelo carro dos meus sonhos, falando de marcas de luxo, eu encolho os ombros. Não me preocupo muito com isso. O Polinho tem 4 rodas e leva-me a todo o lado. O Polinho não se queixa dos riscos nas portas, na traseira e na frente: de facto, ele está um bocado riscado, mas são como as rugas, sinais de experiência e vivência intensa. Mesmo quando, na auto-estrada, ele mostra o motor cansado e se arrasta nas subidas (em Monsanto subimos a 40 km/h), eu rio-me, na faixa da direita, com os velhinhos à minha frente a uns estonteantes 50km/h, até que consigamos atingir uma velocidade razoável (não há nada como uma bela descida).
Não me perguntem qual a marca do carro dos meus sonhos. Ou de que cor, a cilindrada, as polegadas das jantes. Olhem para o meu Polinho e lá está a resposta. :D
Tirei a carta, com a garantia de que o pai não me ofereceria o carro. Um dia, teria um carro. Um dia, tal como ele, acabaria a minha licenciatura e compraria o meu calhambeque (bip bip, quero buzinar meu calhambeque!). "Tudo bem, para que é que eu quero um carro?", dizia eu, imaginando-me por aí, no carro do papá, cheio de amigas em pleno estado de êxtase, atravessando as estradas de alcatrão fumegante de todo o país (filmes americanos a mais... eu sei!).
Acabei a carta em Abril. Em Junho tinha um carro na garagem. Ele não era novo, não era brilhante nem tinha o cheiro a pele que sai dos bancos quando nos sentamos num carro pela primeira vez. Mas era meu, só meu, e de mais ninguém. Estado de graça que durou até a minha irmã, um ano depois, tirar a sua carta de condução de veículos ligeiros e passar a dizer que era "nosso". Sacrifícios que se fazem, pelo menos tinha meio carro que era melhor que um banco inteiro no autocarro!
Eu e o meu (meio) Polo! O meu (meio) Polo e eu! Tem cicatrizes de guerra, mas não as temos todos? O volante está gasto, o tablier meio rachado, o porta-bagagens cheio de todas as tralhas possíveis, o cachecol do SCP sempre a postos, no banco de trás.
A verdade é que o meu Polo não me levou a lugares distantes e improváveis. Não, eu e o meu (meio) Polo não levantámos poeira em estradas de terra batida, percorrendo o mundo sem saber onde parar.
Tinha um sonho modesto. Queria encher o depósito e partir sem rumo, escolher ao acaso uma paragem no mapa, ou pura e simplesmente fazer pim-pam-pum nos cruzamentos e deixar-me levar. Mas ainda temos tempo Polinho...
E quando me perguntam pelo carro dos meus sonhos, falando de marcas de luxo, eu encolho os ombros. Não me preocupo muito com isso. O Polinho tem 4 rodas e leva-me a todo o lado. O Polinho não se queixa dos riscos nas portas, na traseira e na frente: de facto, ele está um bocado riscado, mas são como as rugas, sinais de experiência e vivência intensa. Mesmo quando, na auto-estrada, ele mostra o motor cansado e se arrasta nas subidas (em Monsanto subimos a 40 km/h), eu rio-me, na faixa da direita, com os velhinhos à minha frente a uns estonteantes 50km/h, até que consigamos atingir uma velocidade razoável (não há nada como uma bela descida).
Não me perguntem qual a marca do carro dos meus sonhos. Ou de que cor, a cilindrada, as polegadas das jantes. Olhem para o meu Polinho e lá está a resposta. :D
Wednesday, September 19, 2007
Matéria de sonho
Julgo que foi Shakespeare quem afirmou, um dia, que "o homem é feito da mesma matéria com que se entrelaçam os sonhos".
Ignorar, assim, tão ferozmente, a ciência da carne e dos ossos, do sangue e da pele, e fazer do Homem um ser tão alto quanto a sua imaginação é tornar-se, tão simplesmente, matéria de sonho. Porque, até certo ponto, ou talvez a partir dele, nós somos aquilo que julgamos ser, aquilo em que acreditamos acima de tudo, mesmo as nossas dúvidas.
Somos, tão claramente, a matéria dos nossos sonhos! E aquele que sonhar mais, tornar-se-á mais alto, mais forte, mais capaz.
Com o "Big Fish", de Tim Burton, aprendi uma daquelas lições que sabemos que nunca esqueceremos, ao contrário das datas e dos nomes empilhados em alguma aula de história. Aprendi que um peixinho dourado pode ultrapassar até 4 vezes o seu tamanho normal se não estiver num daqueles aquários pequeninos em que gostamos de os enfiar.
O significado era claro: aquele que sonhar mais alto, aquele que se permitir ir mais longe, crescerá. Os outros, estarão condenados ao seu tamanho vulgar de homens, com a certeza de que a comida chegará, por fim, e a água será mudada, os limos retirados, o oxigénio renovado.
Os filmes do Tim Burton são, quase sempre, sobre a diferença e sobre a magia. Não a magia das bruxas ou dos deuses, se bem que estejam repletos de personagens fantásticas, mas sobre a magia de acreditar, que se reflecte precisamente nessas personagens. Até que ponto és capaz de acreditar? Até que ponto és capaz de deixar que este filme, tão surreal, se embranhe nos teus laços de realidade e se torne tão táctil como a tua própria pele?
Ousar acreditar, permitir-se acreditar. Acreditar é arriscar, e uma das perguntas mais pessoais que se podem fazer a alguém é precisamente: acreditas? Haverá algo mais forte, mais poderoso que as nossas crenças?
A história é feita de guerras travadas em nome de crenças. E a história da nossa vida, acredito, é feita, não daquilo em que acreditamos, mas da nossa capacidade de acreditar, da própria essência da crença e, claro, do sonho.
Ignorar, assim, tão ferozmente, a ciência da carne e dos ossos, do sangue e da pele, e fazer do Homem um ser tão alto quanto a sua imaginação é tornar-se, tão simplesmente, matéria de sonho. Porque, até certo ponto, ou talvez a partir dele, nós somos aquilo que julgamos ser, aquilo em que acreditamos acima de tudo, mesmo as nossas dúvidas.
Somos, tão claramente, a matéria dos nossos sonhos! E aquele que sonhar mais, tornar-se-á mais alto, mais forte, mais capaz.
Com o "Big Fish", de Tim Burton, aprendi uma daquelas lições que sabemos que nunca esqueceremos, ao contrário das datas e dos nomes empilhados em alguma aula de história. Aprendi que um peixinho dourado pode ultrapassar até 4 vezes o seu tamanho normal se não estiver num daqueles aquários pequeninos em que gostamos de os enfiar.
O significado era claro: aquele que sonhar mais alto, aquele que se permitir ir mais longe, crescerá. Os outros, estarão condenados ao seu tamanho vulgar de homens, com a certeza de que a comida chegará, por fim, e a água será mudada, os limos retirados, o oxigénio renovado.
Os filmes do Tim Burton são, quase sempre, sobre a diferença e sobre a magia. Não a magia das bruxas ou dos deuses, se bem que estejam repletos de personagens fantásticas, mas sobre a magia de acreditar, que se reflecte precisamente nessas personagens. Até que ponto és capaz de acreditar? Até que ponto és capaz de deixar que este filme, tão surreal, se embranhe nos teus laços de realidade e se torne tão táctil como a tua própria pele?
Ousar acreditar, permitir-se acreditar. Acreditar é arriscar, e uma das perguntas mais pessoais que se podem fazer a alguém é precisamente: acreditas? Haverá algo mais forte, mais poderoso que as nossas crenças?
A história é feita de guerras travadas em nome de crenças. E a história da nossa vida, acredito, é feita, não daquilo em que acreditamos, mas da nossa capacidade de acreditar, da própria essência da crença e, claro, do sonho.
Sunday, September 09, 2007
A estação parva
Está acabado. Já nem se digna a brilhar de forma igual, o sol. Sabe que está quase, quase no fim, e vai se deixando dormir, enquanto nós, quase a iniciar mais um ano lectivo, suplicamos por uns últimos dias de calor tórrido e banhos de mar.
E chega o Outono. O Outono é aquela estação que considero a mais parva de todas. Sim, é uma estação parva, em que não acontece nada de especial para além de cairem folhas das árvores. No Inverno sempre há chuva torrencial e ventos arrasadores, e na Primavera nascem os bichinhos e as flores... mas e no Outono? O Outono é melancolia e saudade, com os últimos vestígios do Verão que passou e os primeiros sinais do Inverno que aí vem. No Outono não há celebrações engraçadas, tirando o S. Martinho que já quase ninguém celebra. Não há roupa de Outono. Não há emoção no Outono. Não há gritos no Outono (tirando os dos vizinhos do outro lado da rua que se ouvem todo o ano).
Está bem, é sempre engraçado pisar as folhas secas nas ruas, a estalarem debaixo dos pés. E é verdade que o Outono tem cores bonitas, douradas e sagradas. E tem o cheirinho das castanhas assadas à entrada da estação de comboios, cada ano mais inflaccionadas e por isso cada vez menos procuradas.
Alguém diz que a sua estação preferida é o Outono? O Outono, tão impávido e sereno, tão quieto e calado, tão triste a lembrar-nos o fim de tudo com as árvores carecas que nos sussuram: "um dia vais ser tuuuuuuu!"
Talvez um dia encontre um estado de alma tão harmonioso que o Outono se tornará uma estação como a outras. Talvez este ano me surpreenda a admirar a quietude dos dias castanhos e me alegre pela calma à minha volta. Talvez este ano o Outono me deslumbre, com ventos mansos e chuvas miúdas. Talvez um dia se descubra que a Terra é mesmo plana. Talvez. Quem sabe?
Talvez esteja apenas desiludida com o fim do Verão e a despejar toda a minha revolta e tristeza contra o pobre Outono que não tem culpa de nada...
E chega o Outono. O Outono é aquela estação que considero a mais parva de todas. Sim, é uma estação parva, em que não acontece nada de especial para além de cairem folhas das árvores. No Inverno sempre há chuva torrencial e ventos arrasadores, e na Primavera nascem os bichinhos e as flores... mas e no Outono? O Outono é melancolia e saudade, com os últimos vestígios do Verão que passou e os primeiros sinais do Inverno que aí vem. No Outono não há celebrações engraçadas, tirando o S. Martinho que já quase ninguém celebra. Não há roupa de Outono. Não há emoção no Outono. Não há gritos no Outono (tirando os dos vizinhos do outro lado da rua que se ouvem todo o ano).
Está bem, é sempre engraçado pisar as folhas secas nas ruas, a estalarem debaixo dos pés. E é verdade que o Outono tem cores bonitas, douradas e sagradas. E tem o cheirinho das castanhas assadas à entrada da estação de comboios, cada ano mais inflaccionadas e por isso cada vez menos procuradas.
Alguém diz que a sua estação preferida é o Outono? O Outono, tão impávido e sereno, tão quieto e calado, tão triste a lembrar-nos o fim de tudo com as árvores carecas que nos sussuram: "um dia vais ser tuuuuuuu!"
Talvez um dia encontre um estado de alma tão harmonioso que o Outono se tornará uma estação como a outras. Talvez este ano me surpreenda a admirar a quietude dos dias castanhos e me alegre pela calma à minha volta. Talvez este ano o Outono me deslumbre, com ventos mansos e chuvas miúdas. Talvez um dia se descubra que a Terra é mesmo plana. Talvez. Quem sabe?
Talvez esteja apenas desiludida com o fim do Verão e a despejar toda a minha revolta e tristeza contra o pobre Outono que não tem culpa de nada...
Friday, September 07, 2007
Ad.... ainda não te vou dizer Ad...Verão!
Estou a escrever a partir de um portátil que não é meu, usando uma rede sem fios que não é minha. Maravilha dos tempos modernos, a internet é a forma mais fácil de pedir emprestadado. Dezenas de redes desprotegidas convidam-me a ligar-me à internet a partir delas. Ora e como quem é bem educado não recusa assim convites, cá estou eu, graças a um vizinho qualquer, a escrever do meu quartinho para o mundo.
Tinha saudades de um portátil. O meu andava revoltado, cuspiu duas teclas, foi para a marca para aprender a ser mais subserviente. Mas, confesso, a sua atitude de menino rebelde conquistou-me. Olhei-o com severidade, arqueei a sobrancelha com ar zangado, mas por dentro alegrava-me saber que o meu portátil tem personalidade. Levava porrada nas teclas todos os dias, até que chegou a hora que se cansou, e, sem ai nem ui, cuspiu-me duas teclas para eu aprender.
E o que me traz aqui para escrever hoje senão o prazer de usufruir da net do vizinho? Pouco. Ando melancólica com o fim do Verão, sempre que começo a escrever sinto um apertozinho no coração, porque sei que está perto, tão perto, a hora de dizer adeus à minha estação mágica. Valeu por todos os momentos, pelo sol na barriga, pelos vidros abertos e o cabelo esvoaçante, pelo sabor a sal no regresso a casa, pelos chinelos à noite, pelo tereré feito num impulso nuns hippies demasiado novos para o poderem ser de facto, pelas noites em alerta à espera de estrelas, cometas e Marte, pela "Sangria da Alegria" que teve até direito a hino, pelos pés do lado de fora do carro, pelas canções que se tornaram promessas inocentes ("Jura que não vais ter uma...." :P), por todos os sítios e acima de tudo por todas as PESSOAS que tornaram este Verão um hino à vida, à alegria e à amizade.
Tinha saudades de um portátil. O meu andava revoltado, cuspiu duas teclas, foi para a marca para aprender a ser mais subserviente. Mas, confesso, a sua atitude de menino rebelde conquistou-me. Olhei-o com severidade, arqueei a sobrancelha com ar zangado, mas por dentro alegrava-me saber que o meu portátil tem personalidade. Levava porrada nas teclas todos os dias, até que chegou a hora que se cansou, e, sem ai nem ui, cuspiu-me duas teclas para eu aprender.
E o que me traz aqui para escrever hoje senão o prazer de usufruir da net do vizinho? Pouco. Ando melancólica com o fim do Verão, sempre que começo a escrever sinto um apertozinho no coração, porque sei que está perto, tão perto, a hora de dizer adeus à minha estação mágica. Valeu por todos os momentos, pelo sol na barriga, pelos vidros abertos e o cabelo esvoaçante, pelo sabor a sal no regresso a casa, pelos chinelos à noite, pelo tereré feito num impulso nuns hippies demasiado novos para o poderem ser de facto, pelas noites em alerta à espera de estrelas, cometas e Marte, pela "Sangria da Alegria" que teve até direito a hino, pelos pés do lado de fora do carro, pelas canções que se tornaram promessas inocentes ("Jura que não vais ter uma...." :P), por todos os sítios e acima de tudo por todas as PESSOAS que tornaram este Verão um hino à vida, à alegria e à amizade.
Saturday, August 25, 2007
Catarse
A minha purificação. Caminhos tortuosos. Essências banhadas de experiências. Inscrevem-se nomes, datas, locais. Há marcas de dias tempestuosos, de vontades vergadas pela força do vento, de arranhões nas verdades inabaláveis.
Lavam-se as certezas adquiridas, e a sua cor tinge as pedras calcadas, como um tecido de má qualidade com que as certezas absolutas se cobrem sempre. Despertam vozes na cidade, gritos de incerto desespero com que assistem àquele que pode ser o seu último pôr-do-sol. Nada é certo, tudo é vago. Nada tenho, quem sou?
Percorrem-se estradas infinitas, poeira que se levanta, incansável, e tolda a vista.
"Tu és só o reflexo de uma miragem alucinada", diz um velho com corpo de árvore, cujas barbas chegam ao solo. "Tu vagueias, nunca chegas. Tu procuras, nunca encontras. Tu desejas, nunca possuis. Tu existes e por isso estás condenada à tua existência disforme, adornada de belas palavras e cores brilhantes, que nunca poderás compreender."
Lavam-se as certezas adquiridas, e a sua cor tinge as pedras calcadas, como um tecido de má qualidade com que as certezas absolutas se cobrem sempre. Despertam vozes na cidade, gritos de incerto desespero com que assistem àquele que pode ser o seu último pôr-do-sol. Nada é certo, tudo é vago. Nada tenho, quem sou?
Percorrem-se estradas infinitas, poeira que se levanta, incansável, e tolda a vista.
"Tu és só o reflexo de uma miragem alucinada", diz um velho com corpo de árvore, cujas barbas chegam ao solo. "Tu vagueias, nunca chegas. Tu procuras, nunca encontras. Tu desejas, nunca possuis. Tu existes e por isso estás condenada à tua existência disforme, adornada de belas palavras e cores brilhantes, que nunca poderás compreender."
Friday, August 24, 2007
2 em 1!!
Tenho duas mãos. Dois pés. Dois olhos. Duas orelhas. Dois pulmões. Dois rins.
Sou um 2 em 1 melhor que o da Garnier!!!
Ah, e tenho uma boca que fala por duas.
Sou um 2 em 1 melhor que o da Garnier!!!
Ah, e tenho uma boca que fala por duas.
Thursday, August 23, 2007
Vamos fazer a dança do sol?
Houve uma altura, depois de ter lido um livrinho qualquer do Tio Patinhas, em que os sobrinhos dos bonézinhos coloridos faziam a dança da chuva com imenso sucesso, em que acreditei piamente na possibilidade de fazer chover graças aos meus passos.
Na infância, é fácil acreditar. Dançávamos em roda, mãos a bater na boca como víamos os índios fazer, gritávamos um AIUAIE e umas quantas palavrinhas e lá ficávamos, crentes e inocentes, à espera das primeiras gotinhas de chuva.
Se alguma vez choveu, não me lembro. Se alguma gota caiu, miraculosamente, nas nossas cabecinhas, enquanto dançávamos, feitas malucas, já foi, imperdoavelmente, esquecida.
Mas neste Agosto triste, em que tão depressa faz sol como vem um vento demoníaco, lembrei-me dessas danças ingénuas em torno de fogueiras inexistentes. E pensei como era bom fazer a dança do sol. Não só do sol, mas do calor, do puro Verão, estação mágica e prometida o ano inteiro! Tudo o que precisava era de gente crente, gente com fé, com aquela fé inocente neles mesmos, que acreditam que podem mudar o mundo. Gente que não se importa de levantar a machadinha e bater na boca, soltar uns UHUHs e voltar uns aninhos atrás, em nome da magia. E acredito que, mesmo que não viesse o calor, o sol, mesmo que nada mudasse à nossa volta, mudávamos nós, e o Verão era outra vez a estação prometida ;)
Monday, August 20, 2007
Adoravel, vertiginosa e encantadoramente dolorosos saltos altos
Saltos altos. Todas as mulheres têm de ter pelo menos um par de saltos. Sejam elas altas ou baixas, os saltos altos marcam a diferença não só pelos centímetros a mais mas também pela forma como embelezam os nossos pés e pernas.
Os saltos são, por excelência, o expoente máximo do feminino. Na vida real e na arte, lá estão eles, numa montra, a piscar-nos o olho, sedutores e vertiginosamente altos. Agulhas, plataformas, cunhas... é salto e é bom.
Lembram-se de como as protagonistas de "Sexo e a Cidade" suspiravam pelos seus JimmyChoos? Sapatos, altos, altíssimos de preferência, faziam as delícias das amigas de Nova Iorque e espicaçavam-nos a vontade de comprar uns.
Muitas mulheres têm, como eu, uma relação de amor-ódio com os saltos. Adoro vê-los nos pés, mas detesto usá-los e suspiro de alívio de cada vez que os descalço.
No Inverno, os saltos são palavra estranha para mim. São as poças de água, a lama, o corre-corre para evitar uma chuvada. Saltos, no Inverno, só mesmo plataformas, confortáveis e invisíveis debaixo das calças compridas.
Mas no Verão, lá estão, os meus saltos, lindos e polidos, a fazer sobressair o pé castanhinho do sol. E aí, é difícil resistir. Eles num canto, as havaianas no outro, travam combates sangrentos pela minha atenção. Geralmente, ganham as havaianas (suponho que os saltos se desequilibrem mais facilmente) mas, principalmente à noite, os saltos dão um ar de sua graça e saltam-me para os pés, ficando eu embevecida, a olhar para os saltinhos de senhorinha nos meus pés de miúda (35/36...).
Resumindo, os saltos não são sapatos. São muito mais que isso. Como dizia a Helen Hunt em "Bobby", depois de comprar uns sapatos de salto alto pretos "It's not about how they feel, but how they look" e eles pareciam, de facto, fantásticos. Saltos são tortura até ao momento em que se cria calo. Felizmente, como não os uso muito, continuam a ser uma tortura para mim. Antes uma noite de sofrimento que uns calos nos pés. É que os calos são só um dos problemas dos fantásticos saltos: dores na coluna, problemas de coluna quando formos mais velhas, calos, joanetes e sei lá mais o quê. Argumentos fracos hoje em dia, em que as pessoas pagam para ser retalhadas em nome da beleza. O Dr House, num espisódio, recusou uma assistente por ela usar saltos altos "Uma mulher que prefere trabalhar de saltos a andar confortável é uma mulher insegura"(algo assim). Fiquei tão orgulhosa por nunca levar saltos para a faculdade!
Sou só uma mulher segura que, de vez em quando, gosta de ver o mundo do topo dos seus saltos altos.
Os saltos são, por excelência, o expoente máximo do feminino. Na vida real e na arte, lá estão eles, numa montra, a piscar-nos o olho, sedutores e vertiginosamente altos. Agulhas, plataformas, cunhas... é salto e é bom.
Lembram-se de como as protagonistas de "Sexo e a Cidade" suspiravam pelos seus JimmyChoos? Sapatos, altos, altíssimos de preferência, faziam as delícias das amigas de Nova Iorque e espicaçavam-nos a vontade de comprar uns.
Muitas mulheres têm, como eu, uma relação de amor-ódio com os saltos. Adoro vê-los nos pés, mas detesto usá-los e suspiro de alívio de cada vez que os descalço.
No Inverno, os saltos são palavra estranha para mim. São as poças de água, a lama, o corre-corre para evitar uma chuvada. Saltos, no Inverno, só mesmo plataformas, confortáveis e invisíveis debaixo das calças compridas.
Mas no Verão, lá estão, os meus saltos, lindos e polidos, a fazer sobressair o pé castanhinho do sol. E aí, é difícil resistir. Eles num canto, as havaianas no outro, travam combates sangrentos pela minha atenção. Geralmente, ganham as havaianas (suponho que os saltos se desequilibrem mais facilmente) mas, principalmente à noite, os saltos dão um ar de sua graça e saltam-me para os pés, ficando eu embevecida, a olhar para os saltinhos de senhorinha nos meus pés de miúda (35/36...).
Resumindo, os saltos não são sapatos. São muito mais que isso. Como dizia a Helen Hunt em "Bobby", depois de comprar uns sapatos de salto alto pretos "It's not about how they feel, but how they look" e eles pareciam, de facto, fantásticos. Saltos são tortura até ao momento em que se cria calo. Felizmente, como não os uso muito, continuam a ser uma tortura para mim. Antes uma noite de sofrimento que uns calos nos pés. É que os calos são só um dos problemas dos fantásticos saltos: dores na coluna, problemas de coluna quando formos mais velhas, calos, joanetes e sei lá mais o quê. Argumentos fracos hoje em dia, em que as pessoas pagam para ser retalhadas em nome da beleza. O Dr House, num espisódio, recusou uma assistente por ela usar saltos altos "Uma mulher que prefere trabalhar de saltos a andar confortável é uma mulher insegura"(algo assim). Fiquei tão orgulhosa por nunca levar saltos para a faculdade!
Sou só uma mulher segura que, de vez em quando, gosta de ver o mundo do topo dos seus saltos altos.
Sunday, August 19, 2007
Oh ser ou não ser, eis a questão!
Tem piada, mas passadas umas horas já não me lembro da maioria das caras daqueles que estiveram sentados ao meu lado. Podia ser algum sintoma de problema grave, mas chama-se só falta de atenção. Se há pessoas que se me gravam na memória outras, enfim, lá vão, tão efémeras na minha vida como o almoço de ontem, com a diferença que não me adicionam calorias (e ainda bem!).
O que torna, então, algumas pessoas permanentes e outras, pura e simplesmente, descartáveis, na minha memória? Apresentem-se dois sujeitos, A e B, durante os mesmos 5 minutos, numa mesma situação. O que tornará A mais ou menos recordável que B?
1. O aspecto físico. Eu sou adepta ferrenha da beleza interior, mas os olhos também vêem. E neste ponto, conta não só a beleza mas também a originalidade. Meninas com franjinhas à moda, óculos à moda, brincos à moda e colares à moda parecem todas mascaradas de igual e torna-se quase impossível decorar as caras delas. Por outro lado, um maluquinho com aspecto de Einstein não me passará despercebido!
2. De A a Z. Alguém que fale será, é natural, mais facilmente reconhecível que alguém que se limite a dizer "passas-me o cinzeiro?". Se bem que algumas pessoas sabem criar uma aura misteriosa à volta delas, com o seu silêncio e olhar inquieto, que nos faz decorar a cara delas para a descrevermos à polícia caso rebente alguma bomba perto.
A verdade é que ter uma memória selectiva, como todos temos, pode ditar situações que preferíamos evitar. Como quando conversamos durante meia hora com alguém a quem só podemos tratar por "tu", "miúda/miúdo" e outros nomes estrategicamente usados nestas situações em que o nosso interlocutor desapareceu da nossa memória.
Um plano bom mesmo, mas mesmo, era tirar fotografias com o telemóvel (bem discreto) às pessoas que se vão sentando na minha mesa, e rotulá-las com o nome e árvore amizadeológica (uma árvore que estabelecia os nossos laços, através das pessoas que conhecíamos, para termos sempre um tema de conversa que seria, claro está, o amigo em comum).
É chato não saber o nome das pessoas. É pior ainda não lhes reconhecer a cara. Mas mau mau é não saberes se alguém te conhece mesmo ou se não passa de um psicopata e ficares ali a sorrir, com cara de parva, enquanto lhe chamas "tu".
Por isso, se me virem estranhamente inclinada na vossa direcção, com o telemóvel na mão, sorriam :)
O que torna, então, algumas pessoas permanentes e outras, pura e simplesmente, descartáveis, na minha memória? Apresentem-se dois sujeitos, A e B, durante os mesmos 5 minutos, numa mesma situação. O que tornará A mais ou menos recordável que B?
1. O aspecto físico. Eu sou adepta ferrenha da beleza interior, mas os olhos também vêem. E neste ponto, conta não só a beleza mas também a originalidade. Meninas com franjinhas à moda, óculos à moda, brincos à moda e colares à moda parecem todas mascaradas de igual e torna-se quase impossível decorar as caras delas. Por outro lado, um maluquinho com aspecto de Einstein não me passará despercebido!
2. De A a Z. Alguém que fale será, é natural, mais facilmente reconhecível que alguém que se limite a dizer "passas-me o cinzeiro?". Se bem que algumas pessoas sabem criar uma aura misteriosa à volta delas, com o seu silêncio e olhar inquieto, que nos faz decorar a cara delas para a descrevermos à polícia caso rebente alguma bomba perto.
A verdade é que ter uma memória selectiva, como todos temos, pode ditar situações que preferíamos evitar. Como quando conversamos durante meia hora com alguém a quem só podemos tratar por "tu", "miúda/miúdo" e outros nomes estrategicamente usados nestas situações em que o nosso interlocutor desapareceu da nossa memória.
Um plano bom mesmo, mas mesmo, era tirar fotografias com o telemóvel (bem discreto) às pessoas que se vão sentando na minha mesa, e rotulá-las com o nome e árvore amizadeológica (uma árvore que estabelecia os nossos laços, através das pessoas que conhecíamos, para termos sempre um tema de conversa que seria, claro está, o amigo em comum).
É chato não saber o nome das pessoas. É pior ainda não lhes reconhecer a cara. Mas mau mau é não saberes se alguém te conhece mesmo ou se não passa de um psicopata e ficares ali a sorrir, com cara de parva, enquanto lhe chamas "tu".
Por isso, se me virem estranhamente inclinada na vossa direcção, com o telemóvel na mão, sorriam :)
Friday, August 10, 2007
Isn't that ironic sir?
Dormi. Às 5h da manhã, finalmente, o reino dos sonhos era meu. Depois de me virar na cama, pernas para o ar, barriga para baixo, cara esborrachada na almofada, estava, finalmente, a dormir.
Acordo com o telemóvel a tocar ainda não são 10 horas. Sabem como é quando o telemóvel toca de manhã? O toque é sempre mais irritante, mais estrindente, parece feito de propósito para nos garantir que o dia não vai correr bem.
Feitas as contas, não prevejo insónias para hoje. Até porque estarei no meu cantinho sagrado, no meio do silêncio e do escuro que ninguém pode perturbar. As malas ainda não estão feitas e ouço reclamações no andar de baixo.
Deus, o destino, o acaso, sei lá, deve ser comediante. Deve ser um gajo com aquele humor muito british, carregado de ironias. Porque quando decides deitar fora o teu "kispo", ele decide fazer chover... (e aqui fica uma bela metáfora para quem a perceber).
Ironic (Alanis Morissette)
"An old man turned ninety-eight
He won the lottery and died the next day
It's a black fly in your Chardonnay
It's a death row pardon two minutes too late
Isn't it ironic ... don't you think
Chorus
It's like rain on your wedding day
It's a free ride when you've already paid
It's the good advice that you just didn't take
Who would've thought ... it figures
Mr. Play It Safe was afraid to fly
He packed his suitcase and kissed his kids good-bye
He waited his whole damn life to take that flight
And as the plane crashed down he thought
'Well isn't this nice...'
And isn't it ironic ... don't you think
Repeat Chorus
Well life has a funny way of sneaking up on you
When you think everything's okay and everything's going right
And life has a funny way of helping you out when
You think everything's gone wrong and everything blows up
In your face
It's a traffic jam when you're already late
It's a no-smoking sign on your cigarette break
It's like ten thousand spoons when all you need is a knife
It's meeting the man of my dreams
And then meeting his beautiful wife
And isn't it ironic... don't you think
A little too ironic... and yeah I really do think...
Repeat Chorus
Life has a funny way of sneaking up on you
Life has a funny, funny way of helping you out
Helping you out "
"A vida tem uma forma estranha de te ajudar"... Eu acredito que sim ;)
PS- Já toda a gente sabe que eu gosto mesmo de me molhar na chuva.
Acordo com o telemóvel a tocar ainda não são 10 horas. Sabem como é quando o telemóvel toca de manhã? O toque é sempre mais irritante, mais estrindente, parece feito de propósito para nos garantir que o dia não vai correr bem.
Feitas as contas, não prevejo insónias para hoje. Até porque estarei no meu cantinho sagrado, no meio do silêncio e do escuro que ninguém pode perturbar. As malas ainda não estão feitas e ouço reclamações no andar de baixo.
Deus, o destino, o acaso, sei lá, deve ser comediante. Deve ser um gajo com aquele humor muito british, carregado de ironias. Porque quando decides deitar fora o teu "kispo", ele decide fazer chover... (e aqui fica uma bela metáfora para quem a perceber).
Ironic (Alanis Morissette)
"An old man turned ninety-eight
He won the lottery and died the next day
It's a black fly in your Chardonnay
It's a death row pardon two minutes too late
Isn't it ironic ... don't you think
Chorus
It's like rain on your wedding day
It's a free ride when you've already paid
It's the good advice that you just didn't take
Who would've thought ... it figures
Mr. Play It Safe was afraid to fly
He packed his suitcase and kissed his kids good-bye
He waited his whole damn life to take that flight
And as the plane crashed down he thought
'Well isn't this nice...'
And isn't it ironic ... don't you think
Repeat Chorus
Well life has a funny way of sneaking up on you
When you think everything's okay and everything's going right
And life has a funny way of helping you out when
You think everything's gone wrong and everything blows up
In your face
It's a traffic jam when you're already late
It's a no-smoking sign on your cigarette break
It's like ten thousand spoons when all you need is a knife
It's meeting the man of my dreams
And then meeting his beautiful wife
And isn't it ironic... don't you think
A little too ironic... and yeah I really do think...
Repeat Chorus
Life has a funny way of sneaking up on you
Life has a funny, funny way of helping you out
Helping you out "
"A vida tem uma forma estranha de te ajudar"... Eu acredito que sim ;)
PS- Já toda a gente sabe que eu gosto mesmo de me molhar na chuva.
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