Friday, August 10, 2007

Insónia

Há noites assim. Em que o cérebro se recusa a abrandar e o corpo não quer paz. Noites em que temos de pensar. Em que se não ficarmos acordados nada vai ficar bem. Temos que solucionar o problema da probreza no mundo, temos que saber as fórmulas da relação perfeita, temos que nos lembrar do que dissemos num dia qualquer, há anos atrás.
Há as noites em que o passado bate à porta e se demora por aí. Hesitamos mas não dormimos. Formigueiro nos neurónios, uma comichão na alma. O futuro balança no topo de uma corda como uma artista de circo que se tenta equilibrar (e "ai se ele cai... vai-se partir" :P o sono não vem mas a noite vai longa e o cérebro vai acumulando funções que o tornam menos coerente).
Se escrever coisas sem nexo, o mundo perdoa-me. Sou só uma miúda com insónias. As pessoas com insónias não têm nexo. As pessoas sem nexo com insónias são disléxicas (hummmmmm....).
E esta miúda com insónias quer comprar um barco. Decidi este Verão que quero um barco. Não quero um iate nem nada disso. Quero só um barquinho com motor para poder perder-me por aí. Na verdade, o que eu quero mesmo é chegar às praias desertas. Pronto, confessei. E depois monto uma cabana deserta numa praia deserta e levo para lá uns desertores de vez em quando, daqueles que gostam mesmo de desertar e de estar em sítios desertos. Viajamos no meu barco mais repleto e não tão deserto porque com as minhas economias não haverá muito espaço para passageiros. Dois, no máximo três, segundo as minhas contas, serão uma multidão. Mas somos desertores e por isso tudo bem. Só queremos um espaço deserto nem que para isso tenhamos de ir amontoados.
A minha vida na praia deserta seria feita à base de estórias à volta da fogueira. O que é complicado quando nunca se acendeu uma fogueira (pelo menos, não uma a sério, daquelas que os "escutas" fazem, todas giras. Será que eles as conseguem acender com duas pedras? Nota: conhecer algum escuteiro/escuteira e perguntar-lhe como é que se faz o truque.)
Depois das estórias íamos assar o peixe. O que também pode revelar-se um problema quando não se é propriamente um ser paciente, sendo que a pesca requer, acreditem que eu sei, MUITA paciência. E é preciso alguém arrancar as tripas do peixe, a não ser que um dos desertores tenha experiência no ramo da peixaria o que me facilitaria imenso a coisa. (nota 2: convencer um potencial desertor a passar uns tempos numa peixaria).
O melhor da coisa é que comíamos em folhas, que serviam de pratos, e assim nunca havia louça para lavar!
Bem, apresentando o pacote de férias, aceitam-se inscrições para desertores. Enviem o vosso C.V. completo, tendo em conta que se valoriza experiência na área da pirotecnia e o do peixe.

PS - acabo de me lembrar que este ano os escuteiros foram proibidos de acender fogueiras. O que é um acampamento sem fogueira pahhh? Agora a malta vai acampar e leva a lamparina de óleo? É uma vergonha, eu tou com os escutas.
PPS - compreendo que isso das fogueiras seja uma medida aparentemente boa para combater os fogos florestais. Mas os escuteiros são daqueles que até saltam em cima das brasas descalços, se for preciso, para garantir que não vai arder nada.
PPPS- dito isto, quero que saibam que nunca vi nenhum escuteiro saltar em cima de brasas e portanto não tentem fazer isso em casa. Deve ser preciso muito calo e toda a gente sabe que isso tá fora de moda. É isso e joanetes.
PPPPS - joanetes. Que horror de nome. Até parece que têm alguma coisa a ver com as "joanas". Eu conheço uma Joana. Mora cá em casa. No quarto ao lado do meu. É uma fixe e, garanto, não tem joanetes.
PPPPPS- e a Joana nem tem joaninhas. Eu se me chamasse Joana tinha uma colónia de joaninhas em casa. Chamando-me Laura vou-me dedicar ao cultivo de loureiros. Ou talvez não.
PPPPPPS- é incrível mas ainda não tenho sono. Os loureiros são óptimos para a comida mas ATENÇÃO: pelo que me chegou aos ouvidos o seu caule é cancerígeno e por isso não se pode abusar. Pelo sim, pelo não, e porque não gosto de mentir, vou confirmar no Google.
PPPPPPPS- não encontrei qualquer referência ao loureiro como sendo cancerígeno. Ou é falso ou o Google patrocina alguma marca de loureiros... No entanto encontrei muito boa gente com o apelido "Loureiro". Não conheço nenhum(a) Loureiro. Chato. Quem me passou a informação sobre o loureiro foi uma boa amiga, cujo segredo recebeu da mãe que provavelmente o terá aprendido com a avó. Se calhar é uma coisa "underground". Caso se venha a confirmar, depois não se esqueçam de me remeter as vossas contribuições. Afinal, quem avisa meu amigo é. Ou teu amigo é? É amigo do mundo e pronto!
PPPPPPPPS- bolas já levo 8 Ps. Já chega. A estas horas quem tiver chegado até aqui já conhece o segredo do loureiro e viu o seu esforço recompensado. Qualquer erro ou dificuldade de expressão deverá ser perdoada pelos olhos que se entortam perante o ecrã e as mãos mais hesitantes. E já não tenho unhas grandes. É diferente teclar assim. Parti 3 a jogar volei, e mandei as outras à vida. Uma pessoa não pode deixar de viver a vida por causa de umas unhas não acham? Assim, as minhas mãos ainda parecem mais pequenas. Mas MESMO pequenas. Tipo, mãos de anão da Branca de Neve. Ai, eu sou o Feliz. Ou Contente. Sou aquele que se ri de tudo.



Aposto que pensavam que vinha aí outro PS. AAHAHAH. Não: sou só eu. Porque o PS não sou eu... Eu nem sou dada a política.
E neste momento perguntam-se as únicas duas pessoas que chegaram a este ponto: "mas a miúda engoliu pilhas duracel?" e eu fico com um ar suspeito tipo: mas vocês andam a fazer algum tipo de publicidade à duracel? Eu só compro pilhas no chinês. Ou no senhor asiático. Porque aprendi hoje no cinema, num anúncio que passa antes do filme, que não se pode dizer "chinoca" nem "preto" nem "branco" nem "monhé" nem "brasuca" nem "de leste"................. Como se o racismo fosse isso.... Olhem, eu sou um bocadinho para a cor do leite com café, por causa do bronze. Sou B..PIIIIIIII (palavra proibida) mas não posso dizer porque senão sou racista. E tenho amigos mais coloridos e escurinhos, eles são P...PIIIIIIIII (palavra proibida), quer dizer são "de cor" porque mais ninguém tem cor, o resto é tudo gente transparente.... E quando eu for jantar ao restaurante da senhora asiática se estiver lá algum senhor daqueles países que se juntaram à União Europeia mais tarde tenho de lhe perguntar donde é que ele veio porque aparentemente eles não são "De L....PIIIIIII" (palavra proibida), isso é só para nos confundir as direcções.
Ah e o senhor que nos vendeu as flores no jantar de terça feira era indiano. Essa foi fácil.

Em vez de se preocuparem com as palavras preocupem-se mais com as condições de vida e com a integração das pessoas. Promovam uma maior circulação de informação sobre as diferentes culturas para que todos percebam que as diferenças não são assim tão grandes. Legalizem os imigrantes em vez de os chularem. Expliquem-lhes os direitos deles para que se possam defender. Mostrem ao mundo que as diferenças enriquecem e que a partilha de experiências nos torna maiores.
Isso sim, é importante. Por mim, chamem-me Bran...PIIIIIIII à vontade!

Para finalizar deixo aqui um poema muito bonito sobre Emigrantes e Imigrantes e sobre Imersão e Emersão. É que a estas horas convém ter uma ajudinha:

Emigra o bom português
Que vai viver em Paris;
Porém imigra o francês
Que vem prò nosso País.

Ninguém terá mais engulhos
Com esta regra ratona:
Imerge quem dá mergulhos
Emerge quem vem à tona.

Nunca mais ninguém duvida
Ante esta regra engraçada:
Com um E… temos saída,
Com um I… temos entrada.
I. Aguilar





(A da regra ratona tem piada! Têm de admitir...)

Caixinha de surpresas

Detesto o previsível e perco-me nas improbabilidades. A camisola amarela com as calças verdes. Faz-me rir. Abre a mão e fecha os olhos.
Não me digas "bom dia" quando me vires, pela manhã. Faz-me um desenho e destrói-o em pedaços de papel, para que o possa montar. Está bem, eu fecho os olhos. Mas tenho medo de abrir a mão. Juras que não é nada de mal?
Conduz do lado errado uma vez na vida, entra vestido no mar, come um gelado debaixo do guarda-chuva. Não posso abrir a mão, estou a agarrar o guarda-chuva e preciso de equilíbrio. Mas fecho os olhos se me avisares dos degraus.
Apanha o comboio sem reparares no destino, escolhe um filme sem conheceres o argumento, não me dês rosas, dá-me girassóis! E eu abro a mão e fecho os olhos, enquanto te ajudo a roubar uma flor num jardim.
E, se assim for, eu hei-de ser sempre aquela pessoa que te diz baixinho ao ouvido "Abre a mão e fecha os olhos".

Gatafunhos

Quando criamos um blog, escrevemos para quem? Escrevo para mim ou para os possíveis visitantes deste espacinho que não existe senão num mundo sem forma?
Qual é o objectivo de um blog? Divulgar ensinamentos, moralismos, lições? Dizermos "Sim, eu existo, olhem para mim!"?
Escrevemos. Vamos debitando linhas impecavelmente traçadas pelo digital. Como eu disse um dia, de que me valeram os esforços no sentido de melhorar a minha caligrafia? De que me valeram os sermões da professora Dulce? "Tens de fazer os teus trabalhos mais apresentáveis. Escreves tudo esborratado, tudo sujo e riscado. Se calhar, é melhor comprares um caderno de linhas duplas para treinares uma letra mais bonitinha."
Suei. Tracei linhas sem fim, testei letras redondas, compridas, à máquina, letras curcundas e elegantes. Finalmente, uma caligrafia impecável, legível. E agora?
Gostava de encontrar a professora Dulce e mostrar-lhe a minha caligrafia perfeita. Calculada, treinada, melhorada com os anos.
Mas na pressa, ela não tem tempo de se mascarar. Voltam os gatafunhos, a letra arrastada, os altos e baixos de uma caneta demasiado lenta para o que quero escrever.
Eu sou assim, como a minha caligrafia. Com os anos fui tentando aperfeiçoar-me, com esforço. Fui tentando ser mais calma, mais ponderada, mais compreensível para os outros. Mas, no fundo, não passo da letra arrastada, apressada e ilegível duma mão que desenha estrelas no canto das páginas. E isso não se esconde.

"Mesmo os dias maus são dias"

São as circunstâncias da vida que nos fazem crescer. É o girar do mundo que nos faz pular da cadeira e saltar para a vida. São as, por aqui conhecidas como, "chapadinhas de realidade" que nos fazem erguer os olhos mais acima e ver para além da superfície pegajosa das nuvens.
É assim e sabe bem.
Sabe bem tirar a crosta duma ferida que sarou. É vício. É o sentimento de vitória perante a dor que já não dói. Apagou-se.
E o mundo girou outra vez debaixo dos meus pés e eu não o senti. Mas ele reflecte-se em cada expressão nova que ganho, nalguma ruga que um dia surgirá, numa borbulha que odiamos pela manhã, nos casacos que não podemos usar porque é Verão. E é bom saber que ele vai continuar a girar mesmo quando eu não tiver força para rodar a grande alavanca. Mesmo assim, ele vai continuar o seu percurso eliptíco, sem se deixar dormir mais cinco minutos, rabugento, debaixo dos lençóis.
"Mesmo os dias maus são dias". Um dia escrevi esta frase num papel qualquer amarrotado no fundo da carteira. Prendi-o num carro e deixei-o ficar lá.
Mesmo os dias maus são dias. E só os podemos viver porque estamos vivos. Tem lógica, não tem? O mau fica algo cinzento, quando pensamos que um dia não vamos poder ter dias maus porque já não vão haver dias. E dias e dias e dias que se repetem, uns atrás dos outros, até ao dia que já não chega.
Com esta lição, não custa tanto. Se tiver de chorar, que seja de estores abertos para poder ver a rua mexer-se, lá em baixo, e o mundo girar, outra vez.

Tuesday, August 07, 2007

Adiarei o meu regresso ainda que em mentira...

E estou de regresso.
Pelas minhas paragens foram ficando pedaços de mim e roubei-lhes as imagens que poderei guardar para sempre comigo (ou até que o Alzheimer as leve....).
E quero partir. Quero voltar à estrada, às estações de serviço, às lutas pelos lugares à janela, às discussões pela música no rádio. Sim, quero voltar ao calor insuportável e ao desconforto nos bancos de trás. Quero voltar à linha do comboio que não acabava nunca e às sandes embaladas em papel celofane. Quero voltar às ovelhinhas que criam trânsito e aos passeios de barco pelo rio com mais ou menos energia.
Estas foram umas das melhores férias de sempre. Os destinos? Os dos costume. Então porque é que desta vez foi tão especial? Será que os lugares mudaram, ou mudei eu? Será que o regresso a casa já não é tão doce? Não sei. Mas quem me dera partir hoje, agora, já, e voltar aos caminhos do ontem que ainda se desenham na minha memória.

Wednesday, July 11, 2007

As meninas bem comportadas

Havia, na minha infância (mas há quanto tempo é que isso foi? Bolas, parecem-me séculos e ao mesmo tempo o dia de ontem) um livro que se chamava "As meninas bem comportadas" ou as meninas qualquer coisa boa.
Estas meninas faziam asneiras mas no fim aprendiam a lição. Caíam ao lago, levavam estranhos para casa (que, claro, eram sempre pessoas de boas famílias e portanto nunca as raptavam), andavam ao estaladão... enfim!
O que me levou a recordar hoje, passados tantos anos, essas meninas e as suas peripécias? A conclusão de que as meninas bem comportadas eram, na verdade, meninas mal comportadas que aprendiam com os seus erros. E que, afinal, a autora daquele livro foi a origem de todo o meu mau comportamento que, na verdade, era só bom comportamento camuflado! E mais: quem me comprou o livro foram os meus pais, fonte, portanto, de qualquer asneira por eles repreendida.
Mas o mais importante de tudo? Confirma-se a regra: "As meninas boas vão para o céu. As más... para todo o lado!". É que aquelas pestinhas andavam sempre em festas chiques em salões, grandes passeios de coche, vestidos com lacinhos da última moda. E afinal, o que fazia as meninas boazinhas não era não fazerem asneiras mas o facto de aprenderem sempre uma lição com os seus erros.
Assim, as meninas boazinhas não são as que não saltam nas poças para não molhar as meias. São as que saltam, ficam encharcadas, constipam-se e depois aprendem. E pronto, é verdade que às vezes não aprendem à primeira, mas um dia vão aprender!

PS- é verdade, eu ainda salto nas poças...

Monday, July 09, 2007

A revolta do meu teclado

O meu portátil foi des-ene-ado, como em desmembrado, só que perdeu a tecla N. Foi um momento negro quando, pequenina, ela se soltou do imenso teclado e partiu, aventureira, em busca de novos caminhos. Queria Nuvens, Notas de música, Novelos desembaraçados... Pedi-lhe "fica!", esmaguei-a contra o seu espaço vazio, e ela, insistente "Não!Não!" e escapava-se sempre, por entre os meus dedos.
Pesadelo do bloguista, cronista, experiência de escritor, isto de teclar no espaço vazio onde se estica o corpo decepado do botão de borracha.
Esqueçamos a tecla N e o seu capricho de aventura. Esqueçamos que se encontra nalgum fundo de gaveta onde aguarda o momento em que será, novamente, presa ao seu teclado por alguém mais credenciado que eu. Quando os objectos ainda se encontram dentro da garantia, é melhor não mexer, avisaram-me. Larga o tubo de cola tudo, e deixa esse martelo onde estava. Está bem, deixemos o meu N vaguear nos sonhos, acreditar que é livre no fundo da sua gaveta, pensar, talvez, que está já em viagem, a caminho de algum sítio melhor.
Cansou-se de levar porrada, até entendo. Vida difícil esta de tecla, eternamente espancada pelos dedos pesados de alguém que se lembrou que queria escrever. O "G" também já não me responde bem. Tenho de o forçar, para que me responda. Em vez de fugir, remeteu-se ao silêncio. Carrego nele repetidamente até que cede. O meu G quer Gotas de chuva, Gritos no telhado, Grinaldas de flores e Gomas de banana.
Aos poucos elas vão-se revoltando, e, pelo sim pelo não, conservo o papel e a caneta para um desses dias sem nome.

Saturday, July 07, 2007

Universos paralelos

O melhor de ir de férias nem é o sol, nem a praia, nem a piscina... Não, o melhor de ir de férias é entrar nesse universo paralelo em que todos os nossos problemas desaparecem. Os nomes são os mesmos, o aspecto é o mesmo, ainda que um bocadinho mais moreno, mas as vidas confundem-se. Deixamos as preocupações para trás, o trabalho que é preciso entregar, a nota que aguardamos daquela frequência que nos correu pessimamente, o corre-corre de cá para lá, a hora do almoço que ainda não está feito, aquela pessoa que sabemos que mente mas a quem continuamos a sorrir para evitar conflitos. Tudo desaparece. Tudo se esgota quando estamos longe, quando o que importa é apanhar o sol de frente e rir o mais que conseguirmos. Deixamos o telemóvel em casa e, por momentos, esquecemos que há gente para além daqueles que estendem a toalha à nossa volta, que há mundo do outro lado do muro que separa a nossa piscina do resto...

E no último dia de férias recebo aquela mensagem que me diz que mesmo sem saber o que dizia o Código de Hamurabi fiz bem em inventar porque tive 14 a teoria política e portanto não há exame para o qual estudar. E no dia em que chego faço o trabalho que é para entregar no dia seguinte e está tudo pronto a tempo. E ignoro aqueles que não são o que parecem porque a vida é mesmo assim, e quando estamos de férias tudo fica mais claro e percebemos que o importante mesmo são as pessoas que conhecemos e que estão lá para nós.


Sesimbra.... vamos voltar?

Sunday, July 01, 2007

Fantoches

Talvez as pazes mais difíceis sejam aquelas que fazemos connosco. Sim, talvez seja dentro de nós que se situa o reino onde é mais difícil alcançar a paz. Porque sabemos tudo, vemos tudo, somos tudo. Porque ao errarmos nos magoamos a nós, porque ao magoarmo-nos só nos podemos odiar a nós, e odiando-nos não aceitamos uma trégua com o nosso eu.
Cá dentro, somos um mundo em conflito. Um mundo que possui as armas mais poderosas de sempre, com capacidade de nos destruir por dentro. Haverá pior forma de destruição, que o corpo vazio, condenado à existência aparente, à dor da ausência, à ausência de dor?
O difícil não é perdoar os outros, é perdoarmo-nos. Nós, fantoches de prazer, sempre empenhados em fazer com que os outros nos aprovem, com que os outros nos valorizem. Demasiado empenhados para que nos lembremos de nos aprovarmos primeiro. Personalidades difusas, perdidas, vagueantes e inconscientes de si.
Para fazer a paz comigo, corto os fios que me conduzem. Solto-me do emaranhado de risos e sorrisos, palavras simpáticas e amáveis. Descoso a língua que trago presa, rasgo os pedaços de tecido colorido e brilhante, a flanela confortável, a seda macia.
Deixo esse palco de luzes e música, os espectadores que não sabem que todos eles se encontram, como eu, presos aos fios, os gestos medidos, as palavras planeadas.
Faço a paz comigo. Faço a paz com o mundo. E perdoo os fantoches que sem o saberem encenam mais um acto no palco da vida e me arranham com os seus fios que balançam ininterruptos.

Os meus heróis

Na infância, os nossos pais são os nossos heróis. Os meus pais sabiam tudo, podiam tudo. O meu pai tinha força suficiente para me carregar nos ombros, ensinou-me a ver a ursa maior nas estrelas, fazia da história um conto fantástico. A minha mãe dava vida aos sonhos, brincava sentada connosco, ríamos até nos doer a barriga, tinha sempre a solução para os nossos problemas.
Na adolescência, os nosso pais são o diabo vestido. Não sabem nada, só querem o nosso mal, parecem empenhados em destruir qualquer vestígio de vida social que tenhamos.
E, de repente, crescemos. E os nossos pais são os nossos heróis outra vez. Mesmo sem saberem tudo, mesmo sem terem a solução para qualquer problema. Porque não haverá nunca ninguém que nos ame tão incondicionalmente, que nos coloque em primeiro lugar, que mova montanhas para sermos felizes. Os meus pais são os meus heróis. Por tudo o que fazem, por tudo o que dizem, mesmo quando não concordo com eles. Por se levantarem todos os dias de manhã para irem trabalhar, mesmo cansados, para nos poderem dar tudo o que precisamos. Por receberem tantas vezes a ingratidão e estarem sempre de braços abertos para me receber a mim. Por aceitarem que somos diferentes e nunca me terem imposto um caminho. Por me permitirem que cometa os meus erros, mesmo com medo que me magoe. Por quererem, pura e simplesmente, que eu seja feliz.
Os maiores heróis não são os de ferro, os imbatíveis, os insensíveis. Os maiores heróis são os de carne e osso, que sofrem, que choram, que sangram, que têm medo, e que, mesmo assim, fazem tudo por nós.

Sunday, June 17, 2007

Tens sonhos?

O tilintar da chave na fechadura que não abre. Teias de aranha que cobrem com o seu véu de noiva o recanto do olhar. Fios de tempo, segundos que se transformam em matéria. Mais um centímetro no cabelo, mais uma ruga no canto da boca. Bate; quem se sabe se abro? Se bateres com força, quem sabe se te ouço? Se insistires, quem sabe se não me levanto e vou até à porta? Espreito e espero em silêncio. Dizes-me o teu nome e deixas as chaves na fechadura. O silêncio. O peso do tempo. Se os meus ossos deixarem, eu estendo a mão até ti. Se o meu corpo permitir, sou gente no alvorecer. Se a minha alma quiser, abro as asas e fujo daqui. Prisioneira. Dessa porta que não abre, dessas teias que me cegam, desse nevoeiro de tule que nos faz duvidar.
Tarde demais. Se não estiveres, fui devagar. Os pés que se arrastaram pelo chão encerado. O meu reflexo turvo que desaparece à minha passagem. Magia. Pós de fada presos à pele. Tens sonhos? Vendo-te dois sonhos e uma utopia, em troca de uma dose de realidade negra. Os sonhos não têm prazo de validade, parece-me uma troca justa, e as utopias são sempre jovens. Consumo a tua dose de realidade em êxtase. Quero sentir os pés no chão. Quero acordar sem desespero. Tenho sonhos comigo para dar e vender. E sinto-a nas veias como um veneno dilacerante. E a realidade confunde-me as cores, e o mundo é negro e o meu corpo é vermelho. E, de repente, não tenho asas. E, de repente, sou só alguém. Perco-me nessas ruas iguais, nessa multidão desfigurada, em néons e ruídos. Escondo o sorriso e baixo a cabeça quando avanço. Posso fingir que está tudo bem enquanto a realidade me faz alucinar.

Monday, June 04, 2007

Cansada

Cansei das formalidades. Das frases feitas, o sorriso amável, as respostas politicamente correctas. Cansei das botas em dias de chuva e do casaco quando está frio. Cansei do "obrigada" quando não há nada a agradecer, do "desculpa" quando estou certa, do silêncio quando quero gritar. Estou cansada de aceitar os defeitos e perdoar os erros que me magoam. Cansada de pensar se estarei certa ou errada em vez de fazer o que me apetece. Estou cansada duma vida congelada em maneiras e hipocrisia. Cansada de regras de educação que me obrigam a ser simpática com aqueles que me julgam sempre na minha ausência.
Cansei da nossa relação perfeita à superfície. Cansei dos arranhões que escondo, das palavras que engulo, dos sorrisos de etiqueta. Dos apertos de mão formais, dos beijinhos que trazem veneno, das palavras deixadas a pairar para quem as quiser apanhar.
Quero gritar. Quero rasgar o véu dourado com que cubrimos as noites e deixar a podridão ao vento. Para que todos sejam forçados a vê-la e a reconheçam.
E, depois, cada sorriso será genuíno, cada palavra mais que educação, cada abraço um gesto sincero.

Thursday, May 24, 2007

Tenho um caniche!

Sabem como é quando saem do cabeleireiro com um penteado novo que, por milagre, não vos fez jurar nunca mais lá voltar? É um daqueles raros momentos em que não pensamos "Mas que merda é esta?!" e em que queremos andar a pé para todo o mundo poder admirar a nossa nova pelugem capilar...
Mas e quando chega a hora de o lavar pela primeira vez? De repente, eis que o cabelo se descontrola, pontas atiçam-se em todas as direcções, a escova começa a parecer minúscula ao pé da juba e então sim, gritam: MAS QUE MERDA É ESTA?!

SOS mundo, estou num momento desses! O meu lindo cabelo longo foi substituído por um penteado à lá caniche e eu só quero um gorro bonito para o esconder!
"Respira, respira... o cabelo cresce, nada de dramas...! SIM, E ATÉ LÁ? "Pões uns ganchinhos, umas fitinhas..." ARRRRGH (diálogo travado entre mim e o espelho)
Volto a lavar o cabelo, a penteá-lo, a prendê-lo com ganchos e ganchinhos. Encho-o com quilos de espuma na esperança de domar a juba há muito adormecida pelo peso dos meus velhos cabelos compridos.
"Há pessoas que nem sequer têm cabelo!", um argumento estúpido, mesmo vindo de um espelho... Tento concentrar-me nas velhinhas carecas mas de repente lembro-me que não conheço nenhuma velhinha careca. Lembro-me daquele árbitro que não tem pêlos e vejo se me consigo sentir melhor (é horrível, eu sei, tentar sentir-me melhor com o sofrimento dos outros, mas neste momento não estou em mim, caramba!) Sei que tenho uma afro que usei no carnaval, mas acho que, mesmo assim, o caniche é menos medonho visto de longe...

É inútil! Dedico-me a criar uma lista de aspectos positivos:

  • menos calor no verão

  • menos trabalho a pentear

  • menos.....

pronto, é curta mas existe, e já se sabe que isso do tamanho não interessa para nada!

Monday, May 21, 2007

Laura Lopez Castro - No es por ser ni por estar

Tem tudo a ver comigo: a melodia, a letra, o vídeo, a voz dela, as estrelinhas e até o nome :P


Sunday, May 20, 2007

Janela

Gosto do mundo, visto da minha janela. Encosto-me a ela e olho. E sonho em ver tudo. Sonho que estas linhas me levam para lá da estação que vem inscrita no meu bilhete. Que tenho um passe para o mundo. Sem limites, prazos ou condições. E se o mundo fosse meu...

Sunday, May 13, 2007

Sonho

Tinha sede. Andava e nunca chegava. E cada passo mais perto era um passo mais longe de onde partira. E chegar onde se não tinha destino? A meta entrelaçada de sonhos que voa ao sabor do vento. Já não a vejo, cobriu-se do pó do tempo. Perdeu-se no meio da areia que me prende os pés. Queria chegar. Lá. Onde dizem que os sonhos se tornam reais. Onde podes ter asas e beber das flores. Abelha, borboleta, efémera. Efémeros os passos, os pés. Efémeras as pegadas que desparecem atrás de mim. Viro-me e nunca fui. Nunca lá estive.
Acordei. Era sonho. Não voltou. Ficou guardado nos fios da almofada, grãos de areia nos lençois, tu que não voltas mais.

Thursday, May 10, 2007

Irresponsabilidade boémia

Como um desabafo, a minha época parece-me errada. A época do cinzento, da correria, da falta de tudo: de tempo, de espaço, de atenção, de carinho.
Sei que não estou sozinha: talvez seja um mal da minha geração, este sentimento de não pertencer ao nosso tempo, de nostalgia por uma época que não vivemos nem conhecemos senão a partir dos livros e filmes, e da boca daqueles que estiveram mais perto dela. Há quem deseje os loucos anos 20, os rebeldes 60, o espírito dos 80. Sonhamos com brindes durante um concerto de jazz nos clubes de New Orleans, com vestidos até aos pés e pó de arroz debaixo dos leques do século XVIII, com as calças à boca de sino e as flores no cabelo enquanto gritamos palavras de revolução.
Estava a conduzir o meu carro do século XX (sim, ele ainda é do século passado, mas, "porém, ele move-se!") enquanto ouvia uma entrevista numa estação de rádio qualquer. Um fotógrafo dizia que sempre fora vadio. Uma palavra com uma conotação sempre tão negativa, ganhava uma outra força quando dita pela sua voz. Vida vadia, essa vida um pouco fora das normas sociais, sem horários nem compromissos habituais, em que partia com a câmara para onde fosse para fotografar o que quisesse. O sonho de uma irresponsabilidade boémia. E o escritor, debruçado sobre o papel sob a luz ténue de uma qualquer lâmpada, o cigarro pendente dos lábios, os óculos a descairem sobre a ponta do nariz. As frases a surgirem e a desaparecerem novamente sob uma chuva de riscos numa eterna procura da perfeição. O escritor que se disfarça com os nomes e os rostos das suas personagens e idealiza para elas um rumo, um mundo e um ser. Tão perto de ser Deus, força suprema, destino, sei lá, criando e destruindo vidas, gerindo as emoções e acções de pessoas de tinta e papel.
Quem me dera essa vida vadia, de sonhos e origamis...

Friday, May 04, 2007

Obrigatório MESMO

Cheguei lá por indicação no blog do Carlos Moura. Valeu a pena. Mais que isso, foi fundamental. Um trabalho que ganhou o Pulitzer e que nos recorda como a vida é preciosa e frágil, e que todos os dias devem ser vividos ao máximo... Carpe Diem. Vejam mesmo!

http://www.pulitzer.org/year/2007/feature-photography/works/index.html

Jogo de vida


No meu 10º ou 11º ano fui apresentada a uma forma de (vi)ver que me mudou para sempre: a filosofia. Todos temos um pouco de filósofos em nós, quando decidimos compreender, ou tentar compreender, aquilo que, de momento, não compreendemos. Filosofia estética, metafísica, moral... que importa? Filosofia, amor ao conhecimento, procura eterna, eterna sede de saber. Foi nessa disciplina, Filosofia, como se todos os seus princípios se pudessem aprender em 2 ou 3 anos, que aprendi uma das maiores lições, que guardo até hoje: o mais importante não são as respostas, mas saber fazer as perguntas.
"Só sei que nada sei", dizia, paradoxalmente, Platão. A aceitação de que nunca poderemos saber tudo foi uma das mais difíceis, a da inevitabilidade da ignorância. Talvez tenha sido devido a essa certeza de que não podemos compreender tudo que a ideia de Destino teve tanta força na Grécia....

Destino.. ou sorte? Quantas vezes não nos confrontámos com esta questão, face aos acontecimentos que não conseguimos compreender? Enquanto uns defendem a ideia de um destino inviolável, há quem se bata pelo lado do acaso. Irónico, o facto de destino e sorte serem, na sua essência, sinónimos. Prefiro acreditar no livre arbítrio: se tudo estiver destinado, que resta ao homem senão seguir coordenadas já traçadas? Diz-me um defensor do destino: Mas foste tu que traçaste o teu destino, quando ainda não eras corpo, para que pudesses aprender alguma lição. Aceito o argumento, enquanto é coerente. Renego-o quando me pergunta se sei o que acontece quando não cumprimos o nosso destino:
é porque estava traçado não o cumprirmos e, assim sendo, não era o nosso destino... certo?


"It's choice - not chance - that determines your destiny", Jean Nidetch

Thursday, May 03, 2007

Passo a passo


São os pequenos passos que nos levam a caminhar as maiores distâncias...