Saturday, June 30, 2012

Eternidade


Não foi por querer, mas morri. Sem doçura nem histerismos, assim como quem adormece sem se aperceber e, de repente, estava morto. Não escutei a música de harpas nem vi chegarem os anjos, de asas abertas e cabelos dourados. Simplesmente, morri. Que desilusão! Nem ninfas, nem estrelas, nem espetáculos cósmicos de luz, nem alguém conhecido para me estender a mão e dizer: por aqui, vem, esperei-te a vida inteira e eis que chegaste. Podia ao menos espreitar Deus, ter um vislumbre do mundo, ver a minha vida assim, a correr, um encadeado de fotografias e cheiros e sons – mas não. Limito-me a estar morto. Para mais, deixei a cama por fazer e a roupa suja espalhada pelo chão do quarto. Pobres dos que acharem o meu corpo: uma chatice ir pelo jardim, de mão dada, sonhando quimeras e de repente deparar-se com o espetáculo de um homem caído no lago, o corpo insuflado, talvez corroído já. Gostaria de lhes dizer que sigam, que não preciso de funeral e dispenso elogios fúnebres, talvez seja melhor assim, Deus não parece ter lugar para mim. Ouçam: sigam em frente. Poderá ser apenas uma partida dos vossos olhos, as pessoas não morrem em lagos bonitos junto de parques infantis, a cara a cobrir-se de nenúfares, as mãos estranhamente arqueadas como se buscassem agarrar-se a um fio de vida ainda por extinguir. Aqui, não há nada. E se for assim para toda a eternidade – que sabe-se lá quanto tempo dura, afinal, quanto tempo passou desde que morri? – que aborrecimento. Ficar assim, só com os pensamentos, destituído de movimento, sem nada que ler, uma revista do social, até, aceitava tudo. Espero que não me encontrem. Imagino as crianças horrorizadas ao assistirem ao meu corpo a ser puxado da água e as mães a correrem para lhes cobrirem os olhos com as mãos, os pesadelos que durarão por semanas e os miúdos a enfiarem-se na cama dos pais com medo do monstro que foi retirado do lago. Pois então foi assim que acabei? Um monstro? Um homem planeia a vida inteira e a vida retribui-lhe assim. Poupa, Francisco, poupa. Junta para uma casinha, junta para a família, junta para que nunca te falte nada. Mas que raio me pode faltar agora, aqui? Ah, sim, algo que ler, uma folha onde escrever, dava tudo o que tenho – perdão, o que tinha – por uma folha de papel em branco – bolas, nem tinha de estar em branco, aceitava tudo – e um pedaço de lápis. Quanto tempo terá passado? Um minuto? Um dia? Um ano? A eternidade? E ela? Ah, ela… Desculpa-me, vais odiar-me tanto. Trago no bolso o anel que tinha para ti. Que nunca o encontrem, não quero que vivas nesse sobressalto de aproveitar o segundo, essa coisa que se apodera dos vivos quando os deixamos e que os obriga a sorver o ar e bater os pés com força na terra para se certificarem de que não esquecem que ainda vivem. Quero que vivas a vida tranquila dos inocentes, a complacente ignorância, o riso fácil, até, diria, a rotina: não há nada de errado nisso, na repetição dos gestos que amamos, pôr a mesa para dois, partilhar o lavatório, lutar pelos lençóis, esconder o comando da televisão, fazer uma festa fácil sobre o cabelo enquanto se lê um livro. Sorve o dia-a-dia com a quietude de quem não tem pressa de viver. Aqui, a eternidade dura muito tempo.

Thursday, May 10, 2012

Deus nos livre

"Já pensou em desistir?"

E debitamos um monte de frases feitas acerca da força, do optimismo e do poder do hoje. Citações, provérbios, exemplos grandiosos de carpe diem e outros clichés absolutamente inúteis que só servem para deixar os outros tranquilos. Deus nos livre de verter uma lágrima.

Thursday, February 23, 2012

Eu sei que vou com uns 20 anos de atraso

mas estou tão viciada nisto...





Mentirinhas piedosas

"As adolescentes são assim. Num momento estão bem e no outro passam-se. Acham que ninguém as entende, que o mundo está contra elas, gritam, choram... São as hormonas... Até se chama à adolescência «idade do armário» porque os pais desejavam poder enfiar os filhos no armário e só voltar a abri-lo quando a adolescência tivesse passado."

"Que horror, mamã! Eu também vou ser assim?"

...

"Não...."

Thursday, February 09, 2012

Para consumir. Sem moderação.


Freelancer, 26, mãe


Não necessariamente por esta ordem de ideias. Mas a vida é bastante caótica por aqui. As nossas manhãs parecem saídas do Apocalypse Now, com pijamas atirados para o sofá, torradas que voam em direção à mesa, segundos cronometrados para fazer face ao relógio e momentos de puro desespero. Ser mãe – digo-o com toda a honestidade – é mesmo, provavelmente, a mais difícil profissão do mundo. Primeiro porque, quando o nosso “funcionário” não cumpre com os seus deveres, não podemos simplesmente despedi-lo. Se, todas as manhãs, o nosso funcionário insiste em agarrar-se aos lençóis e não sair da cama, ou se fica basicamente paralisado a olhar para o pequeno-almoço, não podemos dizer-lhe: “Olhe lá, isto assim não está a funcionar. Lamento muito. Tem até ao final do mês”. É complicado.

A mãe é uma espécie de super-heroína*. Verdade verdadinha. A minha, sobretudo, que parecia arranjar sempre tempo para brincar connosco, fazer jantares, limpar a casa, atender pacientes e ainda deixar uma mão vazia para o que desse e viesse. Não sei como – provavelmente, nunca vou saber.

Cada mãe tem os seus truques, um arsenal de armas secretas aperfeiçoadas ao longo dos anos para conseguir lidar com a loucura que é criar uma criança. Alguns passam de geração para geração – de repente, damos por nós a fazer o que as nossas mães faziam, a dizer o que as nossas mães diziam, e adivinhamos as nossas avós a fazerem o mesmo. Outros, criamo-los nós.

Quando se vive sozinha com uma criança, como eu, a arte de educar requer armas especialmente eficazes. Há contratos devidamente assinados entre ambas as partes onde nos comprometemos a “não gritar”, “ser sempre amigas”, “dar um abracinho apertado e dois beijinhos ao acordar e ao deitar” e “não chegar atrasadas à escola/trabalho” entre outras cláusulas. Há o quadro de multas que estipula que por cada minuto extra no banho, após os 15 permitidos, se devem pagar 5 cêntimos e que cada dia em que nos atrasamos a sair de casa significa uma multa de 10 cêntimos que deve ser paga pela responsável. Há as viagens de carro entre casa e a escola que ora são viagens de avião em que os passageiros podem escolher uma data de sandes e bebidas imaginárias, oferecidas pelo comandante, ora são fugas a catástrofes naturais como terramotos e tsunamis terríveis, ora são corridas de táxi guiadas por personagens sempre diferentes e com sotaques geralmente quase incompreensíveis. Há saltos altos, escada acima escada abaixo - e o que parecia uma excelente forma de fazer exercício torna-se uma espécie de travessia de campo minado - com duas mãos e meia carregadas com mochilas, malas do ballet, lancheiras, saco do ginásio, sacos do lixo, do papel, do plástico, dos vidros, sacos de roupa suja e sacos de roupa limpa, tudo a roçar de forma ameaçadora contra as paredes, organizadas como se se tratassem de incursões militares: AGORA! VAMOS, VAMOS, VAMOS!

E à noite, quando o silêncio relativo de quem mora entre paredes de papel se instala, e finalmente me afundo no sofá (cerca de 5 minutos antes de entrar em coma) há desenhos espalhados de meninas de mãos dadas a sorrir, com balões, arco-íris, cachorrinhos sem qualquer noção de perspectiva e com as quatro patas todas viradas para o mesmo lado, estrelas e confetis. E percebo que no meio do caos também nascem flores.




*o corre(c)tor automático do word não reconhece o termo super-heroína, apenas super-herói. Shame on you, Microsoft, shame on you...


Sunday, November 20, 2011

E eu gosto de viver aqui

Não sei bem por que critérios, Oeiras foi considerado o melhor concelho do país para se viver. E a vida, por aqui, é boa, de facto: temos jardins, parques infantis, boas escolas, centros de saúde que funcionam, estradas bastante aceitáveis, piscinas, ginásios, cinemas, teatros, bares, cafés, transportes públicos (até temos o SATU, que não serve para nada, é um facto, mas temos)...
E tudo isto é lindo e funcional e fofinho em dias de sol. O problema é aquela época do ano em que começa a chover - esta, portanto. Aí, Oeiras consegue transformar-se numa espécie de vila de um país de terceiro mundo: estradas cortadas, rios que transbordam, casas que sofrem inundações. E se nem mesmo o melhor concelho para viver em Portugal consegue controlar o tempo, o mesmo não se pode dizer sobre a limpeza das sarjetas. É que, como leiga que sou, me parece que bastaria isso para, por exemplo, não encerrarem o "sobe-e-desce" (é, Oeiras tem destas coisas) de cada vez que caem duas gotas de chuva. Mas sei lá eu!
Sexta-feira demorei duas horas de Paço de Arcos à estação de Oeiras - um percurso que, em dias normais, faria em 8 minutos. A única solução para conseguir chegar à escola da cria, onde já a imaginava com água pelo pescoço, foi abandonar o carro pelo caminho e, munida de um par de galochas e um guarda-chuva minúsculo da Barbie (o único que tinha), atravessar o rio feita Rambo, enquanto observava os carros com água pelos vidros num desvario de alarmes e luzes.
Senhor Isaltino, se me escuta: deixe lá as rotundas e invista num sistema de escoamento mais eficiente. Pelo andar da carruagem, ainda lhe vamos chamar Sr. Presidente durante mais uns 20 anos - tempo suficiente, portanto, para nos deixar uma vila tão bonita no Verão como no Inverno. O povo - os que votam e os que não votam em si - agradece.

Friday, October 28, 2011

Olhando lá para fora

ninguém diria que, há dois dias, um barco foi lançado do mar para o meio da marginal, o aeroporto de Faro foi esburacado por um mini furacão e as estradas de Oeiras se percorriam bem melhor a remos.

Mas é verdade.
Até há bem pouco tempo, eu não podia imaginar como é complexo o mundo das limpezas domésticas. Para mim, uma vassoura, uma pá, uma esfregona e um paninho amarelo eram a base desta ingrata actividade que, com grande alegria, deleguei na minha empregada, uma vez por semana. Ora, não podia estar mais enganada! Aparentemente, o papel de cozinha não pode ser o do continente porque deixa pelos! Pelos! Suja mais do que limpa, garante-me ela. Mas é o mais baratinho e, por isso, temos pena mas vamos ter de levar com pelos durante mais uns tempos... Ontem, fui comprar um espanador e um limpa-móveis (sim, existe mesmo um produto chamado limpa-móveis). O espanador foi rapidamente humilhado, enxovalhado e remetido para a categoria de "brinquedo": eu sei que um pauzinho com penas cor de rosa não inspira grande profissionalismo mas era o que por lá havia e, dada a manifesta urgência de possuir este instrumento, como podia não o trazer? O limpa-móveis, sob o meu olhar assustado e antecipando um "isto é veneno! derrete os móveis!!", lá passou a inspecção.

Uff! Para a semana há mais....

Thursday, October 27, 2011

Dona Teresa

Um dia qualquer cuja data certa não consigo recordar. Não dá nada de jeito na televisão - não, em nenhunzinho dos 30 e poucos canais que, vai-se lá saber como, eu recebo de graça em casa. Eu, enrolada na minha manta de pelinho que finalmente começa a deixar de cheirar a naftalina, com a chávena de chá ali ao lado, estou nas minhas sete quintas. E eis que, parando na Casa dos Segredos por uns meros 45 segundos, ele me diz logo, com um esgar de puro horror:

- Se deixas isso aí saio já de casa!

Se fosse um programa de maus-tratos a velhinhas, ainda vá... Uma reunião do Ku Klux Klan, pronto... Mas, aparentemente, a Casa dos Segredos marca aquele limite da moral, da decência e de mais qualquer coisa, abaixo do qual ele não consegue sobreviver.

Thursday, October 06, 2011

Este país não é para quem tem cartão de cidadão

Se calhar vocês não sabem, mas quando fazemos o Cartão de Cidadão recebemos uma carta em casa com uma data de números – os PINs – que nos permitem ir levantar o respectivo cartão à conservatória. O que eles não nos dizem é que aquilo não é “para guardar”, simplesmente. Não, aquilo tem de ser protegido com a vida, devemos usar o corpo para o proteger de chuva ou balas, se necessário, porque na verdade o que nos deviam dizer é: “Guarde isso no cofre do banco ou está bem fodida”. Pronto, a verdade é esta. É que, Deus vos livre de tal mal, mas se perdem os códigos, não há outra solução senão fazer um cartão novo. Recuperar PINs? Qual quê?! Faz muito mais sentido enviar-nos de novo para as filas, tirar fotos, descalçar, medir, preencher cada numerozinho outra vez. Faz, não faz? Nem por isso, mas é assim que se passa. Outra coisa engraçada é que quando temos Cartão de Cidadão, se quisermos utilizá-lo para alguma operação online não basta inserir o número e os PINs… Não, isso era demasiado simples e simples é coisa que não assiste a este país. Vai daí, toca tudo a comprar uma máquina de leitura do Cartão de Cidadão, que isso é que dá dinheiro – não a nós, claro, mas isso são pormenores que não interessam.

Se eu podia viver sem cartão de cidadão? Podia, e era bem mais feliz!

Tuesday, September 20, 2011

Lá por casa

Cria ontem, ao chegar ao quarto:
"Mamã, foste tu que fizeste a cama?! Está tão direitinha!!"

Wednesday, September 14, 2011

Fazem-me uma confusão tremenda aquelas pessoas que dizem que não reciclam porque o ecoponto é muiiiito longe de casa. E meter os saquinhos no carro e passar pelo ecoponto no caminho para o trabalho, não? Ai que fica o carro a cheirar mal, que dói nas mãozinhas carregar 3 ou 4 sacos diferentes, que ocupa muito espaço na cozinha... Eu tenho uma cozinha piquinina, piquinina e consegui lá enfiar um caixote de reciclagem. Por isso, se não têm paciência para reciclar, assumam-no. Chamemos as coisas pelos nomes. Em 2008 existiam mais de 25 mil ecopontos em Portugal - e o número, presume-se, está bem mais gordinho por estes dias. Ou seja: ou não reciclam e assumem que se estão a marimbar para a coisa ou comecem a reciclar e acabem com o choradinho de que não há ecopontos por perto, que, pelo menos em Lisboa, é coisa que não falta.

Arrrgh!

Thursday, September 08, 2011

Quem me dera que pudesses ficar, só mais um bocadinho. Ali, encostado à janela. Nem tinhas de falar, ser engraçado, fazer conversa de circunstância. Podias limitar-te a olhar os livros, como faço às vezes, sentada no tapete, enquanto penso. Fixo as lombadas e penso, rabisco decisões, aposto em sonhos. Se pudesses ficar acabavas por diluir, um pouco, este silêncio. É sempre diferente o silêncio a dois. Tem altos e baixos e cores e texturas e quase se consegue sentir o sabor na ponta da língua. Venho de uma casa cheia: de pessoas, gatos, peixes, televisores, revistas abertas sobre a mesa de centro. E o silêncio não é coisa que me caiba bem: quase como uma camisola demasiado grande, a sobrar nas mangas, a cobrir os joelhos. Se puderes, fica um bocadinho.

Monday, August 29, 2011

fim-de-semana

O que o Ikea não informa é que, uma vez chegados a casa, temos de prender 82 flores de papel, uma a uma, do topo do escadote, com o candeeiro já pendurado no tecto. Tirando isso, é fofinho e fica mesmo bem na minha sala.





Monday, August 22, 2011

Temos uma casa

Despedi-me dos meus pais como se estivesse a partir para a guerra. Sou uma menina dos papás, é verdade. Abracinhos, lágrimas, ai meu deus, ai meu deus... Agora, está feito. Não há volta a dar. Tenho o meu nome numa mão cheia de contratos que existem em duplicado. A mobília já está toda montada, a casa já cheira a casa e até já lá cozinhei arroz. Para tornar a coisa ainda mais oficial, o Douradinho e o Pintinhas já nadam alegremente no aquário, sinal de que esta é, definitivamente, uma casa habitada, com moradoras responsáveis que não deixam morrer os animais à fome (a ver vamos).
Faltam candeeiros, tapetes, cortinados. Faltam recordações àqueles cantos meios despidos. Vamos habitando e espetando pequenas bandeiras, aos poucos. Ali foi onde a cria espetou o pau de Mikado na mão. Olha, ali foi onde comemos o fondue com pedaços de sangue (não queiram saber). E ali foi onde o chuveiro entrou em colapso e desatou a atirar água num ângulo de 360º. É bonito. Temos uma casa.

Sunday, August 14, 2011

Who's your mommy?

Quando decidi sair de casa, achei que devia deixar a cria escolher o quarto. Seria uma forma de a entusiasmar com o projecto e minimizar o sofrimento de a afastar dos avós, da tia e do gato, com quem vivemos até agora.

Ideia estúpida, claro. Porque, ao contrário de mim, ela não é nada estúpida e escolheu o quarto maior, cheio de sol. Então, enquanto eu me encosto à parede do meu quarto, em desespero, a tentar perceber onde vou enfiar os móveis, ela brinca no meio do sol, os cabelos a refulgir com a luz, e deita-me a língua de fora.

- Amor, não queres trocar de quarto?
- Não!
- Mas tu não precisas de...
- Não, mamã! Disseste que eu podia escolher.
- Pois... Mas, sabes, a minha mobília é tão grande...
- Não.

Lembrem-me lá quem é que manda em casa?...


Friday, August 12, 2011

Inspecção ao gás OU como eu descobri que estive a um passo do fim

-Pois, está a ver, isto é como se se fechasse numa garagem com o carro ligado.
- Hum, hum...
- A ligação em T impede que o monóxido de carbono passe.
- Ah!
- E o esquentador também deve fazer pequenas explosões de vez em quando.
- Explosões?
- Sim, não vê aqui a porta queimada?
- .... Explosões?
- Não se preocupe. Diga ao proprietário que tem de chamar alguém para vir afinar isto.
- Ah, está bem, está bem, obrigada!

Conclusão: na próxima casa só se usa electricidade. Ponto.

Habemus lux!!