Friday, August 10, 2007

Insónia

Há noites assim. Em que o cérebro se recusa a abrandar e o corpo não quer paz. Noites em que temos de pensar. Em que se não ficarmos acordados nada vai ficar bem. Temos que solucionar o problema da probreza no mundo, temos que saber as fórmulas da relação perfeita, temos que nos lembrar do que dissemos num dia qualquer, há anos atrás.
Há as noites em que o passado bate à porta e se demora por aí. Hesitamos mas não dormimos. Formigueiro nos neurónios, uma comichão na alma. O futuro balança no topo de uma corda como uma artista de circo que se tenta equilibrar (e "ai se ele cai... vai-se partir" :P o sono não vem mas a noite vai longa e o cérebro vai acumulando funções que o tornam menos coerente).
Se escrever coisas sem nexo, o mundo perdoa-me. Sou só uma miúda com insónias. As pessoas com insónias não têm nexo. As pessoas sem nexo com insónias são disléxicas (hummmmmm....).
E esta miúda com insónias quer comprar um barco. Decidi este Verão que quero um barco. Não quero um iate nem nada disso. Quero só um barquinho com motor para poder perder-me por aí. Na verdade, o que eu quero mesmo é chegar às praias desertas. Pronto, confessei. E depois monto uma cabana deserta numa praia deserta e levo para lá uns desertores de vez em quando, daqueles que gostam mesmo de desertar e de estar em sítios desertos. Viajamos no meu barco mais repleto e não tão deserto porque com as minhas economias não haverá muito espaço para passageiros. Dois, no máximo três, segundo as minhas contas, serão uma multidão. Mas somos desertores e por isso tudo bem. Só queremos um espaço deserto nem que para isso tenhamos de ir amontoados.
A minha vida na praia deserta seria feita à base de estórias à volta da fogueira. O que é complicado quando nunca se acendeu uma fogueira (pelo menos, não uma a sério, daquelas que os "escutas" fazem, todas giras. Será que eles as conseguem acender com duas pedras? Nota: conhecer algum escuteiro/escuteira e perguntar-lhe como é que se faz o truque.)
Depois das estórias íamos assar o peixe. O que também pode revelar-se um problema quando não se é propriamente um ser paciente, sendo que a pesca requer, acreditem que eu sei, MUITA paciência. E é preciso alguém arrancar as tripas do peixe, a não ser que um dos desertores tenha experiência no ramo da peixaria o que me facilitaria imenso a coisa. (nota 2: convencer um potencial desertor a passar uns tempos numa peixaria).
O melhor da coisa é que comíamos em folhas, que serviam de pratos, e assim nunca havia louça para lavar!
Bem, apresentando o pacote de férias, aceitam-se inscrições para desertores. Enviem o vosso C.V. completo, tendo em conta que se valoriza experiência na área da pirotecnia e o do peixe.

PS - acabo de me lembrar que este ano os escuteiros foram proibidos de acender fogueiras. O que é um acampamento sem fogueira pahhh? Agora a malta vai acampar e leva a lamparina de óleo? É uma vergonha, eu tou com os escutas.
PPS - compreendo que isso das fogueiras seja uma medida aparentemente boa para combater os fogos florestais. Mas os escuteiros são daqueles que até saltam em cima das brasas descalços, se for preciso, para garantir que não vai arder nada.
PPPS- dito isto, quero que saibam que nunca vi nenhum escuteiro saltar em cima de brasas e portanto não tentem fazer isso em casa. Deve ser preciso muito calo e toda a gente sabe que isso tá fora de moda. É isso e joanetes.
PPPPS - joanetes. Que horror de nome. Até parece que têm alguma coisa a ver com as "joanas". Eu conheço uma Joana. Mora cá em casa. No quarto ao lado do meu. É uma fixe e, garanto, não tem joanetes.
PPPPPS- e a Joana nem tem joaninhas. Eu se me chamasse Joana tinha uma colónia de joaninhas em casa. Chamando-me Laura vou-me dedicar ao cultivo de loureiros. Ou talvez não.
PPPPPPS- é incrível mas ainda não tenho sono. Os loureiros são óptimos para a comida mas ATENÇÃO: pelo que me chegou aos ouvidos o seu caule é cancerígeno e por isso não se pode abusar. Pelo sim, pelo não, e porque não gosto de mentir, vou confirmar no Google.
PPPPPPPS- não encontrei qualquer referência ao loureiro como sendo cancerígeno. Ou é falso ou o Google patrocina alguma marca de loureiros... No entanto encontrei muito boa gente com o apelido "Loureiro". Não conheço nenhum(a) Loureiro. Chato. Quem me passou a informação sobre o loureiro foi uma boa amiga, cujo segredo recebeu da mãe que provavelmente o terá aprendido com a avó. Se calhar é uma coisa "underground". Caso se venha a confirmar, depois não se esqueçam de me remeter as vossas contribuições. Afinal, quem avisa meu amigo é. Ou teu amigo é? É amigo do mundo e pronto!
PPPPPPPPS- bolas já levo 8 Ps. Já chega. A estas horas quem tiver chegado até aqui já conhece o segredo do loureiro e viu o seu esforço recompensado. Qualquer erro ou dificuldade de expressão deverá ser perdoada pelos olhos que se entortam perante o ecrã e as mãos mais hesitantes. E já não tenho unhas grandes. É diferente teclar assim. Parti 3 a jogar volei, e mandei as outras à vida. Uma pessoa não pode deixar de viver a vida por causa de umas unhas não acham? Assim, as minhas mãos ainda parecem mais pequenas. Mas MESMO pequenas. Tipo, mãos de anão da Branca de Neve. Ai, eu sou o Feliz. Ou Contente. Sou aquele que se ri de tudo.



Aposto que pensavam que vinha aí outro PS. AAHAHAH. Não: sou só eu. Porque o PS não sou eu... Eu nem sou dada a política.
E neste momento perguntam-se as únicas duas pessoas que chegaram a este ponto: "mas a miúda engoliu pilhas duracel?" e eu fico com um ar suspeito tipo: mas vocês andam a fazer algum tipo de publicidade à duracel? Eu só compro pilhas no chinês. Ou no senhor asiático. Porque aprendi hoje no cinema, num anúncio que passa antes do filme, que não se pode dizer "chinoca" nem "preto" nem "branco" nem "monhé" nem "brasuca" nem "de leste"................. Como se o racismo fosse isso.... Olhem, eu sou um bocadinho para a cor do leite com café, por causa do bronze. Sou B..PIIIIIIII (palavra proibida) mas não posso dizer porque senão sou racista. E tenho amigos mais coloridos e escurinhos, eles são P...PIIIIIIIII (palavra proibida), quer dizer são "de cor" porque mais ninguém tem cor, o resto é tudo gente transparente.... E quando eu for jantar ao restaurante da senhora asiática se estiver lá algum senhor daqueles países que se juntaram à União Europeia mais tarde tenho de lhe perguntar donde é que ele veio porque aparentemente eles não são "De L....PIIIIIII" (palavra proibida), isso é só para nos confundir as direcções.
Ah e o senhor que nos vendeu as flores no jantar de terça feira era indiano. Essa foi fácil.

Em vez de se preocuparem com as palavras preocupem-se mais com as condições de vida e com a integração das pessoas. Promovam uma maior circulação de informação sobre as diferentes culturas para que todos percebam que as diferenças não são assim tão grandes. Legalizem os imigrantes em vez de os chularem. Expliquem-lhes os direitos deles para que se possam defender. Mostrem ao mundo que as diferenças enriquecem e que a partilha de experiências nos torna maiores.
Isso sim, é importante. Por mim, chamem-me Bran...PIIIIIIII à vontade!

Para finalizar deixo aqui um poema muito bonito sobre Emigrantes e Imigrantes e sobre Imersão e Emersão. É que a estas horas convém ter uma ajudinha:

Emigra o bom português
Que vai viver em Paris;
Porém imigra o francês
Que vem prò nosso País.

Ninguém terá mais engulhos
Com esta regra ratona:
Imerge quem dá mergulhos
Emerge quem vem à tona.

Nunca mais ninguém duvida
Ante esta regra engraçada:
Com um E… temos saída,
Com um I… temos entrada.
I. Aguilar





(A da regra ratona tem piada! Têm de admitir...)

Caixinha de surpresas

Detesto o previsível e perco-me nas improbabilidades. A camisola amarela com as calças verdes. Faz-me rir. Abre a mão e fecha os olhos.
Não me digas "bom dia" quando me vires, pela manhã. Faz-me um desenho e destrói-o em pedaços de papel, para que o possa montar. Está bem, eu fecho os olhos. Mas tenho medo de abrir a mão. Juras que não é nada de mal?
Conduz do lado errado uma vez na vida, entra vestido no mar, come um gelado debaixo do guarda-chuva. Não posso abrir a mão, estou a agarrar o guarda-chuva e preciso de equilíbrio. Mas fecho os olhos se me avisares dos degraus.
Apanha o comboio sem reparares no destino, escolhe um filme sem conheceres o argumento, não me dês rosas, dá-me girassóis! E eu abro a mão e fecho os olhos, enquanto te ajudo a roubar uma flor num jardim.
E, se assim for, eu hei-de ser sempre aquela pessoa que te diz baixinho ao ouvido "Abre a mão e fecha os olhos".

Gatafunhos

Quando criamos um blog, escrevemos para quem? Escrevo para mim ou para os possíveis visitantes deste espacinho que não existe senão num mundo sem forma?
Qual é o objectivo de um blog? Divulgar ensinamentos, moralismos, lições? Dizermos "Sim, eu existo, olhem para mim!"?
Escrevemos. Vamos debitando linhas impecavelmente traçadas pelo digital. Como eu disse um dia, de que me valeram os esforços no sentido de melhorar a minha caligrafia? De que me valeram os sermões da professora Dulce? "Tens de fazer os teus trabalhos mais apresentáveis. Escreves tudo esborratado, tudo sujo e riscado. Se calhar, é melhor comprares um caderno de linhas duplas para treinares uma letra mais bonitinha."
Suei. Tracei linhas sem fim, testei letras redondas, compridas, à máquina, letras curcundas e elegantes. Finalmente, uma caligrafia impecável, legível. E agora?
Gostava de encontrar a professora Dulce e mostrar-lhe a minha caligrafia perfeita. Calculada, treinada, melhorada com os anos.
Mas na pressa, ela não tem tempo de se mascarar. Voltam os gatafunhos, a letra arrastada, os altos e baixos de uma caneta demasiado lenta para o que quero escrever.
Eu sou assim, como a minha caligrafia. Com os anos fui tentando aperfeiçoar-me, com esforço. Fui tentando ser mais calma, mais ponderada, mais compreensível para os outros. Mas, no fundo, não passo da letra arrastada, apressada e ilegível duma mão que desenha estrelas no canto das páginas. E isso não se esconde.

"Mesmo os dias maus são dias"

São as circunstâncias da vida que nos fazem crescer. É o girar do mundo que nos faz pular da cadeira e saltar para a vida. São as, por aqui conhecidas como, "chapadinhas de realidade" que nos fazem erguer os olhos mais acima e ver para além da superfície pegajosa das nuvens.
É assim e sabe bem.
Sabe bem tirar a crosta duma ferida que sarou. É vício. É o sentimento de vitória perante a dor que já não dói. Apagou-se.
E o mundo girou outra vez debaixo dos meus pés e eu não o senti. Mas ele reflecte-se em cada expressão nova que ganho, nalguma ruga que um dia surgirá, numa borbulha que odiamos pela manhã, nos casacos que não podemos usar porque é Verão. E é bom saber que ele vai continuar a girar mesmo quando eu não tiver força para rodar a grande alavanca. Mesmo assim, ele vai continuar o seu percurso eliptíco, sem se deixar dormir mais cinco minutos, rabugento, debaixo dos lençóis.
"Mesmo os dias maus são dias". Um dia escrevi esta frase num papel qualquer amarrotado no fundo da carteira. Prendi-o num carro e deixei-o ficar lá.
Mesmo os dias maus são dias. E só os podemos viver porque estamos vivos. Tem lógica, não tem? O mau fica algo cinzento, quando pensamos que um dia não vamos poder ter dias maus porque já não vão haver dias. E dias e dias e dias que se repetem, uns atrás dos outros, até ao dia que já não chega.
Com esta lição, não custa tanto. Se tiver de chorar, que seja de estores abertos para poder ver a rua mexer-se, lá em baixo, e o mundo girar, outra vez.

Tuesday, August 07, 2007

Adiarei o meu regresso ainda que em mentira...

E estou de regresso.
Pelas minhas paragens foram ficando pedaços de mim e roubei-lhes as imagens que poderei guardar para sempre comigo (ou até que o Alzheimer as leve....).
E quero partir. Quero voltar à estrada, às estações de serviço, às lutas pelos lugares à janela, às discussões pela música no rádio. Sim, quero voltar ao calor insuportável e ao desconforto nos bancos de trás. Quero voltar à linha do comboio que não acabava nunca e às sandes embaladas em papel celofane. Quero voltar às ovelhinhas que criam trânsito e aos passeios de barco pelo rio com mais ou menos energia.
Estas foram umas das melhores férias de sempre. Os destinos? Os dos costume. Então porque é que desta vez foi tão especial? Será que os lugares mudaram, ou mudei eu? Será que o regresso a casa já não é tão doce? Não sei. Mas quem me dera partir hoje, agora, já, e voltar aos caminhos do ontem que ainda se desenham na minha memória.

Wednesday, July 11, 2007

As meninas bem comportadas

Havia, na minha infância (mas há quanto tempo é que isso foi? Bolas, parecem-me séculos e ao mesmo tempo o dia de ontem) um livro que se chamava "As meninas bem comportadas" ou as meninas qualquer coisa boa.
Estas meninas faziam asneiras mas no fim aprendiam a lição. Caíam ao lago, levavam estranhos para casa (que, claro, eram sempre pessoas de boas famílias e portanto nunca as raptavam), andavam ao estaladão... enfim!
O que me levou a recordar hoje, passados tantos anos, essas meninas e as suas peripécias? A conclusão de que as meninas bem comportadas eram, na verdade, meninas mal comportadas que aprendiam com os seus erros. E que, afinal, a autora daquele livro foi a origem de todo o meu mau comportamento que, na verdade, era só bom comportamento camuflado! E mais: quem me comprou o livro foram os meus pais, fonte, portanto, de qualquer asneira por eles repreendida.
Mas o mais importante de tudo? Confirma-se a regra: "As meninas boas vão para o céu. As más... para todo o lado!". É que aquelas pestinhas andavam sempre em festas chiques em salões, grandes passeios de coche, vestidos com lacinhos da última moda. E afinal, o que fazia as meninas boazinhas não era não fazerem asneiras mas o facto de aprenderem sempre uma lição com os seus erros.
Assim, as meninas boazinhas não são as que não saltam nas poças para não molhar as meias. São as que saltam, ficam encharcadas, constipam-se e depois aprendem. E pronto, é verdade que às vezes não aprendem à primeira, mas um dia vão aprender!

PS- é verdade, eu ainda salto nas poças...

Monday, July 09, 2007

A revolta do meu teclado

O meu portátil foi des-ene-ado, como em desmembrado, só que perdeu a tecla N. Foi um momento negro quando, pequenina, ela se soltou do imenso teclado e partiu, aventureira, em busca de novos caminhos. Queria Nuvens, Notas de música, Novelos desembaraçados... Pedi-lhe "fica!", esmaguei-a contra o seu espaço vazio, e ela, insistente "Não!Não!" e escapava-se sempre, por entre os meus dedos.
Pesadelo do bloguista, cronista, experiência de escritor, isto de teclar no espaço vazio onde se estica o corpo decepado do botão de borracha.
Esqueçamos a tecla N e o seu capricho de aventura. Esqueçamos que se encontra nalgum fundo de gaveta onde aguarda o momento em que será, novamente, presa ao seu teclado por alguém mais credenciado que eu. Quando os objectos ainda se encontram dentro da garantia, é melhor não mexer, avisaram-me. Larga o tubo de cola tudo, e deixa esse martelo onde estava. Está bem, deixemos o meu N vaguear nos sonhos, acreditar que é livre no fundo da sua gaveta, pensar, talvez, que está já em viagem, a caminho de algum sítio melhor.
Cansou-se de levar porrada, até entendo. Vida difícil esta de tecla, eternamente espancada pelos dedos pesados de alguém que se lembrou que queria escrever. O "G" também já não me responde bem. Tenho de o forçar, para que me responda. Em vez de fugir, remeteu-se ao silêncio. Carrego nele repetidamente até que cede. O meu G quer Gotas de chuva, Gritos no telhado, Grinaldas de flores e Gomas de banana.
Aos poucos elas vão-se revoltando, e, pelo sim pelo não, conservo o papel e a caneta para um desses dias sem nome.

Saturday, July 07, 2007

Universos paralelos

O melhor de ir de férias nem é o sol, nem a praia, nem a piscina... Não, o melhor de ir de férias é entrar nesse universo paralelo em que todos os nossos problemas desaparecem. Os nomes são os mesmos, o aspecto é o mesmo, ainda que um bocadinho mais moreno, mas as vidas confundem-se. Deixamos as preocupações para trás, o trabalho que é preciso entregar, a nota que aguardamos daquela frequência que nos correu pessimamente, o corre-corre de cá para lá, a hora do almoço que ainda não está feito, aquela pessoa que sabemos que mente mas a quem continuamos a sorrir para evitar conflitos. Tudo desaparece. Tudo se esgota quando estamos longe, quando o que importa é apanhar o sol de frente e rir o mais que conseguirmos. Deixamos o telemóvel em casa e, por momentos, esquecemos que há gente para além daqueles que estendem a toalha à nossa volta, que há mundo do outro lado do muro que separa a nossa piscina do resto...

E no último dia de férias recebo aquela mensagem que me diz que mesmo sem saber o que dizia o Código de Hamurabi fiz bem em inventar porque tive 14 a teoria política e portanto não há exame para o qual estudar. E no dia em que chego faço o trabalho que é para entregar no dia seguinte e está tudo pronto a tempo. E ignoro aqueles que não são o que parecem porque a vida é mesmo assim, e quando estamos de férias tudo fica mais claro e percebemos que o importante mesmo são as pessoas que conhecemos e que estão lá para nós.


Sesimbra.... vamos voltar?

Sunday, July 01, 2007

Fantoches

Talvez as pazes mais difíceis sejam aquelas que fazemos connosco. Sim, talvez seja dentro de nós que se situa o reino onde é mais difícil alcançar a paz. Porque sabemos tudo, vemos tudo, somos tudo. Porque ao errarmos nos magoamos a nós, porque ao magoarmo-nos só nos podemos odiar a nós, e odiando-nos não aceitamos uma trégua com o nosso eu.
Cá dentro, somos um mundo em conflito. Um mundo que possui as armas mais poderosas de sempre, com capacidade de nos destruir por dentro. Haverá pior forma de destruição, que o corpo vazio, condenado à existência aparente, à dor da ausência, à ausência de dor?
O difícil não é perdoar os outros, é perdoarmo-nos. Nós, fantoches de prazer, sempre empenhados em fazer com que os outros nos aprovem, com que os outros nos valorizem. Demasiado empenhados para que nos lembremos de nos aprovarmos primeiro. Personalidades difusas, perdidas, vagueantes e inconscientes de si.
Para fazer a paz comigo, corto os fios que me conduzem. Solto-me do emaranhado de risos e sorrisos, palavras simpáticas e amáveis. Descoso a língua que trago presa, rasgo os pedaços de tecido colorido e brilhante, a flanela confortável, a seda macia.
Deixo esse palco de luzes e música, os espectadores que não sabem que todos eles se encontram, como eu, presos aos fios, os gestos medidos, as palavras planeadas.
Faço a paz comigo. Faço a paz com o mundo. E perdoo os fantoches que sem o saberem encenam mais um acto no palco da vida e me arranham com os seus fios que balançam ininterruptos.

Os meus heróis

Na infância, os nossos pais são os nossos heróis. Os meus pais sabiam tudo, podiam tudo. O meu pai tinha força suficiente para me carregar nos ombros, ensinou-me a ver a ursa maior nas estrelas, fazia da história um conto fantástico. A minha mãe dava vida aos sonhos, brincava sentada connosco, ríamos até nos doer a barriga, tinha sempre a solução para os nossos problemas.
Na adolescência, os nosso pais são o diabo vestido. Não sabem nada, só querem o nosso mal, parecem empenhados em destruir qualquer vestígio de vida social que tenhamos.
E, de repente, crescemos. E os nossos pais são os nossos heróis outra vez. Mesmo sem saberem tudo, mesmo sem terem a solução para qualquer problema. Porque não haverá nunca ninguém que nos ame tão incondicionalmente, que nos coloque em primeiro lugar, que mova montanhas para sermos felizes. Os meus pais são os meus heróis. Por tudo o que fazem, por tudo o que dizem, mesmo quando não concordo com eles. Por se levantarem todos os dias de manhã para irem trabalhar, mesmo cansados, para nos poderem dar tudo o que precisamos. Por receberem tantas vezes a ingratidão e estarem sempre de braços abertos para me receber a mim. Por aceitarem que somos diferentes e nunca me terem imposto um caminho. Por me permitirem que cometa os meus erros, mesmo com medo que me magoe. Por quererem, pura e simplesmente, que eu seja feliz.
Os maiores heróis não são os de ferro, os imbatíveis, os insensíveis. Os maiores heróis são os de carne e osso, que sofrem, que choram, que sangram, que têm medo, e que, mesmo assim, fazem tudo por nós.

Sunday, June 17, 2007

Tens sonhos?

O tilintar da chave na fechadura que não abre. Teias de aranha que cobrem com o seu véu de noiva o recanto do olhar. Fios de tempo, segundos que se transformam em matéria. Mais um centímetro no cabelo, mais uma ruga no canto da boca. Bate; quem se sabe se abro? Se bateres com força, quem sabe se te ouço? Se insistires, quem sabe se não me levanto e vou até à porta? Espreito e espero em silêncio. Dizes-me o teu nome e deixas as chaves na fechadura. O silêncio. O peso do tempo. Se os meus ossos deixarem, eu estendo a mão até ti. Se o meu corpo permitir, sou gente no alvorecer. Se a minha alma quiser, abro as asas e fujo daqui. Prisioneira. Dessa porta que não abre, dessas teias que me cegam, desse nevoeiro de tule que nos faz duvidar.
Tarde demais. Se não estiveres, fui devagar. Os pés que se arrastaram pelo chão encerado. O meu reflexo turvo que desaparece à minha passagem. Magia. Pós de fada presos à pele. Tens sonhos? Vendo-te dois sonhos e uma utopia, em troca de uma dose de realidade negra. Os sonhos não têm prazo de validade, parece-me uma troca justa, e as utopias são sempre jovens. Consumo a tua dose de realidade em êxtase. Quero sentir os pés no chão. Quero acordar sem desespero. Tenho sonhos comigo para dar e vender. E sinto-a nas veias como um veneno dilacerante. E a realidade confunde-me as cores, e o mundo é negro e o meu corpo é vermelho. E, de repente, não tenho asas. E, de repente, sou só alguém. Perco-me nessas ruas iguais, nessa multidão desfigurada, em néons e ruídos. Escondo o sorriso e baixo a cabeça quando avanço. Posso fingir que está tudo bem enquanto a realidade me faz alucinar.

Monday, June 04, 2007

Cansada

Cansei das formalidades. Das frases feitas, o sorriso amável, as respostas politicamente correctas. Cansei das botas em dias de chuva e do casaco quando está frio. Cansei do "obrigada" quando não há nada a agradecer, do "desculpa" quando estou certa, do silêncio quando quero gritar. Estou cansada de aceitar os defeitos e perdoar os erros que me magoam. Cansada de pensar se estarei certa ou errada em vez de fazer o que me apetece. Estou cansada duma vida congelada em maneiras e hipocrisia. Cansada de regras de educação que me obrigam a ser simpática com aqueles que me julgam sempre na minha ausência.
Cansei da nossa relação perfeita à superfície. Cansei dos arranhões que escondo, das palavras que engulo, dos sorrisos de etiqueta. Dos apertos de mão formais, dos beijinhos que trazem veneno, das palavras deixadas a pairar para quem as quiser apanhar.
Quero gritar. Quero rasgar o véu dourado com que cubrimos as noites e deixar a podridão ao vento. Para que todos sejam forçados a vê-la e a reconheçam.
E, depois, cada sorriso será genuíno, cada palavra mais que educação, cada abraço um gesto sincero.

Thursday, May 24, 2007

Tenho um caniche!

Sabem como é quando saem do cabeleireiro com um penteado novo que, por milagre, não vos fez jurar nunca mais lá voltar? É um daqueles raros momentos em que não pensamos "Mas que merda é esta?!" e em que queremos andar a pé para todo o mundo poder admirar a nossa nova pelugem capilar...
Mas e quando chega a hora de o lavar pela primeira vez? De repente, eis que o cabelo se descontrola, pontas atiçam-se em todas as direcções, a escova começa a parecer minúscula ao pé da juba e então sim, gritam: MAS QUE MERDA É ESTA?!

SOS mundo, estou num momento desses! O meu lindo cabelo longo foi substituído por um penteado à lá caniche e eu só quero um gorro bonito para o esconder!
"Respira, respira... o cabelo cresce, nada de dramas...! SIM, E ATÉ LÁ? "Pões uns ganchinhos, umas fitinhas..." ARRRRGH (diálogo travado entre mim e o espelho)
Volto a lavar o cabelo, a penteá-lo, a prendê-lo com ganchos e ganchinhos. Encho-o com quilos de espuma na esperança de domar a juba há muito adormecida pelo peso dos meus velhos cabelos compridos.
"Há pessoas que nem sequer têm cabelo!", um argumento estúpido, mesmo vindo de um espelho... Tento concentrar-me nas velhinhas carecas mas de repente lembro-me que não conheço nenhuma velhinha careca. Lembro-me daquele árbitro que não tem pêlos e vejo se me consigo sentir melhor (é horrível, eu sei, tentar sentir-me melhor com o sofrimento dos outros, mas neste momento não estou em mim, caramba!) Sei que tenho uma afro que usei no carnaval, mas acho que, mesmo assim, o caniche é menos medonho visto de longe...

É inútil! Dedico-me a criar uma lista de aspectos positivos:

  • menos calor no verão

  • menos trabalho a pentear

  • menos.....

pronto, é curta mas existe, e já se sabe que isso do tamanho não interessa para nada!

Monday, May 21, 2007

Laura Lopez Castro - No es por ser ni por estar

Tem tudo a ver comigo: a melodia, a letra, o vídeo, a voz dela, as estrelinhas e até o nome :P


Sunday, May 20, 2007

Janela

Gosto do mundo, visto da minha janela. Encosto-me a ela e olho. E sonho em ver tudo. Sonho que estas linhas me levam para lá da estação que vem inscrita no meu bilhete. Que tenho um passe para o mundo. Sem limites, prazos ou condições. E se o mundo fosse meu...

Sunday, May 13, 2007

Sonho

Tinha sede. Andava e nunca chegava. E cada passo mais perto era um passo mais longe de onde partira. E chegar onde se não tinha destino? A meta entrelaçada de sonhos que voa ao sabor do vento. Já não a vejo, cobriu-se do pó do tempo. Perdeu-se no meio da areia que me prende os pés. Queria chegar. Lá. Onde dizem que os sonhos se tornam reais. Onde podes ter asas e beber das flores. Abelha, borboleta, efémera. Efémeros os passos, os pés. Efémeras as pegadas que desparecem atrás de mim. Viro-me e nunca fui. Nunca lá estive.
Acordei. Era sonho. Não voltou. Ficou guardado nos fios da almofada, grãos de areia nos lençois, tu que não voltas mais.

Thursday, May 10, 2007

Irresponsabilidade boémia

Como um desabafo, a minha época parece-me errada. A época do cinzento, da correria, da falta de tudo: de tempo, de espaço, de atenção, de carinho.
Sei que não estou sozinha: talvez seja um mal da minha geração, este sentimento de não pertencer ao nosso tempo, de nostalgia por uma época que não vivemos nem conhecemos senão a partir dos livros e filmes, e da boca daqueles que estiveram mais perto dela. Há quem deseje os loucos anos 20, os rebeldes 60, o espírito dos 80. Sonhamos com brindes durante um concerto de jazz nos clubes de New Orleans, com vestidos até aos pés e pó de arroz debaixo dos leques do século XVIII, com as calças à boca de sino e as flores no cabelo enquanto gritamos palavras de revolução.
Estava a conduzir o meu carro do século XX (sim, ele ainda é do século passado, mas, "porém, ele move-se!") enquanto ouvia uma entrevista numa estação de rádio qualquer. Um fotógrafo dizia que sempre fora vadio. Uma palavra com uma conotação sempre tão negativa, ganhava uma outra força quando dita pela sua voz. Vida vadia, essa vida um pouco fora das normas sociais, sem horários nem compromissos habituais, em que partia com a câmara para onde fosse para fotografar o que quisesse. O sonho de uma irresponsabilidade boémia. E o escritor, debruçado sobre o papel sob a luz ténue de uma qualquer lâmpada, o cigarro pendente dos lábios, os óculos a descairem sobre a ponta do nariz. As frases a surgirem e a desaparecerem novamente sob uma chuva de riscos numa eterna procura da perfeição. O escritor que se disfarça com os nomes e os rostos das suas personagens e idealiza para elas um rumo, um mundo e um ser. Tão perto de ser Deus, força suprema, destino, sei lá, criando e destruindo vidas, gerindo as emoções e acções de pessoas de tinta e papel.
Quem me dera essa vida vadia, de sonhos e origamis...

Friday, May 04, 2007

Obrigatório MESMO

Cheguei lá por indicação no blog do Carlos Moura. Valeu a pena. Mais que isso, foi fundamental. Um trabalho que ganhou o Pulitzer e que nos recorda como a vida é preciosa e frágil, e que todos os dias devem ser vividos ao máximo... Carpe Diem. Vejam mesmo!

http://www.pulitzer.org/year/2007/feature-photography/works/index.html

Jogo de vida


No meu 10º ou 11º ano fui apresentada a uma forma de (vi)ver que me mudou para sempre: a filosofia. Todos temos um pouco de filósofos em nós, quando decidimos compreender, ou tentar compreender, aquilo que, de momento, não compreendemos. Filosofia estética, metafísica, moral... que importa? Filosofia, amor ao conhecimento, procura eterna, eterna sede de saber. Foi nessa disciplina, Filosofia, como se todos os seus princípios se pudessem aprender em 2 ou 3 anos, que aprendi uma das maiores lições, que guardo até hoje: o mais importante não são as respostas, mas saber fazer as perguntas.
"Só sei que nada sei", dizia, paradoxalmente, Platão. A aceitação de que nunca poderemos saber tudo foi uma das mais difíceis, a da inevitabilidade da ignorância. Talvez tenha sido devido a essa certeza de que não podemos compreender tudo que a ideia de Destino teve tanta força na Grécia....

Destino.. ou sorte? Quantas vezes não nos confrontámos com esta questão, face aos acontecimentos que não conseguimos compreender? Enquanto uns defendem a ideia de um destino inviolável, há quem se bata pelo lado do acaso. Irónico, o facto de destino e sorte serem, na sua essência, sinónimos. Prefiro acreditar no livre arbítrio: se tudo estiver destinado, que resta ao homem senão seguir coordenadas já traçadas? Diz-me um defensor do destino: Mas foste tu que traçaste o teu destino, quando ainda não eras corpo, para que pudesses aprender alguma lição. Aceito o argumento, enquanto é coerente. Renego-o quando me pergunta se sei o que acontece quando não cumprimos o nosso destino:
é porque estava traçado não o cumprirmos e, assim sendo, não era o nosso destino... certo?


"It's choice - not chance - that determines your destiny", Jean Nidetch

Thursday, May 03, 2007

Passo a passo


São os pequenos passos que nos levam a caminhar as maiores distâncias...

Monday, April 30, 2007

Dia de bola

Chegamos de cachecol verdinho ao pescoço, o café já a transbordar de gente. Uns aplaudem, outros nem por isso, mas o ambiente ainda está bom, o jogo não começou. Cervejas, muitas: na mesa, ao balcão, de pé, encostados à parede. Não bebo cerveja, limito-me a esfumaçar cigarros em fila indiana. KAMIKAZEEEE grita o próximo quando lhe faço explodir a cabeça. Ai, e o golo tão cedo e a alegria precoce... e o empate ali mesmo ao lado. Ouvem-se protestos de ambos os lados, verdes e vermelhos consideram-se roubados: só concordam quando se diz que o árbitro foi comprado. "Mais uma imperial" é a frase da tarde, talvez apenas equiparada pelos "Ai"s e "Ui"s que vão sendo gritados de mesa em mesa.
Final do jogo, abanamos a cabeça. "Podia ter sido melhor", comentam uns com os outros, que em caso de empate fica tudo entre amigos.
O café que abriu excepcionalmente para o derby começa a fechar as persianas. Sinal de que é hora de sairmos. Pagam-se contas, ri-se. Levo o meu cachecol na cabeça para me proteger da chuva.

"Paris, Paris...", comento, sentindo-me uma espécie de Grace Kelly.
Olho para trás e vejo um sorriso maléfico ao balcão: claro, o gajo do café é dragão....

Sunday, April 29, 2007

Para ti, que não és tu, nem sei quem és.

Não te escrevo. Perdemos tempo demais com palavras e esquecemos quem éramos. Jurámos, prometemos, sonhámos e não construímos nada suficientemente sólido para mostrar, agora. Andámos às voltas, espirais, infinitos, anéis que nunca têm fim nem começo algum. Acabámos onde começámos, mas ficámos iguais? Olha para mim: quem está aqui? Nem eu sei quem sou! Quanto mais quem fui, e se quem fui é quem sou! Confundo-te, suponho. Imagino que sim. Seria mais fácil mostrar-te os números, as datas, a fórmula de nós a dividir pelo tempo e o resultado escrito a carvão no fim da página. Odeio matemática, sou uma pessoa de letras. E se me disseres que as letras também se encontram na matemática, abano a cabeça perante a tua incompreensão. Falo de sons, de sentidos, não de símbolos traçados a químico em algum canto de papel!
Ah, e som das ondas lá fora. Uma noite que começa a cair. Esticaste-te, querias a lua, lembras-te? Dizia-te que podias guardá-la, dei-ta uma vez. Moldura de prata, uma luz desfocada num fundo negro. Não percebeste, como podias? Era a minha lua. Não podia ser tua. Estará nalgum gaveta, perdida, entre estrelas, cometas, e borboletas de asas brancas.
Vimos as estrelas, adivinhávamos constelações com nomes que brotavam da nossa imaginação. A ursa maior, a única que sabíamos localizar nesse bordado de luz. Já não sei onde fica a ursa maior. Lembro-me de um quadrado, três estrelas na ponta, uma cauda encantada de serpente. Sons de flautas no deserto que um dia seremos. Confusão, confusão, confusão. Queres saber tudo mas não posso desvendar o que não sei. Um dia vais ficar boa? Um dia vais renascer, Fénix das cinzas, coberta do cinzento do tempo, rasgado por lágrimas salgadas? Acredito....se acreditares. "Mostras-me a tua fada?" "Só se me mostrares a tua primeiro!" E as fadas escondidas, fechadas em prisões de carne e osso, segredando palavras incompreensíveis. Eu acreditava e acho que tu também. Mesmo quando abria as mãos e tudo o que via eram as linhas que me traçavam um futuro. A cigana na praia, a falar de maldições, amores, tragédias. Falava de nomes numa voz que despareceu e que se tornou eco do silêncio. Queria esses nomes, rir deles, sonhar com eles. Confusão, confusão. Não sabes quem és, suponho. Imagino que assim seja. Nem eu sei quem és. Vejo-te numa confusão de memórias. Suponho que sejas o infinito de gente que passou por aqui. Que decidiu espreitar quando passei. Que se dignou a olhar quando sorri. Que teve vontade de ler quando escrevi.

Thursday, April 26, 2007

A tua verdade

As pessoas medem-se nas situações difíceis. É nessas alturas que se provam os valores, os princípios e todas as ideologias aclamadas em mesas de café. É, então, nessas alturas, que se mede a verdadeira grandeza de cada pessoa.
Sempre optei por me centrar nos defeitos; não por algum pessimismo triste que habite dentro de mim, mas porque os defeitos, regra geral, não se fingem. Ninguém quer parecer pior que aquilo que é. Já as qualidades não me seduzem, voláteis e frágeis, prestes a partir a cada obstáculo.
Conheci-te, pela primeira vez, ontem. A desilusão de ti foi atenuada pela alegria de ver que ainda existem pessoas que conheço, verdadeiramente. Que ainda há pessoas que quando estão em situações difíceis não deixam para trás aquilo que defendem. Esse tipo de pessoas, que ficam contigo a noite toda, que abdicam de uns quantos risos para suportar umas quantas lágrimas, que te despertam para veres quão maravilhoso é viver.
Perguntaram-me ontem, curiosamente, se sou feliz. Do nada, de repente, sem imaginar a revolução que se passava dentro de mim. E tudo ficou mais claro:
"Sou feliz porque estou rodeada de pessoas que gosto e que gostam de mim"

Tuesday, April 24, 2007

Ding dong

Eu nunca me perco, simplesmente sigo um caminho diferente. Eu nunca me arrependo, só que às vezes desejo poder repetir as coisas de outra maneira. Eu nunca me zango, mas às vezes não me apetece falar contigo. Eu nunca minto, mas a verdade é relativa. Eu nunca tropeço nos meus pés, é o chão que me faz rasteiras. Eu nunca estou sozinha, estou só a disfrutar da minha companhia. Eu nunca choro, embora às vezes possa lacrimejar.

(Já repararam como nunca é uma palavra que soa tão ridícula? "Nunca!"... É quase tipo "pimbas" ou "ding dong"!")

Sunday, April 22, 2007

Há sempre o outro lado da questão


Estás

E se (os teus ses e reticências)

Encadeados de premissas: contrario Pessoa e sou do tamanho daquilo que sinto.
E se...? E se pudesse ser?E se pudesses ter aquilo que queres? E se a vida parasse, por segundos, para o teres?
E se...?
Ses que trazem consequências. Ses condenados a ser meros ses, até ao dia. Até ao dia em que tens coragem de transformar ses em acções e te dispões a aceitar as consequências do se.
Até lá, sonhas com ses. Esses ses que te atraem e amedrontam, inevitáveis como abismos.

E se um dia tiveres coragem de dar asas aos teus ses?

Saturday, April 21, 2007

Esse vício que é viver

Vou à bomba e peço o típico LM azul. Nota de cinco euros, dois euros de troco... Há alguma coisa errada neste panorama... dois euros de troco? Olho para o selo e vejo que, num dia, o tabaco aumentou 25 cêntimos! Isto assim, de repente, dá cá mais 50 escudos!!
Cambaleante, retorno ao veículo onde a minha amiga se exalta com a novidade. Planeamos uma manif frente ao Palácio de Belém, eu e ela, com a certeza de que seremos ouvidas: afinal, conseguimos fazer estragos por 6.
Desistimos pouco tempo depois, quando acendo o primeiro cigarro.

Vício

Vício de tabaco. Vício de rir. Vício de ouvir. Vício de falar. Vício de escrever. Vício de viver. Ando viciada nesta vida. Viciada nos que me fazem bem. Viciada numa filha a quem chamo alternadamente feijão verde ou rebento de soja. Ela diz que é uma menina, furiosa. Eu rio-me. Vício de dormir quando vejo Baby TV, que, na minha opinião, deve passar mensagens subliminares para adormecer os pais: é tiro e queda! Vício de água, sempre com a garrafinha atrás, às vezes a abrir-se na mala e a destruir os meus poucos pertences ("Não tenho nada, mas tenho tenho tudo!!!"). Vício de pastilha elástica e Lollypop de caramelo. Vício de verniz vermelho. Vício de canetas que me borram as mãos, ainda que não borrem as mãos dos outros. Vício de agenda com notinhas nunca lidas a tempo. Vício de telemóveis que interrompem o banho. Vício de banho de espuma com um livro na mão. Vício de tolhas fofinhas e cheirosas. Vício de sol e de chuva, de praia e de neve. Vício de fazer sku em sacos de plástico. Vício de cobrir a cabeça com algas e tirar fotografias. Vício de carioca de limão e conversa. Vício de abraço, de beijo, de aperto de mão segundo as regras de etiqueta. Vício de vícios, enfim.

Friday, April 20, 2007

Shall we sing in the rain?



Será só de mim, ou ouvem-se mesmo mais risos na rua nos dias de chuva? A início pensei que fosse impossível, ninguém é mais feliz quando chove... por alguma razão existe a famosa expressão "rainy days", para nos referirmos aos dias mais tristes.

Mas eu ouvia-os rir. Riam mesmo, de verdade, sem tapar a boca e sem medo que os ouvissem. Riam das calças encharcadas, as lutas com os guarda-chuvas, os cabelos despenteados. Faziam planos disparatados acerca de como caberiam 5 pessoas no mesmo chapéu, estabeleciam tempos limites para a partida, saltavam poças com gestos teatrais! Riam-se dos outros e, principalmente, riam-se deles mesmos. E sabe sempre tão bem rirmo-nos de nós!

As pessoas trocavam sorrisinhos à entrada dos edifícios, comentavam alegremente a reviravolta do tempo, diziam piadas acerca de S. Pedro e do benfica! Mesmo quando o metro fez uma paragem muito pouco suave (aliás, vi alguns olhares de pânico), uma senhora começou a rir e voltou a sentar-se, toda contente, e encharcada, no seu banquinho.


Detesto molhar-me, mas adoro andar à chuva.

Thursday, April 19, 2007

Obsessão Compulsão - HIP HIP HURRA!

E assim tive, finalmente, a prova de que havia uma parte neurótica em mim, e pude vir mais feliz para casa.
Toda a gente tinha neuroses menos eu, que chatice! E, de repente, voilá, tenho uma obsessão compulsão... nada mau, hein? ;)
Lia uma revista de medicina (o que por si só deveria chegar para provar que algo não estava bem nesta cabecinha), quando me deparei com uma lista de obsessões-compulsões frequentes. E lá estava ela, toda bonita, com letrinhas a itálico e tudo, a sorrir para mim. Senti logo uma ligação instantânea, como aqueles pudins que se preparam em 2 minutos, e abracei a revista em êxtase.

Diagnóstico: a minha obsessão prende-se com a exigência de perfeição nas palavras. Não aguento dar erros e muito dificilmente consigo suportar ver os outros a errarem no português. Tenho a mania de corrigir toda a gente, o que já me valeu alguns comentários menos agradáveis, mas também não faz mal, porque hoje sei que isso é uma neurose, ou uma psicose segundo a minha irmã psicóloga, que me disse que não me preocupasse: afinal, só se torna problemático quando afecta o nosso desempenho na vida social. Assim sendo, não há com o que me preocupar.... certo? E quando me chamarem chata já tenho desculpa: "É uma obsessão compulsão... sorry!"

Entre a Rosa e o Jaquim, um acordeão...

Sei que já muita tinta (virtualmente falando, claro está) correu neste blog acerca dos transportes públicos. Aceitem-na como uma obsessão de alguém que tem de levar com sovacos todos os dias; parece-me justo.
Só que nunca aqui me tinha debruçado sobre esse espécime que é o fantástico tocador de acordeão, que decide tocar nos nossos ouvidos quando estamos quase a dormir. Já repararam bem nas caras das pessoas à vossa volta quando o homem surge munido do seu instrumento? A frase até soa mal, mas factos são factos e devem ser ditos, portanto! A verdade é que aquele homem já faz parte do metro, como os bancos raquíticos e os varões cheios de dedadas pegajosas. E o pessoal já está mais ou menos habituado à sua presença... Lá vem ele, cheio de fé, a tocar e a cantarolar um folclore super animado, e toda a gente lhe vira a cara, reviram os olhos... Incrível como algumas pessoas até parecem nem dar por ele!
Nas minhas primeiras visitas ao metro de Lisboa ainda deixei a perninha saltitar ao som do acordeão: erro crasso. Mal o homem notou na minha perna decidiu tocar ao meu lado, cantar para mim, e passado um bocado já não me apetecia assim tanto abanar a perna, mas sim fugir, fugir, FUGIR!
Eles nem são assim tão maus, e até há por aí uma dupla que toca as bandas sonoras mais populares, como o Titanic. Na verdade, não sei se tocam mais alguma coisa para além do Titanic, e sendo ainda mais sincera, passada meia hora tive inveja do Jack, no meio do oceano, agarrado à madeirinha no mais profundo silêncio... Sim, ele estava morto, por isso acho que, mesmo com acordeão, permaneço em vantagem... Já a Rose talvez tenha tido uma noite mais agradável, excepto quando o Jack congelado foi ao fundo (Já repararam como, em português, o Titanic ia parecer algo saloio? A Rosa a gritar para o Jaquim: Jaquim! Jaquim! E o Jaquim a ir ao fundo, no Tejo....hummm).

Pensamento positivo: Onde há um homem a tocar acordeão, não há um homem a vender pensos! Juntos, seriam uma combinação ainda mais explosiva que a mistura homem-robot do Robocop!!!

Wednesday, April 18, 2007

Nas nossas mãos

"Um carro é uma arma", dizia-me, repetidamente, o meu instrutor de condução, o Sr. Pereira. Eu acenava com a cabeça, sem perceber como é que alguém conseguia agarrar o voltante e meter mudanças ao mesmo tempo sem se despistar, atrapalhada com os pedais que se confundiam. Aprendi a conduzir mas, acima de tudo, aprendi que um carro te pode atirar para uma cadeira de rodas, assim, numa fracção de segundo, mesmo quando atravessas na passadeira, mesmo quando olhas para os dois lados.

Mas, agora, se visse o Sr. Pereira, e me sentasse de novo ao volante, com ele ao lado, queria perguntar-lhe:
"Sr. Pereira, o que é que, na mão do homem, não pode ser usado como arma?"

Se calhar

http://216.70.117.172/me_portugues.htm

Se calhar, é tempo de mudar...

Veja o que me vai na mente!

Num dia de sol perfeito, perfeito, perfeito...tinham de marcar a porcaria de um exame!

PS - crianças, a escola é muito boa! Sim, sim, eu gosto muito!... (conversa típica para a minha filha)

Sunday, April 15, 2007

Confusão mental (piloto automático)

Detesto que assim seja. Bloqueio criativo, teclas que se suicidam e arrependem segundos antes da queda. Sim, li que, de acordo com um estudo feito a partir de pessoas que se tentaram suicidar atirando-se de um qualquer ponto alto, quase todos os suicidas se arrependem durante a queda. Quase todos os suicidas desejam voltar atrás, e percebem que todos aqueles problemas que os levaram ao suicídio não tinham, na realidade, importância nenhuma. Que tudo tem solução. Li isso, mas não me lembro onde... (é comum isso acontecer...a memória armazena a informação importante e descarta aquilo que julgamos menos útil... Dei isso em psicologia, lembro-me!)
Quero escrever e o botão de apagar sempre activo, as letras que enchem e desaparecem do ecrã. Antes a caneta, para deixar vestígios dessas palavras idas! Que nos resta senão a memória? Não sei se já escrevi sobre isso... não me lembro. Sei que já queria escrever sobre isso, talvez me repita então. O que nos resta, no fim da vida, senão a memória do que já foi? Senão a certeza do que vivemos? Não quero apagar estas palavras, pôr-lhes fim talvez, mas não exterminar qualquer vestígio da sua existência.
Existi, um dia! Fui, um dia. "Ego fui quod tu es, tu eris quod ego sum"- Fui o que és, serás o que sou, diziam os túmulos. Esquece a minha existência e condena a tua própria vida ao esquecimento.
Imortalidade, fotografias, filmes... Pedaços de vida guardados como tesouros. Eu, ontem. Eu, hoje, um agora que não se consegue agarrar nunca. Eu, carne, sangue, osso, Eu, espírito, alma, vontade. Um sorriso congelado numa fotografia. Mil lágrimas que nunca serão preservadas em álbum nenhum. Vidas perfeitas, registadas, recordadas, dizem-nos "Foste feliz. Vê quantas vezes sorriste, quantos momentos de pura felicidade viveste", manipulas a tua própria memória numa tentativa desesperada de achar que foste feliz sempre. Serás feliz para sempre. Arroz sobre os noivos que se separam meses depois. Fotos do casamento, fotos do segundo casamento... ausência de recortes do intervalo. Faz pose para a câmara, congela esse momento que te fotografa a alma, sorri sempre e engana o mundo, engana os outros, engana-te a ti mesma.

Mas só poderás ser verdadeiramente feliz se te lembrares que, um dia, não tiveste vontade de sorrir.

Nature Boy - Nat King Cole

There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he
And then one day
A magic day he passed my way
And while we spoke of many things
Fools and kings
This he said to me
"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return"

"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return"


O amor também se aprende...

Ready to go

Vou-te deixar partir. Vou-te deixar atravessar essa fronteira invisível feita de palavras. Rumas a esse novo continente, de sensações familiares. Mas nunca é igual.

Thursday, April 12, 2007

Nunca?


Nunca tens saudades dos dias eternos? Do tempo em que pensavas que ias viver para sempre?

De quando acreditavas em tesouros de piratas no jardim e em fadas que te levavam os dentes?

Desse tempo em que o dinheiro não queria dizer nada e tudo o que importava era subir o mais alto possível no baloiço?
Dessa altura em que tudo o que os nossos pais diziam era verdade, e em que o que não era bom era mau?
De quando, nos dias de sol, a chuva caía e as bruxas faziam pão de ló, e no fim do arco-íris havia um pote de ouro com um duende sentado à nossa espera?


Nunca tens saudades de acreditar?

Piquinhos nos pés

Manias todos as temos. Eu sofria de "piquinhos nos pés". Não, não se trata de qualquer deformação anatómica, doença nem parasitas. Hoje, a nível oficial, sofro de vertigens, mas, cá para mim, ninguém me tira os piquinhos nos pés. Descobri-os quando subi ao Cristo Rei pela primeira vez, olhando para baixo. E assim, nasceu o primeiro piquinho, de nome Anacleto.

Se bem que isto seja informação susceptível de ser usada contra mim pelos meus inimigos, vou partir do princípio que ninguém me quer mal...hummm...pois... (Caro inimigo: caso me estejas a ler, espero que tenhas em conta que seria um acto de extrema desonra usares a história dos piquinhos em teu proveito. Por favor, dirige-te à gaveta da cozinha e dá uma martelada na cabeça de imediato, de modo a esqueceres tudo o que leste. Beijinhos da tua inimiga!)

Ora, continuando... Deslocações frequentes ao outro lado do rio podem ser problemáticas quando se tem piquinhos nos pés. A solução? Conduzir com um olho aberto e o outro fechado, enquanto se berra a canção mais estúpida que se conhece (Mais uma vez, caro inimigo, se ainda cá estás, ignora a última parte, visto que tentar deitar-me abaixo da ponte, vindo do lado do olho fechado, não seria um acto de desonra apenas, mas de completa falta de civilização e compreensão para com o próximo!)


Hoje, convivo com os meus piquinhos de forma amena. Sim, piquinhos. Ninguém me convence das "vertigens", que isso é coisa de cinema, quando elas olham para baixo e vêem tudo a andar à roda, e começam a andar à roda também, e põem um pé de fora mas, de repente, aparece o Ben Affleck e salva o dia....

Pensando bem tenho imeeeeensas vertigens e vou agora pôr-me ali no Cristo Rei, está bem? Espalhem a mensagem!!



Brincadeirinha.... óbvio!

Wednesday, April 11, 2007

Combinando o pic-nic

Lolly: Bora fazer um picnic hoje?
Kris: Picnic? Para o almoço?
Lolly: Não, para o jantar. Eu já almocei, cachopa. O meu dia hoje começou logo às 8h da manhã quando me dirigi, contente e responsável, para a minha faculdade, sentindo uma felicidade imensa quando lá cheguei! É tão bom andar de transportes durante uma hora e depois ficar mais duas horas fechada no auditório a ouvir discursos!
Kris:Sim, eu também fico muito feliz! Mas sabes, à noite tem estado frescote!
Lolly: Ora bolas, levamos as mantas! E acendemos uma fogueira! Ou não...se calhar é melhor esquecer a parte da fogueira.
Kris: E vamos comer a nossa merenda onde? Ai, temos de nos despachar a decidir para ir já fazer os rissóis!
Lolly: Ai mulher, tens razão! Que tal a praia? Ou estará muito movimentada?
Kris: Deve estar lá uma amálgama de massa! Além de que é muito iluminado e depois querem comer os nossos rissóis!
Lolly: Tens razão. É melhor não. E na mata?
Kris: Mas que mata?
Lolly: Em Monsanto. Ou na Serra de Sintra. Ou nos bungalows de Alfragide?
Kris: Não. Não vou para esses sítios sem classe.
Lolly: Pois, tens razão. Gente como nós não vai a esses lugares. Vamos pensar. Põe-te na posição de lótus e faz zuuuummmmm
(..................)
Lolly: Então? Não conheces nenhum sítio?
Kris: Conhecer, até conheço. Mas parece-me perigoso ir lá de noite, a meio da semana.
Lolly: Ui! Isso não! Queremos um sítio ameno onde pequenas borboletas possam esvoaçar.
Kris: Borboletas de noite?
Lolly: Podem ser traças!
Kris: Geralmente esses sítios são criados para bonitos domingos solarengos e não para noites de quarta feira ventosas.
Lolly: Não, mas o meu dedo mindinho diz-me que hoje vai estar bom tempo!
Kris: Está bem, convenceste-me. Se há algo em que confio, é no teu dedo midinho! Então vou fritar os rissóis, e depois combinamos o sítio.
Lolly: E eu vou buscar a toalha de xadrez! Até logo!

(Qualquer semelhança com a realidade não se trata de coincidência. Qualquer pequena discrepância com a conversa que teve lugar na realidade, é mera coincidência!)

ATENÇÃO! NÃO ESQUECER! IMPORTANTE! URGENTE!


Tuesday, April 10, 2007

Saudades de ontem

Sete anos. E eu, espantada e revoltada, com um tempo que passa sem que o consiga agarrar, mais uma vez apanhada de surpresa pelo calendário que insiste em provar-me que estou errada. Quem me conhece sabe bem a aversão que tenho pelo tempo. Pelo contar do tempo. Pelo tempo que se conta pelos relógios, pelas agendas. Esse tempo que não tem misericórdia e avança a seu prazer, sem nunca se preocupar se estamos prontos ou não.
O tempo que te roubou de mim, quando, se calhar, ainda não era o teu tempo. Sei que o meu tempo não estava de acordo, mas o tempo dos homens não quis saber disso.
"Sete anos?!", pergunto, estupefacta, ao papel que me confronta, pendurado na parede. Faço as contas, refaço-as, e o resultado é inegável, porque eles dizem que os números não mentem nunca. Mostram-me as fórmulas, e os dados. Mostram-me fotografias em que o meu corpo era diferente, duma altura em que não me lembro de ser assim, onde tu (ainda) estavas presente. "Vês, o tempo passou". Mas eu não o senti. O sol nasceu e pôs-se 2555 vezes desde a última vez que te vi. 61320 horas separam o momento em que me despedi de ti e o agora em que escrevo. Mas eu não as senti passar.
E parece que ainda ontem corria para ti, para te abraçar... Por isso, tenho saudades, mas de ontem.

Sunday, April 08, 2007

O regresso da filha pródiga!!!





Digo eu triunfante, atirando as malas para o chão. "Apanha já as malas!", responde a minha mãe, interrompendo o momento em que ergo os braços ao céu, e me preparo para ouvir salvas de palmas.
O regresso a casa é sempre uma mistura de emoções contraditórias: temos saudades daquilo e daqueles que ficaram para trás mas ao mesmo tempo sentimo-nos contentes por estar de volta ao lar. Encontramos os mesmos papéis amarrotados no mesmo canto em que os deixámos, a roupa ainda amarrotada no armário da última vez que nos vestimos e trocámos de roupa 300 vezes, as mesmas vozes familiares e os passos na escada que sabemos reconhecer antes de chegarem.
As férias da Páscoa não seriam passadas em casa - decisão tomada sem direito a revogação. Uns dias em Sesimbra e depois a velhinha Nave Redonda, à nossa espera.
A Nave Redonda é uma aldeia na Guarda, que até há bem pouco tempo nem aparecia nos mapas. Entre a placa que indica o início e a que marca o fim da Nave Redonda, conseguimos conduzir durante 2 minutos, isto se apanharmos algum trânsito, o que na Nave Redonda significa sermos interpelados por um rebanho ou um tractor. Quis a sorte que, desta vez, fosse um rebanho:





A Nave Redonda é "aquele pedacinho de mundo onde não há tempo", gosto de dizer, porque parece que, de facto, a chamada evolução não passou por ali. Continua de pé o mesmo café, os moradores são cada vez menos, todos ligados por algum laço familiar, as velhinhas de preto, sentadas nos bancos de pedra à sombra, viram a cabeça para ver os carros que passam nos caminhos mal alcatroados...



Mas, apesar de tudo isto, ir à Nave Redonda foi sempre o momento alto das férias. Primeiro, porque, regra geral, é onde se junta a família toda, contabilizando, esta última vez, um total de 26 pessoas, sendo que dessas 26, 22 estavam alojadas na mesma casa... que há 3 anos só tinha uma casa de banho! Sim, era o pânico. Agarrar a roupa, correr para a porta, marcar o lugar para não sermos ultrapassados... Tomar banho ao som dos berros desesperados lá fora, que insistem para que sejamos rápidos, e tentar não acabar a bilha de gás, são coisas naturais quando se está na Nave Redonda.



Para terem uma ideia de como se trata de uma aldeia pacata, posso confessar-vos que um dos pontos altos da estadia, quando éramos mais novas, era visitar o cemitério, o que ilustra bastante bem a ausência de coisas para visitar ali... Mal chegávamos íamos a correr para o cemitério, ver a campa de uma prima que morreu intoxicada com gás ao tomar banho. Este é um do aspectos que choca as pessoas da cidade: o cemitério fica a 5 passos de nossa casa e está aberto 24h por dia.






(Esta foto foi tirada da porta de casa e aquelas grades tortas que ali vêem são do cemitério...)


Mesmo assim, muito mudou na Nave Redonda. Já não jogamos à bola na estrada, porque agora os carros já surgem com mais frequência... Sim, dantes a estrada era o sítio onde brincávamos. E, no Verão, o alcatrão colava-se às nossas solas, tal era o calor e a qualidade das estradas!



Um outro aspecto interessante da Nave Redonda é o seu cheiro natural característico a bosta de vaca. Mas uma pessoa habitua-se, tal como se habitua a nadar no rio com os peixes, a fugir dos cães raivosos que andam por ali com os rebanhos e a cumprimentar toda a gente, seja quem for. Será que as pessoas da cidade imaginam o que isso é?



Garanto-vos que estar lá, é estar mais perto daquilo a que chamam o paraíso. E, para finalizar, deixo aqui uma foto da famelga, que entre ais e uis, chouriços assados e peixinhos do rio, jogos de volley e idas a Espanha, lá conseguiu sobreviver, mais uma vez ;)



Sunday, April 01, 2007

Recordações

Esta imagem lembrou-me as noites em que, quando a minha mãe estava a trabalhar, o meu pai nos penteava e punha uns elásticos no cabelo na tentativa de criar umas tranças... O resultado era surpreendentemente semelhante ao da imagem!
Ah, os bons velhos tempos...

Nikita, as malas!

Estabeleçamos a regra: para cada dia fora, 3 mudas de roupa. Isto dará um total de 15 conjuntos para 5 dias, algo inconcebível para muitas mentes masculinas mas pura lógica para a maioria das mulheres.
Eu levo sempre bagagem suficiente; digo suficiente porque nunca levo tudo o que queria (o meu armário inteiro), mas a minha medida ultrapassa sempre aquilo que seria desejável aos olhos do meu pai, mestre de arrumação que consegue sempre encaixar 15 malas onde eu conseguiria enfiar 5. "São só 3 dias!", frase mais que típica saída da boca masculina, seja na versão pai, namorado ou amigo. Reviramos os olhos, eles não percebem nada disto, enquanto atiramos o necéssaire, saco dos sapatos, mala especialmente reservada a casacos, pasta armada de todo o material eléctrico necessário (carregadores, adaptadores, máquina fotográfica, portátil..), malão de viagem com os trapinhos e ainda um saquinho pequeno com todo o tipo de bolachinhas, água, sumos, petiscos que são fundamentais numa viagem, ainda que essa possa ter a duração de apenas 45 minutos (nunca se sabe o que pode acontecer se falharmos uma saída!).
A pior parte de viajar é, sem dúvida, o momento de refazer as malas para regressar. Roupa espalhada pelo quarto, procurar se não ficou nenhuma meia perdida debaixo da cama, explorar todas as gavetas e cantinhos recônditos onde possa haver alguma peça esquecida. E é quando estamos quase a chegar a casa que nos lembramos: "esqueci-me da única coisa que não podia esquecer!!! OH NÃO!", seja que coisa for, porque nesse momento torna-se, automaticamente, a coisa mais importante da nossa bagagem.

O facto é que estou a 2 parágrafos de ir fazer as malas para 4 noites. A lista do NÃO ESQUECER tornou-se quase ilegível, com palavras que vão surgindo de minuto a minuto, e o material eléctrico está, obviamente, desarrumado, com o portátil ainda a uso.
Felizmente, temos uma bagageira inteirinha para duas meninas, incluindo os bancos de trás que vão vazios, e ainda a bagageira de um carro masculino, o que significa imenso espaço livre para uma eventual mala que sobre. Esperam-se olhos revirantes, queixas e resmungos, porque, no fundo, eles não gostam de pensar que somos mais prevenidas que eles.
Mas eles bem gostam de comer uma bolachinha pelo caminho, mesmo que a início se mostrem desinteressados. Basta mastigar vigorosamente e fazer "Ah!" no fim.

Até ao meu regresso :)*******

PS - foto do porta-bagagens brevemente disponível

Friday, March 30, 2007

Quando o Poetry em RAP era mais que rimas

The Rose That Grew From Concrete
Did you hear about the rose that grew
from a crack in the concrete?
Proving nature's law is wrong
it learned to walk with out having feet.
Funny it seems, but by keeping it's dreams,
it learned to breathe fresh air.
Long live the rose that grew from concrete
when no one else ever cared.
Tupac Shakur

Ex-Factor

Ex namorados: uma sina.
Não há quem não os tenha, ou, pelo menos, são raríssimos aqueles que acertaram (ou julgaram acertar) à primeira. Os "exs" são como os tijolos que usámos para chegar ao telhado, ou os degraus da escada que subimos para poder atingir o sol... (hoje estou muito dada a obras..) É com as relações falhadas que aprendemos e, só por isso, valem a pena as crises de choro, os momentos de "OH MUNDO CRUEL", as noites em que temos a certeza que nunca mais vamos ser felizes e as tardes passadas a olhar para a chávena de café vazia a tentar ler as borras e descobrir se algum dia haverá retorno. Com o tempo, olhamos para trás e não conseguimos deixar de sentir ternura por aqueles momentos, de pura ingenuidade, em que achámos que o nosso mundo se resumia àquela pessoa. E surge mais uma lição e, de um momento para o outro, somos pessoas maiores.
Só que os "Exs" não existem apenas para nos ensinar, mas também, em muitos casos, para nos aterrorizar a vida. Quantos de nós não "fugiram" já de um ex, encontrado por acaso, para não termos de falar com ele/ela? (Vá, sejamos sinceros!). Se há aqueles que nos sabem deixar de cabeça erguida, também existem os outros que prometem fazer a nossa vida um inferno e a quem a rejeição transforma em pessoas extremamente assustadoras. Ou extremamente chatas e melosas, também pode acontecer. Vi há pouco tempo "A minha super Ex", com a Uma Thurman, e o meu pensamento-síntese em relação ao filme foi "Eu conheço pessoas que sem super poderes nenhuns conseguiam ser ainda piores!".
Claro que, às vezes, também podemos ser nós a desempenhar o papel do ex psico... acontece, são coisas da vida. Se, por acaso, se sentirem tentados a adoptar esse tipo de comportamento, por favor batam com a cabeça 3 vezes na parede enquanto gritam "NÃO ME VOU DEIXAR DOMINAR POR ISTO!! SAI SATANÁS!". Acreditem que, mais tarde, um eventual galo na cabeça será bem menos penoso que a recordação das figuras tristes que podiam ter feito.

E tenho dito!

Thursday, March 29, 2007

I said I'd be back, baby!

E estou de volta. Antecipei as minhas férias da Páscoa com aquela convicção de que a vida é mais que discursos num auditório, e que o mundo tem muito para nos ensinar. E com a certeza de que guardaria recordações bem melhores de quatro dias de férias com amigas do que de quatro dias de aulas. E não é que acertei?
Foram quatro dias sem tempo, daqueles em que o relógio parece estar sempre errado, e os ponteiros constantemente adiantados. Dias sem pressas nem confusão, daqueles que fazem falta de vez em quando, mas que nem todos, infelizmente, podem ter. Responsabilidades, sobrevivência, horrores da vida adulta.
Trocaram-se opiniões, experiências, pontos de vista e conhecimentos. Guardaram-se pequenos apontamentos no bloco de notas que é a memória. E, de repente, aprendi um pouco mais, cresci mais um bocadinho, conheci algo novo e vi o mundo, mais uma vez, com um filtro de cor diferente, como um papel de rebuçado colorido que pomos à frente da câmara no momento de fotografar.
Chego a casa e encontro uns quantos mails sobre frequências, notas, ofertas de estágio... Encontro as pessoas que se identificam por números e se medem por médias, e, então, sei que não encaixo bem neste quadro, mais ou menos como o tigre que salta da boca do peixe que escapa da romã de Dali.
However... no man is an island.



Friday, March 23, 2007

Palavras que passam

"Tirem-me para sempre a luz de Lisboa;
Tirem-me as encostas do Douro, o Tejo e o Alentejo;
Tirem-me a calçada dos passeios, os azulejos da parede;
Tirem-me tudo isto, mas não me tirem o gosto,
porque se eu ainda for capaz de saborear com todos o bacalhau a nadar no azeite,
serei capaz de dizer, se não me tirarem a fala:
-Estou em Portugal!"


(anúncio do azeite Galo)

Wednesday, March 21, 2007

À noite...

Num carro sem rádio, esta tem sido a banda sonora das últimas noites...Há alguma coisa nesta música ;)



Confesso.

Monday, March 19, 2007

Aos que ousam

Admiro aqueles que levantam a cabeça, mesmo quando a chuva lhes bate nos olhos.
Admiro aqueles que sorriem, mesmo quando o mundo os faz duvidar.
Admiro aqueles que sonham, mesmo quando a noite já vai longe.
Admiro aqueles que insistem, mesmo quando os outros gritam que é impossível.
Admiro aqueles que lutam com palavras, mesmo quando os outros os desafiam com armas.
Admiro aqueles que sabem ouvir, mesmo quando têm muito a dizer.
Admiro aqueles que constroem castelos de areia, mesmo sabendo que a maré os levará.
Admiro aqueles que procuram, mesmo quando julgam saber o caminho.
Admiro aqueles que vivem, mesmo quando o mundo os pressiona a sobreviver.

Admiro os que partem relógios, fazem arte do lixo e cantam poesia. Admiro os amarelos, os azuis, os vermelhos e os verdes que se destacam do cinzento. Admiro os que procuram a liberdade em cada momento da vida, que criam a sua própria língua, que desenham palavras nos blocos de notas.
São os que ousam esticar as asas e rasgar os céus.

Friday, March 16, 2007

Eu quero. Ou melhor, eu exijo!

Quero uma casa numa praia deserta.
Quero um tapete mágico para poder voar por aí, e ir assustar as pessoas batendo às janelas.
Quero um submarino para poder procurar a Atlântida.
Quero uma pá automática para poder cavar um buraco depressa quando encontro alguém de quem não gosto.
Quero um arco-íris portátil para trazer na mala nos dias mais tristes.
Quero uma máquina de fazer algodão doce, para subornar a minha irmã sempre que for preciso.
Quero um telecomando universal incorporado na ponta do dedo, para não ter de andar sempre à procura dele.
Quero uma escada rolante de bolso, para quando vou passear pelas montanhas.
Quero uma cabrinha chamada Heidi para a levar comigo nesses tais passeios pelas montanhas.
Quero uma caixa com todos os perfumes que existem no mundo, para poder cheirar os sítios que nunca irei conhecer.

Eu quero, eu quero, eu quero!! (bato com os calcanhares três vezes, mas nada acontece. Lá está, era bom ter paciência...)

URGENTE - CARTA À CEGONHA

A paciência é uma daquelas virtudes que a minha mãe se esqueceu de meter na lista, quando mandou a carta à cegonha. É, aliás, uma das virtudes que mais lamento não possuir. Porque quando se tem paciência, tem-se o mundo. Eventualmente, ele chegará, só temos é de esperar por ele.
Mas eu não gosto de puzzles, não gosto de tarefas que incluam linhas e agulhas, não gosto de amuos, não gosto de esperar pelos outros, não gosto de cozinhar em lume baixo nem de matar tempo.
Por isso, querida cegonha, se me estás a ler, atira uma boa dose de paciência cá para baixo, para ver se ainda vou a tempo de a apanhar. Ou então cria uma doença qualquer, pacienciozite, que eu vou já para os transportes públicos pôr-me debaixo dos espirros...
É que, ultimamente, ando mesmo a precisar!

Wednesday, March 14, 2007

LOL




LOL = laugh out loud = aquilo que acontece sempre que nos juntamos, sem motivo nenhum em especial, sem tema de conversa definido, sem lugar marcado nem horas estabelecidas.

Sentamo-nos no carro e dissertamos sobre a vida, a morte, e cavalos. É importante haver alguém assim, a quem podemos dizer os maiores disparates sem que apague o nosso número da lista telefónica. Alguém a quem podemos cantar a música do cavalinho e que, em vez de nos pedir silêncio, nos ajuda a compôr um futuro hit musical. Alguém que consegue comer 5 pacotes de bolacha de seguida, sem beber uma única pinga de água, e depois nos pede para vermos as bochechas cheias de bolo alimentar. Alguém que ainda invoca os desenhos animados da Carrinha Mágica (Magic Schoolbus) para confirmar teorias. Alguém que nos ouve dissertar sobre cenas, planos, enquadramentos, campos e contra campos, e só no fim é que admite que não percebeu nada, mas que achou por bem deixar-nos falar. Alguém que está apaixonado por uma personagem fictícia e que, mesmo assim, dialoga com ela em voz alta (sem querer apontar o dedo, é ruivo, vive em Miami, investiga crimes.....). Alguém que assume o papel de serva de vez em quando e nos carrega as malas enquanto fala russo (ainda que não passe do "Dah", "Vodka" e "Perestroika"). Alguém que procura e persegue pessoas de carro connosco (não que já o tenhamos feito, é apenas uma hipótese!) enquanto nos enfiamos debaixo do banco para não sermos vistas (que disparate! como se algum dia isso pudesse acontecer MESMO!). Alguém que recebe a nossa flor de papel colada a uma palhinha de sumo e nos diz "Que giro!" (sim, isso é amizade!). Alguém que passa quase uma hora a tentar construir com as iniciais EPL um título brilhante. Alguém que nos vem buscar e trazer a casa no Xavi, o carro mais badalado de Oeiras, sempre bem preparada com água e bolachas, o que constitui um repasto de rei a partir da meia noite.


"Querida, antes sofrida que mal vestida!" Jamais, Salomé!

Tuesday, March 13, 2007

De bem com o mundo

Já sentia saudades de tapar discretamente o nariz com a gola do casaco, no metro à hora de ponta. Aquele gesto delicado de empurrar a mulher que insiste em tentar passar-nos à frente para conseguir o único lugar sentado vazio, devorar as páginas de um livro para evitar olhar para o gajo com cara de maluco que nos fixa com olhos esbugalhados... Enfim, as peripécias habituais de um dia nos transportes públicos. Gostei de andar até ao meu carro, naquele fim de tarde/início de noite, com a rua vazia e os passeios livres de carros (e atenção que eu não costumo andar, arrasto-me), porque o lugar mais perto da estação, às 13h, ficava a 10 minutos de distância.
Nem sequer me importei quando o carro ao meu lado tentou passar o STOP e atirar-me para fora da estrada, porque, afinal, o meu carrinho está mesmo a precisar de tapar uns riscos na pintura. Mesmo quando olharam para mim como se eu fosse maluca, só porque ia aos berros a cantar HOW COME YOU DON'T CALL ME da Sra Keys, sorri.
Estou de bem com o mundo, hoje...

Monday, March 12, 2007

Elektra

Estou eléctrica. Não devia ter comido aquele microondas ao almoço.

A magia das palavras

Trazes palavras vazias, muito embora eu insista que as palavras nunca são vazias. Trazes palavras com que argumentas o seu estado oco. A sua imperfeição arruina-te o discurso. Já te disse que as palavras são como pós mágicos que nos podem fazer voar. Se acreditares nelas. Teço palavras, porque o texto vem de têxtil, como aprendi um dia. Teço discursos e fio o pensamento com linhas coloridas. Achas que o laranja não combina com o verde, mas eu gosto de os entrelaçar, como amantes. Sopro algumas palavras que nunca chegarão aos ouvidos de ninguém, a não ser aos meus. Deixo-as dançarem um pouco nos meus ouvidos, deixo que me embalem o sono. Construo mundos de palavras, sílabas que se equilibram, umas sobre as outras, formando monumentos, fontes e estrelas. Falo baixinho para que as palavras não fujam e depois grito, de repente, e vejo-as correrem, espalharem-se pelo mundo como pequenas partículas invisíveis que nos arrepiam a pele.
Moldo as palavras como um pedaço de barro e esmago-as sobre a bancada, uma e outra vez. Aperto-as e estico-as, dou-lhes forma, idealizo um local perfeito para elas e deixo-as secar sem nunca as prender a um objecto.
Vivo escrava das palavras, das ideias, e conquisto-as para mim, a ferro e a sangue. Embebedo-me nas palavras e sonho com utopias, com magia, com sons esvoaçantes e conceitos afiados.
Já te disse que as palavras são os passos, as pessoas, os processos. Já te disse que as palavras são os medos, os momentos e a verdade. Porque mesmo a mentira é dita em palavras e as palavras nunca mentem.

Saudades dos raios UV!

Hoje fez calor. Calor de verdade, com gente de mangas curtas e uma possível carrinha de gelados caso vivessemos num país decente. Mas não, o português não tem carrinha de gelados, tem, no máximo, o café com gelados, que mesmo em Março são escassos. (Convoco todos os interessados para uma manifestação a favor da implementação da carrinha de gelados em Portugal, como direito absoluto do cidadão português).
Enfim, estava calor e, depois de meses a levar com os casacos, os guarda-chuvas (um ódio de estimação, como sabem os que costumam ler este humilde blog), os cachecóis, as luvas, os gorros, os pompons para tapar as orelhas e toda uma panóplia de objectos contra o frio, era impossível não aproveitar!
Corri para o terraço onde depressa o sol quentinho se transformou em sol fervente e comecei a ver tudo negro à minha volta, e por isso tive de rastejar até uma sombra de modo a não cair sobre o portátil, sofrendo de insolação e talvez até de choque eléctrico! (mas mantive as pernas ao sol, claro!)
Só que amante do calor que se preze não se limita ao seu pedacinho de pedra sob o sol: era preciso a areia no meio dos dedos dos pés, a emoção de evitar as canas afiadas, espetadas na areia, o cheiro a mar entranhado no cabelo. É claro que, quando se mora a 5 minutos da praia e se demora quase meia hora a chegar, devido ao tráfego, já não se está tão optimista e só se quer um espaço para enfiar o carro e atirar os chinelos ao ar para se poder dizer que se pisou areia. Com sorte, arranjámos um lugar perfeito, mesmo ao pé da praia, e lá fomos nós, com um sorriso de orelha a orelha, de chinelinho e top para a praia. Mas ousados mesmo eram aqueles que secavam ao vento nas suas toalhas, depois de um belo banho de mar... Não, eles não secavam ao sol, era ao vento mesmo. Mas estava calor, e eles aproveitaram! Tal e qual o bom turista inglês, que anda sempre com camisa de flores mesmo quando eu tapo o nariz enregelado com o cachecol. É pessoal rijo! Não é um ventinho que lhes vai estragar o dia!
Voltei feliz para casa, com os pés, entretanto gelados, cheios de areia, e espalhei-a o mais que pude pela casa. Aspirar já não foi tão divertido, mas, por segundos, consegui imaginar que já era Verão... aiai...

Thursday, March 08, 2007

And today, my name is...

Entro no messenger e passo os primeiros minutos a ler os "nicks" dos amigos, conhecidos, esquecidos e habituais. E, nesses momentos, únicos no meu dia, vejo o estado do mundo.
Há aqueles que, revoltados, se queixam da $&#* da vida, do tempo, das aulas, do trabalho. Que se sentem revoltados com os amigos, com os outros e com eles mesmos.
Também existe sempre alguém que deixa uma parte de uma música, provavelmente porque ela não lhe sai da cabeça, e a trauteava ainda quando entrou na net, pronto a "teclar".
Invariavelmente, as declarações apaixonadas, juras de amor eterno que, muitas vezes, passados alguns meses, acabam iguais ao primeiro caso, com queixas acerca da $&#* da vida.
E depois, surgem aqueles que só escrevem o nome. Mais nada. Devem ser felizes, esses...

O messenger é um bom indicador do mundo lá de fora, o mundo em que as pessoas são mais que palavras e têm vidas mais ou menos $&#*%....

É estúpido

Faço aquele gesto estúpido, de quem ainda acredita que vai a tempo. Estico-me, heroicamente, mas só agarro o ar. É estúpido. Como é estúpido tentar afastar-me de uma bola que, com toda a certeza, me vai bater mesmo no meio da testa.
O mundo está cheio de gestos estúpidos que fazemos na tentativa de evitar a estupidez. É estúpido levar com a bola na testa. Mas mais estúpido ainda seria ficar parada, não?

She's in every one of us

Para nós:



Hoje ninguém pára a loucura feminina lol!

Ernesto, no meu sono.

Houve uma altura em que estava convencidíssima que conseguia prever o futuro nos meus sonhos. É claro que isso resultou no máximo duas vezes, quando eram coisas mais que prováveis, e nunca mais deu certo, até hoje.
Foi quando o Sô Ernesto, o homem sem braços nem cabeça, me invadiu o sono, que comecei a ficar algo irritada. Mas com que direito vêm estas personagens interromper o nosso merecido descanso?
Chega uma rapariga estafada, veste o seu pijama de coelhinhos e fecha os olhos, confiante de que no dia seguinte acordará uma mulher nova, cheia de energia e boa disposição.... quando, de repente, lá está ele, o Ernesto, encostado à nossa janela, para nos assombrar mais um bocadinho.
"Ernesto", pedi eu, amavelmente, "Não podias ir chatear outra pessoa? É que estou muito cansada, hoje não tenho paciência para te inventar umas falas"
Ele abana o tronco num gesto ofendido (porque sem cabeça nem braços é difícil, imaginam, expressar o seu desagrado), abre a janela e salta lá para fora.
Pobre Ernesto, provavelmente só queria alguém com quem falar, com quem discutir conceitos filosóficos e a história do Mundo... Da próxima vez, convido-o para se sentar ao pé de mim e peço-lhe que me conte a sua história. Afinal, o Ernesto também merece um amigo!

Mulheres fantásticas

Conta a história que, no dia 8 de Março de 1857, as operárias de uma fábrica têxtil de Nova Iorque teriam decidido manifestar-se contra as suas duras condições de trabalho: 16 horas diárias, salários muito inferiores aos dos homens, e um tratamento indigno no local de trabalho. Dizem ainda que a manifestação foi abafada com extrema violência, com as mulheres a serem presas na fábrica que terá sido, então, incendidada, causando a morte de 130 tecelãs.
Lenda ou realidade, visto que esta é uma história contestada por alguns, a verdade é que as mulheres foram, durante séculos, vítimas duma sociedade que as colocava na base da hierarquia.
E foi graças aos sonhos, à luta e à esperança das nossas antepassadas, foi por elas não se conformarem e desejarem um mundo melhor para elas e para nós, que hoje podemos disfrutar de uma vida com menos restrições e limitações.
Este não é mais um dia dedicado ao comércio, até porque as prendas, neste dia, são escassas. Este é, sim, essencialmente, o dia de lembrarmos os sacrifícios que foram feitos e de os valorizarmos, respeitando-nos enquanto mulheres e seres humanos, todos os dias da nossa vida.

A todas as grandes mulheres, que dão ao mundo um pouco mais de brilho e beleza, às que já passaram e até às que ainda estão por vir, dou os meus parabéns.

É uma honra ser mulher neste mundo.

Saturday, March 03, 2007

À primeira vista

Quando nasceu, foi dada como tendo olhos castanhos. Nada mais que um erro, por parte de um funcionário distraído, preocupado com a hora de almoço que se aproximava. Se tivesse olhado por mais uns momentos, mais uns segundos apenas, ter-se-ia espantado e chamado os colegas para assistirem a tal prodígio.
Nos olhos dela viam-se as chamas e o sangue derramado pelas guerras, homens feridos e cambaleantes, crianças estendidas que nunca iriam crescer.
O horror do passado, do presente e do futuro cruzavam-se, rápidos, na escuridão que habitava o seu olhar.
Com óculos escuros, aprendeu a esconder o seu segredo, para que os homens não tentassem descobrir o seu futuro. Nem perante o espelho os retirava, receando assistir a tamanha dor.
E quando morreu e foi velada, tirando-lhe os óculos, a multidão gritou: como que um espelho, os seus olhos mostravam o seu corpo inerte, rodeado do espanto de quem a sepultou.

Sou parte de ti

Sou mais que as cinzas dos meus antepassados.
Eu sou a força, o sonho, e a coragem.
Eu sou a determinação, a luta e o perdão.
Eu sou os monumentos que eles ergueram
e as causas em que acreditaram.
Eu sou os momentos em que sofreram
e as alturas em que ganharam.
Eu sou as pedras que eles pisaram
e os dias que viveram.
Eu sou as músicas que cantaram
e as cartas que escreveram.
Eu sou o dia depois, o que não puderam ver
eu sou os planos rabiscados à espera de viver.
Eu sou os risos que não se podem guardar
e as feridas que não podem sarar.
Eu sou as vidas que nunca conheci,
e sou aquela que é parte de ti...

Friday, March 02, 2007

My dear Ray...

Cheira-me que, se de facto existe algo como a reencarnação, eu devo ter sido em tempos uma daquelas meninas...

Come on Jack, hit the road...

Um brinde perfeito

Não ouves? À tua volta o mundo celebra a vida: as flores abrem uma e outra vez, o sol nasce e põe-se, as estrelas ardem e caem no céu, a chuva vem beijar-te e afasta-se mansinha, o mar rebenta aos teus pés como fogo de artifício, as árvores abanam as suas copas numa dança alegre e terna, e as borboletas vagueiam, como confetis, no ar.

Não o consegues ouvir?

Wednesday, February 28, 2007

Estou xim??

Eu sou do tempo em que os computadores começaram a chegar às casas da classe média, em que as disquetes eram um êxito e o DOS dominava o mundo, em que o jogo do Príncipe da Arábia movimentava massas e o Pacman era o delírio total.
Via o meu pai, em frente ao ecrã em preto do DOS, e fui aprendendo assim a inserir os códigos. Quando chegou o Windows, a minha vida mudou. Quando a internet chegou a nossa casa, fizemos um jantar com direito a champanhe. Quando o Messenger estreou, foi a loucura: rebentámos fogo de artifício no quintal e dançámos a noite toda...
Enfim, talvez esteja a exagerar um pouco, mas a verdade é que pertenço àquela geração que cresceu a ouvir falar de tecnologia e para quem o computador é um amigo (tirando as vezes em que bloqueia, e se torna o maior inimigo à face da terra, alvo de murros e gritos... o que demontra o meu lado mais primitivo, julgando que a grande máquina me pode ouvir...).
É engraçado como "os mais velhos" se dividem: uns, maravilhados e curiosos, tentam aprender, rabiscando cada passo no seu bloco de notas ("Carregar no botão vermelho e esperar que o computador aqueça. Ir até à internet através do menu iniciar"...), mesmo que não consigam compreender a dinâmica da coisa... Outros, pura e simplesmente, colocam cruzes e alhos à volta do computador dos filhos e netos, têm medo de passar à frente dele ("os teus amigos com quem estás a conversar não me vão ver, pois não?"), estremecem de cada vez que o monstro emite um bip.
É estranho pensar que, um dia, talvez seja eu a estranha, a olhar de lado para uma máquina do tempo ou para uma espécie de impressora que permite passar materiais de um lado para o outro...
Quando a minha bisavó tirava fotografias, punha sempre perfume... Nunca se sabe, quando alguém se vai lembrar de cheirar a fotografia. E quando assistiam televisão, tinham sempre de se vestir adequadamente e comportar como anjos, não fosse o senhor apresentador repreendê-las.
A verdade é que, muitas vezes, mesmo quando aceitamos as novas tecnologias e as queremos adoptar, não conseguimos esquecer de onde viemos. É por isso que alguns ainda mandam sms como se fossem telegramas, convencidos de que se paga por caracter, ou tentam ser o mais rápidos possível a escrever, não vá pagar-se ao minuto...
No fim, são eles quem merece a nossa admiração, porque é difícil acompanhar os tempos que correm, mas, mesmo assim, eles insistem e não desistem. E porque um dia, com sorte, nós seremos eles...

Tuesday, February 27, 2007

Esta vida de estudante está a dar cabo de mim.. RAPARAPARAPARA!

Com as notas a saírem, quentinhas e às dúzias, como a castanhinha assada, só nos resta sorrir de contentamento ou sorrir para não ficarmos com cara de parvos.
Na verdade, a transição da escolinha para a FACULDADE pode provocar uns certos sustos, quando os nossos belos 18 na pauta são substituídos por 13s rançosos e pegajosos, que pairam sobre as nossas cabeças com bocarras abertas murmurando "Desempregoooooo".
Enfim, ao universitário restam duas saídas: ou usufrui das famosas cábulas, que, inexplicavelmente, nunca foram tão fáceis de usar, ou puxa pela imaginação e enfia algumas citações brilhantemente decoradas mesmo quando não têm relação nenhuma com o que se está a escrever.
Há sempre aqueles professores que nos animam com o típico discurso do "Uma vez, há muitos anos, dei um 20", que é para ver se a malta vai logo a correr, ansiosa, ler os textos todos e sublinhá-los com canetas fluorescentes para conseguir o tal 20, carregado de teias de aranha, que provavelmente só daqui a 50 anos é que volta a sair do armário.
Pode ser frustrante, quando entregamos um trabalho que levou meses a fazer, encadernado com os melhores materiais da papelaria, e quando chegamos, vemos o nosso trabalho riscado, a capa arrancada (aparentemente, é um obstáculo ao intelecto), páginas dobradas e manchas de café em cima da imagem que nos gastou quase um tinteiro a imprimir.
Pode até ser enfurecedor, quando nos dizem "está bastante bom... tem 12!".
Queridos colegas, mantenham a calma. Apesar de às vezes não termos tempo para mais nada, a verdade é que existe mesmo vida fora da universidade. Não se deixem enganar pelo argumento estilo "A Vila" e arrisquem cruzar os portões (ou as asas do pássaro, se andarem na FCSH), e verão que o mundo está à vossa espera, à espera de ser descoberto e de poder maravilhar alguém.
E, no último dia (para o qual me faltam precisamente 4 meses!), queimamos os livros, derrubamos os muros, atiramos as canetas ( e desviamo-nos, porque era um bocado vergonhoso levar com elas em cima) e brindamos a um mundo inteiro por descobrir!

Ps - o desemprego é apenas uma altura em que nos é possível dormir o dia inteiro, ver a série do CSI que nos faltava, escrever um livro sobre um tsunami que abala Cascais e que, assim, arrasta peles e diamantes pelo país inteiro, em que podemos passar a tarde a jogar pc ou a descobrir as teorias da conspiração que existem, aos montes, na internet. Até parece divertido... não?

Friday, February 23, 2007

Amizades

Quero falar de ti.
Quero-te agradecer todas as palavras, as faladas e as imaginadas, de conforto e afecto, de força e esperança, que me dás, todos os dias, até mesmo quando não estás por perto.
Quero-te agradecer as mensagens, os telefonemas, os cafés, os serões, as conversas disparatadas, as partilhas filosóficas, as dicussões metafísicas, os momentos de silêncio, as gargalhadas sonoras, as vergonhas a meias, as cusquices confessadas, os segredos murmurados.
Quero-te agradecer por me ouvires sempre, mesmo quando já não faço sentido, e responderes da mesma maneira estranha, que os outros não entendem.
Quero-te agradecer por me apoiares quando tenho razão, e por me saberes criticar quando não a tenho, por te levantares em minha defesa em todas as ocasiões e me chamares à razão depois, quando estamos sós.
Quero-te agradecer por festejares comigo o meu sucesso, e me fazeres esquecer e ultrapassar os pequenos fracassos.
Quero-te agradecer por seres quem és e por me fazeres parte da tua vida.

Obrigada pelos bons e os maus momentos, os melhores e os piores.
Obrigada a todos os "tus" que fazem do meu mundo um sítio especial para viver :)

Thursday, February 22, 2007

Minhá terrá Brásiu


Acabei ontem "A Bruxa de OZ" do Gregory Maguire. Uma Estória com E grande mesmo, cheia de personagens fantásticas maravilhosas, e com uma ironia deliciosa. E se a bruxa de Oz que tomos conhecemos da história da pequena Dorothy fosse, na verdade, uma defensora dos oprimidos, uma guerreira pela igualdade entre os seres? É isso que propõe Maguire, e este é um livro difícil de largar: li-o na cama, à mesa, no banho, entre as refeições, com um olho aberto e outro fechado, virei as páginas com os dedos dos pés, usei-o como base para o copo...

Resumindo, recomendo. Mesmo para aqueles que não são fãs do género fantástico, como eu também não mo considero, é um livro surpreendente, cómico e triste ao mesmo tempo, que merece e vale a pena ser lido.


Continuando...

Carnaval em Sesimbódromo? É cláru gálerá! Garotas semi-nuas, sambando (ou tremendo de frio?) pelas ruas, moçoilos batendo os tambores como se não houvesse amanhã, e o povo, folião, abanando-se, empurrando-se, gritando qualquer coisa como "Minha terra brasil...". Foi divertido, apesar de continuar a achar um pouco ridículo festejarmos o carnaval à moda brasileira. Porque não celebrá-lo com motivos nacionais? ... Bem dizíamos nós, os santos populares é que é minha gente!

Monday, February 12, 2007

Homem estátua


Lá estava ele de pé, todos os dias, coberto de graxa branca. Uns sorriam, outros tiravam fotografias, outros nem sequer viravam o rosto. Quando a moeda caía no chapéu, acenava, e as crianças, assustadas, pulavam para trás, agarrando-se às mães.

Ninguém sabia o seu nome, de onde vinha, quantos anos tinha. Não se lhe conhecia família, amigos nem animal de estimação. Ali ficava, direito, quieto, calado, olhos distraídos ou o olhar focado. Na verdade, ninguém sabia dizer.

Só quando, um dia, ele não apareceu, é que alguém se lembrou de perguntar. "Vagabundo, sem-abrigo, imigrante. Artista de rua? Diga antes pelintra!", o polícia ligeiro com o cacetete a rodar.

E depressa veio outro tomar o seu lugar...

Thursday, February 08, 2007

SEI O QUE FIZESTE!!

Um dia persegui-te pela rua com uma câmara! Sim, a ti mesmo!!! Estás preocupado? Pois, é verdade, sei o que fizeste....
Envia 20 euros para a minha morada e receberás a cassete em casa...

(Querem apostar que, caso isto fosse um blog popular, eu ficava rica?)

Movimento Pela Criatividade Infanto-Juvenil Prolongada

Não sei porquê, mas dizer "não fui eu" na minha infância sempre teve melhor resultado que dizer "fui eu"... Provavelmente porque esses adultos não compreendiam a minha liberdade criativa: pintar uma parede de vermelho para assustar a minha irmã e a minha prima enquanto gritava "HÁ SANGUE!", acender fogo dentro da garagem para treinar avançadas técnicas de salvamento caso um dia houvesse um incêndio de verdade, colar frases com fita-cola à parede de meu quarto para quando precisasse de um pensamento iluminado (neste caso, o verdadeiro problema foi arracá-las e deixar a parede cheia de falhas na pintura), meter detergente na comida das psico-galinhas porque elas insistiam em perseguir-me... (esta última foi um bocado demais, até eu admito)

É por isso que hoje, dizer "fui eu" é sempre assustador. Sou uma jovem traumatizada por esse passado de opressão:
No restaurante: "Quem pediu o bolo de bolacha?"
"Hummm.... talvez tenha sido eu...."
Em casa: "Quem é que comprou este casaco?"
"Eu fui com a Cristina ao shopping e isso vinha no meu saco..."
Na faculdade: "Quem é que teve 20?"
"NÃO FUI EUUUUU!" - o meu momento de glória, bato palmas, sorrio, sinto-me livre da maldição do "Fui-eu". E mesmo dentro do colete de forças ainda consigo ter forças para esticar o polegar e gritar NÃO FUI EUUUUU CAMARADAS!

(Pais: permitam que esta imagem, deveras preocupante, vos alerte para os perigos de oprimir a criatividade das vossas crianças!!)

Monday, February 05, 2007

O beijo

"Beijo de tia: aquele em que só as bochechas se encostam e a boca beija o nada.(nada de novo até agora...)
Beijo francês: Os amantes colam os lábios nas bochechas um do outro e fazem um movimento circular com a língua. (tomar nota: não namorar com franceses!)
Beijo chinês: cola-se os lábios e o nariz na bochecha do parceiro , aspira-se o seu perfume e em seguida estala-se a boca num beijo sonoro. (?? nota 2: é melhor evitar os chineses, também!)
Beijo Higitec: a pessoa beija com tanta força que parece estar sugando o ar da sua boca. (mas isto é uma lista de beijos ou de formas de tortura?!)
Beijo japonês: dado pelo homem na nuca da gueixa. (finalmente, algo normal... tirando a parte da gueixa, claro)
Beijo italiano: O famoso beijo de língua. (hey, a Alexandra vai gostar de saber isto!)
Beijo de perua: Aquele em que 2 mulheres "suuuper amigas" se comprimentam sem encostar as bochechas e fazem o som de 2 beijinhos bem espremidinhos. (nota 3: treinar beijinhos espremidinhos para ir ganhando o músculo necessário à operação!)
Selinho: quando encosta-se apenas os lábios. ("um leve suspiro", nas palavras de alguém)
Beijo guloso: o "beijador" abre tanto a boca que parece estar querendo comer a boca do parceiro (a). (nota 4: evitar beijar quando perdida nos Alpes há mais de uma semana!)
Beijo estátua: neste beijo a pessoa não mexe absolutamente nada, nem a língua, nem a cabeça ou sequer os braços. É como uma tuba que se abre e permanece estática esperando que o(a) outro(a) tome a iniciativa e comande a situação. (será que quem inventou este beijo não terá dado o beijo guloso primeiro? nota 5: verificar sinais vitais do companheiro/a antes de beijar!!)
Beijo Titanic: quando você beija alguém com excesso de salivação e acaba saindo ensopado(a). Pode até ser excitante no começo mas, com o passar dos dias, ou você desencana ou compra um babador. (nota 6: evitar os Bobis e Tarecos!)
Beijo desbravador: neste caso a pessoa invade a boca da outra com a língua e fica tentando descobrir cada ondulação dos seus dentes e a profundidade de sua traquéia." (isto está a tornar-se assustador...)

E nunca o beijo me meteu tanto medo. Nem mesmo quando inventámos gripes, constipações e tuberculoses para nos safarmos... Por falar nisso, parece que sinto algo na garganta...cof,cof,cof

Sunday, February 04, 2007

Luz verde




É preciso saber esperar. Atravessar com o sinal vermelho não pode ser boa ideia. Enquanto os carros passam, velozes, rentes ao passeio onde me deixo ficar, olho em volta:
Vejo que todos os prédios ultrapassam as árvores. Penso que, ali, não deve ser bonito voar. Vejo que os donos dos cães deixam que as necessidades se acumulem ao longo do passeio, juntamente com o lixo que uns e outros vão atirando para o lado. Ali também não é bom andar. E mesmo as sarjetas estão atulhadas de folhas, e vidros, caricas e cêntimos perdidos. Calculo que também não seja agradável nadar por ali.
Acende-se a luz verde e todos se precipitam, apressados, para o outro lado. E um cego julgaria, levado pela ânsia dos outros, tratar-se do paraíso, o que o esperava.

É quando sorris que te conheço melhor

Imersos no silêncio, adivinho um sorriso por nascer. Pressinto-o, quando deixas cair as pálpebras, depressa, num piscar de olhos quase imperceptível. Os teus lábios estreitam-se e inclinas a cabeça para trás, só uns milímetros. E, então, vejo-o romper em cada célula tua, em cada gesto que fazes, mesmo sem o saberes.

É quando sorris que te conheço melhor.

Thank you Frankie

And now, the end is here
And so I face the final curtain
My friend, I'll say it clear
I'll state my case, of which I'm certain
I've lived a life that's full
I traveled each and ev'ry highway
And more, much more than this,
I did it my way

Regrets, I've had a few
But then again, too few to mention
I did what I had to do and saw it through without exemption
I planned each charted course, each careful step along the byway
And more, much more than this,
I did it my way

Yes, there were times, I'm sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all, when there was doubt
I ate it up and spit it out
I faced it all and I stood tall
and did it my way
I've loved, I've laughed and cried
I've had my fill, my share of losing
And now, as tears subside, I find it all so amusing
To think I did all that
And may I say, not in a shy way,
"Oh, no, oh, no, not me, I did it my way"

For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught
To say the things he truly feels and not the words of one who kneels
The record shows I took the blows
and did it my way!

[instrumental]
Yes, it was my way

Saturday, February 03, 2007

No regresso




Nunca a cidade cantara tão alto as suas dores. Esboçaste um sorriso ao ouvi-los: eram os fados que nunca ouviras e sempre sonharas. Os gemidos tremidos que nunca soltaras mas sempre sentiras. A vida que nunca viveras mas que há muito conhecias. Esperavas alguém que partira, mas nunca viras. Esperavas o seu regresso desde sempre. E era o dia, tinhas a certeza. As guitarras gritavam por ele, enchendo as pedras da calçada de um cinzento mais límpido. Olhaste e pudeste vê-lo, mais uma vez, aquele que nunca antes viras. E era tal e qual como o recordavas. Nas águas do Tejo ele dançava para ti. Os últimos acordes fugiam das cordas das guitarras. A música tornava-se livre do objecto que a aprisionava. Também tu eras livre, no seu abraço. Entrelaçados, deixavam que as ondas vos embalassem o silêncio. Não havia nada a dizer. O que se diz a alguém que viveu sempre dentro de nós?

E quando, pela manhã, te encontraram, já tinhas partido também.

À distância

As pessoas entram e saem da nossa vida sem nunca pedir licença. Entram de repente, vão-se de repente, e por vezes marcam-nos mais do que conseguimos perceber.
E é quando saem, seja por um dia, seja para sempre, que as vemos, pela primeira vez, como elas realmente são. Só à distância conhecemos aqueles que nos rodeiam.
Algumas partem sem que olhemos para trás. Outras conseguem levar com elas uma parte de nós que recuperaremos apenas quando voltarem. Se voltarem...