Monday, November 05, 2007

Des-ilusão

A palavra desilusão sugere a negação da ilusão. Talvez, pensei vezes sem conta, a solução resida aí, na análise da palavra, no evitar da ilusão que se tornará desilusão. "A palavra cão não morde" disse algum linguista, desses muitos que estudei ao longo dos 3 anos que já tenho de faculdade. E a palavra desilusão? Desilude. Entristece. Faz-me sempre sentir um bocadinho mais pequena, quando a leio, um bocadinho mais nova, encolhida debaixo dos lençóis, tentando afastá-la com as pontas dos dedos que os apertam com força.
Hoje mudo. Olho ao espelho, digo a palavra em voz alta, fixo os lábios que a soletram, devagar: de-si-lu-são. Não me assustas. Não me encolho, não me escondo. Não procuro o interruptor para a encobrir com a escuridão.
A desilusão, essa palavra feia de negação, há-de estar sempre presente na minha vida. Os lençóis serão roídos por traças muito antes que ela desapareça. O segredo não está na não ilusão, não para mim, mas na aceitação: ao longo da vida, a desilusão há-de bater a esta porta muitas vezes, e eu escutarei a sua mão mirrada na maçaneta, forçando a entrada no meu mundo perfeito.
Recusar a ilusão não será um risco bem maior do que o de nos virmos a desiludir? Que ser, tão forte, tão não humano, se poderá recusar a iludir-se durante toda uma vida? E quantos momentos serão perdido em nome dessa segurança idílica? Como num salto de pára-quedas, confio, salto: por momentos, o céu e só ele sob mim, sob a minha barriga, o sorriso deformado pela força do ar que me empurra os músculos para cima. Confio, porque viver sem confiar em ninguém é viver eternamente sozinho. Salto, porque viver eternamente com os pés na terra é renegar o sonho mais antigo do homem. Confiar, é ganhar asas de papel e cruzar os dedos no momento do vôo, pedir que não se desfaçam em pedaços quando estiver mais alta.
Não podemos confiar sempre e em toda a gente, mas, de vez em quando, é bom confiar. É bom dizer a nós mesmos, no mais profundo dos silêncios que é o pensamento, "confio em ti" e fechar os olhos quando nos dizem: vá, tenho uma surpresa, fecha os olhos e abre a mão.
A vida é demasiado curta para fugir da ilusão. Imagino que isso consuma mais energia e esforço do que recuperar da eventual desilusão. Porque, mais cedo ou mais tarde, ela há-de chegar, e, por mais que tentemos, nunca seremos capazes de a evitar sempre..
Salta.
Confia.
Fecha os olhos.
Vale a pena.

Thursday, November 01, 2007

"Crónica de um Halloween"


Se isto fosse um filme, a sua análise iniciar-se-ia pelo título e o Prof. J.M.Grilo diria que o facto de ser uma crónica indiciava uma ruptura com o modo habitual de narrativa cinematográfica e demonstrava uma ausência de controlo sobre os acontecimentos.

Controlo? Pois bem...

Exactamente que porção de controlo existirá numa casa perdida no reino da fantasia, onde músicas mórbidas, um menu repleto de nomes de pratos grotescos, teias de aranha, fantasmas e múmias penduradas de candeeiros coexistem com 10 miúdas mascaradas de tudo o que pode ser mais horrível? Posso garantir-vos, então, que controlo não foi a palavra da noite, mas em contrapartida animação não faltou!

A animação, para falar a verdade, já tinha nascido muito antes dessa noite. Há quase uma semana que se desenrolavam preparativos secretos, com direito a sms trocadas à volta de uma mesa de café para não deixar escapar nenhum pormenor! "Como é que vamos fazer AQUILO?" ou "Já trataste DAQUELA COISA?" tornaram-se expressões quotidianas e agravaram a afasia que por vezes nos assola. Nada de grave, há que fazer sacrifícios em nome da perfeição, e nem mesmo uma tarde de trabalhos manuais extremamente agressivos, deixando sérias mazelas nuns dedos arroxeados, nos deitaram abaixo!

Às 11 da manhã lá estávamos nós, ora nos tachos ora na tesoura e na fita-cola: agrafadores, açúcar, papel e tomates conviviam na mesma mesa, lado a lado, prometendo uma noite recompensadora.

E assim foi: dez monstros invadiram a minha sala, que já não era a minha sala, era uma sala saída dum filme de terror, com teias que se agarravam constantemente à faca que tinha espetada na cabeça (calma, era uma bandolete que dava esse efeito... não levei o espírito ASSIM tão longe!), e sons de mochos, fantasmas e lobos a abafarem os risos incontroláveis.

Mímica, o jogo dos papéis de personagens na testa, e o famoso "Murder Mistery Game" deram um toque de convívio especial a esta noite que acabou com a Samara, o bebé cadáver e duas diabas amontoadas no meu quarto, enquanto me fui deitar na cama dos meus pais aproveitando ter TV CABO para ver antes de dormir (sim, que no meu quarto, tendo apenas 4 canais, a noite acaba quase sempre com a RTP2 a embalar-me os sonhos).

Por isso, controlo?... Não.

Foi uma noite de sustos, berros, risos, gargalhadas maquivélicas a ecoarem pelos cantos. Uma noite de convívio puro, de pura fantasia, de interpretação de personagens até cairmos para o lado. E eu adorei cada segundinho desta falta de controlo que a vida de uma crónica me proporcionou.


*Na foto: (da esquerda para a direita, em cima) Diaba Gótica (Rachel, minha companheira Chef e co-organizadora desta noite fantástica!), Golden Witch (a minha Niky que pela primeira vez jogou como minha opositora no jogo da mímica e me irritou por pensar exactamente da mesma forma que eu!! Acho que 12 anos fazem destas coisas...:P), Diabinha Trapalhona (Dee, que garantiu que não era nada desastrada mas conseguiu deitar tudo abaixo lol... não faz mal,estás perdoadíssima ;)), Bebé Cadáver (Gui, a minha filha assassinada com o saca-rolhas que lhe espetei na cabeça antes de eu mesma ser assassinada pelo meu noivo... e acham o guião confuso? não reclamem comigo, não fui eu que escrevi!), Samara (Drinha, também conhecida como Samantha nesta noite, que se andava a contorcer pelos cantos e a pedir Sagres com vozes esquisitas), Bruxa pálida (Raquel, sempre com o seu ar matador nas fotos... ;) chegaram tarde mas marcaram presença!), Bruxa da Coca-Cola (Sonya, a única pessoa que conheço que consegue fazer um bolo delicioso juntando coca-cola, que detesto, côco e leite condensado! Nota 21!);
(em baixo) Noiva Cadáver (por acaso nunca vi aquela gaja na vida... :P eu, com a faca espetada na cabeça e o sangue que ao fim da noite já se colava aos cabelos e começava a irritar ligeiramente), Bruxa morta ou um bocadinho para o podre (Mana Jo, brilhantemente maquilhada, tava lindaaaa mesmo!) e Noivo AKA Morte AKA bruxa da branca de neve com bigode (Mary Jane, sempre animada e interventiva, uma habitué destes serões).
No fundo, bastava dizer que na foto estão as minhas AMIGAS, umas de anos, outras de meses, mas todas muito importantes para mim. É porque acredito que são as pessoas que fazem os sítios que sei que a festa não poderia ter corrido melhor ;)

Thursday, October 25, 2007

Debaixo da cama

Debaixo da cama não há fantasmas. E, ainda assim, hesito antes de espreitar, uma fracção de segundo em que o coração pára de bombear vida e se cala para não perturbar o mundo dos mortos.
Debaixo da cama há o pó, as canetas que rebolaram, ligeiras, até à parede mais afastada, os arranhões que o aspirador não teve pudor em fazer na madeira brilhante.
Espreito. Devagar, não vão eles fugir. A mão que levanta a colcha como se abrisse a cortina para um outro mundo, púrpura e silencioso. Os olhos habituam-se à escuridão que reina ali, debaixo da cama, onde tudo é possível. Por momentos... Não.
Debaixo da cama há pó, canetas, arranhões, o bilhete de comboio que caiu do bolso das calças. Mas poderia jurar que, antes dos meus olhos se habituarem ao escuro, vi dezenas de formas, centenas de rostos, milhares de gestos. Antes dos meus olhos se habituarem à luz do nosso mundo, que nos cega e ampara, nos acalma o espírito e nos tranquiliza os medos com ciências exactas...

Wednesday, October 24, 2007

Partes de mim


Sei que parte de mim viverá eternamente insatisfeita. Parte de mim, a das asas que batem contra as grades da gaiola dourada, quererá sempre mais, ansiosa de ver para além do horizonte onde acaba o mundo plano e ele se torna redondo. Parte de mim lamentará, até ao fim dos meus dias, não ter visto cada estrada,cada pedra,cada rosto. Essa parte de mim chorará baixinho, frustrada nas suas expectativas de conhecer o mundo. Revoltar-se-à contra a pequenez do homem, a sua efemeridade, as limitações físicas que envolvem a sua alma gigante.
Mas também sei que a minha outra parte, a dos murmúrios dos dias simples, me levará mais longe do que alguma vez os pés mo permitirão. Dir-me-à, procurando um sorriso pleno, que tudo aquilo que um homem pode desejar se situa à sua volta, nas coisas mais simples, nas pessoas mais próximas. Que tudo aquilo que um homem pode, de facto, possuir, será para sempre seu, inviolável mas frágil, parte de si como o próprio sangue que lhe corre nas veias e lhe dá vida. Que dos recortes do mundo, qual trabalho de colagem, levará apenas aqueles que lhe tocarem a alma e não os que lhe marcarem o corpo. E que a minha alma, essa, poderá sempre encher-se um pouco mais e beber das coisas quotidianas que nascem, todos os dias, diferentes.

Tuesday, October 23, 2007

Pé, pézinho, pézão!


Os dedos dos pés ficam para trás. Não sei o que se passa, mas dede pequenina que tenho o hábito de bater com os dedos pequeninos dos pés em todo o lado. Estão tortos e encurvados como o Corcunda de Notre Dame (que imagem tão sexy!).

Se calhar, eles andam depressa demais. Tal como o Gino de "Ossessione", os meus pés têm um formigueiro permanente que os faz "flanêurs" por aí, loucos embriagados que vão contra portas sem nunca, no entanto, pararem de avançar.

Eu vou e venho e mesmo quando fico estou em movimento. Os meus pés estão sempre a bater em algum lado, a sentir um ritmo que não se ouve, a balançar debaixo do assento de uma cadeira, a rodar nos tornozelos num gesto zen, a apanhar as coisas que caem quando não tenho paciência para me baixar.

Os meus pés hiper desenvolvidos calçam o 35/36 e passam despercebidos na grande metrópole dos pés. Não usam mata-baratas (vulgos sapatos bicudos) nem nada que os possa disfarçar. Eles gostam mesmo é do chinelo, dedos de fora a saborear o vento, a terra e as pisadelas de vez em quando.

Os meus pés são simples, humildes, trilham o seu caminho rés ao chão. Permitem-se, de vez em quando, delírios de pinos e rodas (a última correu bastante mal e desde aí andam algo medricas), e amam andar de fora da janela, no carro. São pés que sonham vaguear pelo mundo inteiro, mesmo que a maioria das vezes apenas o façam directamente do sofá. São pés que hesitam entre o buraco e a poça, e que, às vezes, quando ninguém está a olhar, saltam como bailarinas entre as pedras da calçada, com risinhos de desafio à ordem estabelecida. Gostam de se descalçar, sentir o frio, o quente, o áspero, o suave, o nivelado, o desiquilíbrio, a relva, a areia, o mar, a estrada que ferve no verão.

O meus pés sonham tão alto quanto a minha cabeça e por isso, quando tudo o resto falha, basta-me fechar os olhos e deixar que eles me levem até onde a terra é mais fértil.


Monday, October 22, 2007

Jean-Poisson-Vodka e seu fiel amigo Jorge

Ele tinha um sonho simples: tornar-se o primeiro homem a aprender a falar a língua dos peixes. Desejava-o, não pelo dinheiro que poderia ganhar, não pela fama, mas porque todos os seus peixinhos de aquário morriam depressa e ele vivia intrigado com aquilo.
Começou por observar a interacção no seu casal de peixinhos dourados, ignorando o sexo de casa um e as suas tendências sexuais, sem saber mesmo se haveria ali romance ou não. Anotava num caderno cada gesto, cada abrir e fechar da boca (excepto quando comiam pois partia do princípio que eram peixes da mais fina educação), cada atirar da barbatana mais sedutor.
Passados 2 anos já era capaz de travar com eles (não com os primeiros que esses, claro, já tinham morrido) uma conversa básica, sem ser capaz, no entanto, de perguntar o porquê da sua morte precipitada.
Até que chegou ao seu aquário o mais belo espécime que alguma vez vira: um peixe dourado que falava brilhantemente o russo e o francês e que usava um bigodinho chiquérrimo a condizer. Em desespero, confirmou que nem mesmo o mais brilhante dos peixes lhe sabia responder.
Jorge morreu pouco tempo depois. O peixe russo-francês sobreviveu por muitos e longos anos, e decidiu aprender a língua dos homens de modo a perceber o que tinha sucedido ao seu dono.
Nenhum dos dois foi capaz de compreender. É que o peixe não possuía a consciência de finitude e mortalidade: para o peixe, todos os dias eram iguais e quando morreu engasgado com um bocado de ração nem se apercebeu do seu fim eminente, recusando-se a gritar ou algo do género, porque, bem, ele era educado e não falava de boca cheia. Já o Jorge não compreendia que o conceito da morte era inexplicável para o Jean-Poisson-Vodka (o nome do peixe educado!), que por isso, por mais educado e poliglota que fosse, nunca seria capaz de explicar ao seu dono o porquê da sua curta vida, até porque ele não sabia o que era curto ou longo, visto que não tinha a noção do tempo.
E então, perguntam vocês, como podia um peixe tão limitado falar duas línguas e saber regras de etiqueta? Também eu me indaguei, noites e dias, sobre tão estranha possibilidade. Não sei, julgo que, se quiserem mesmo descobrir, terão de aprender a língua dos peixes.

Wednesday, October 17, 2007

RIP monstro das bolachas


Andava eu pelo youtube, perdida entre os vídeos da Rua Sésamo, num regresso ao passado inocente e descontraído, quando me deparei com uma notícia terrível: a morte anunciada do senhor Monstro das Bolachas.

Aparentemente, era este monstrinho azul o culpado pela obesidade nos EUA. Claro, como é que ninguém se apercebeu disso antes? Resta saber como vai ele morrer: engasgado com uma bolacha gigante? Gordo e redondo, começa a rebolar pela estrada até ser atropelado? Qualquer uma destas mortes parece demasiado piedosa para este produto do demo, que continua a incentivar as pequenas crianças, inocentes meninos que passam as tardes a jogar jogos de tiros e sangue espalhado pelo ecrã, a comerem bolachas. BOLACHAS! Ainda se fosse uma cervejinha ou duas, ainda se perdoava, mas bolachas é demais!

Assim sendo, o monstro das bolachas será simbolicamente executado, transformando-se em monstro... dos legumes. Ahahah nada mais divertido: "bem, que fomeca! Vou ali comer uma folhinha de alface! Não querem uma também, meninos?".

É importante mudar os hábitos alimentares das crianças, cada vez mais gordas, mas será que esses hábitos foram adquiridos do monstro das bolachas ou dos pais?

Monstro das Bolachas, CULPADO! Metam-no na prisão, dêem o exemplo, comecem também a pôr o Poupas a fazer uns assaltos e a acabar na choça e o sapo Cocas devia apanhar uma cirrose para as crianças saberem que não se deve beber álcool em demasia.

Realmente, às vezes parece-me que o meu tempo de criança já foi mesmo há muuuuito tempo. E tendo em conta tudo isto, ainda bem.

Orgulho

É uma questão de auto-estima, amor próprio. Ama-te a ti mesmo, orgulha-te de ti. Tenho orgulho da pessoa que sou, mesmo com as minhas falhas e limitações, mesmo com os meus erros. Poderia ter sido qualquer outra pessoa mas tenho orgulho, orgulho em ser eu, em ser a criatura que sou. Obrigada vaquinha por me teres recordado isso!! Ouçam e depois digam lá se não estão orgulhosos de vós mesmos!
E obrigado ao maluco que ainda conspira comigo ao ponto de me mostrar estas coisas.
Somos TÃO grandes assim :D



eu poderia ser tanta coisa... mas não sou! E então? lol ela lá sabe ;)

Tuesday, October 16, 2007

A minha doce arrogância

"Só os parvos não mudam nunca de ideias, mas só os fracos mudam à primeira". É uma espécie de lema de vida, para quando as pessoas se revoltam contra a minha "teimosia" (perseverança?).
Quando acredito, acredito. Mas reconheço a minha ignorância, os meus limites, e estou disposta a mudar. Se me conseguirem convencer, claro. Chamem-lhe o que quiserem, mas atiro-vos o meu lema para cima.O meu lema já me valeu discussões, pequenos inimigos, insultos, tachos a voarem pelos ares (talvez esta parte seja imaginada, mas achei que ficava aqui bem!), gotinhas de veneno espalhadas aqui e ali, pelos muitos sítios em que passei.
Entendam como arrogância o facto de não me dobrar às vossas vontades. Entendam como insolência a minha incapacidade de me calar quando acho que tenho razão. "Se calhar, devias calar-te. Não vale a pena". Vale a pena lutar pelo acredito, gritar que o mar não é azul (porra, não é mesmo!!), esbracejar e suar pelos meus ideais.
"Posso não concordar com o que dizes, mas lutarei até à morte pelo direito que tens de o dizer", disse Voltaire. Outro lema que procuro seguir, e manter sempre em mente quando me debruço sobre uma nova discussão (são algo frequentes, fazem parte do quotidiano dos teimosos que insistem em ter ideias próprias! Raios partam esta gente...).
Respeito que haja pessoal que goste de comer peixe crú, mas não o vou comer só porque me dizem que é bom, não é? E se isso chatear alguém, paciência. Posso até provar, mastigar uns segundos, e depois se for preciso vou cuspir no guardanapo, "obrigada mas acho que não".
Sou arrogante por milhões de motivos, e tenho de confessar que gosto de pessoas arrogantes: gosto dos que não vendem a alma para serem amados, dos que se mantêm fiéis a si próprios acima de tudo, dos que fazem t-shirts com lemas e saem com elas à rua. Gosto de ideais, mesmo que sejam o oposto dos meus. Gosto de crenças, mesmo que não tenham nada a ver com as minhas. Gosto de idiotas, no sentido da ideia pura, porque são eles que criam aquilo que depois, os simpáticos, amáveis e educados, vão escolher para defender.
Estou sempre pronta para receber novas ideias e perspectivas. Acima de tudo, cativa-me isso: o processo de "idear", de criar a ideia, de montá-la a partir de milhões de pedacinhos de ideias recebidos de milhões de fontes diferentes e dizer: eu ACREDITO que...
E se estou errada, convence-me. Dá-me uns dias. E, quem sabe, não te ligo de volta?

Dramaaa

Os mais próximos saberão que, para cada momento, tenho uma música. As mais recorrentes são o "Eye of the Tiger", do Rocky Balboa, cantada vezes sem conta nos momentos mais desafiantes, e, claro, o "Fur Elise" quando há drama.
E porque um amigo se lembrou do drama que é a nossa vida repleta de desencontros (parece que nos vamos encontrar por acaso no sábado), fica aqui o vídeo que ele procurou, afincadamente, noite e dia, só para mim.



(Não faças dramaaaaa Mikastrompsky!! A nossa seita há-de governar o mundo lol Seita da ALEGRIA DISPARATADA SEM MOTIVO APARENTE!)

SOS fui raptada!

"Vou-te raptar". Posso dizer que não, visto que até reconheço a voz da raptora, que abdicou dum daqueles aparelhos modernos que distorcem a voz, e ela nem usa meia de vidro na cabeça, o que me permite ver perfeitamente a cara dela. Por motivos de segurança, permanecerá identificada apenas como "a raptora", não vá eu sofrer represálias depois de ter sido resgatada por ninguém, a não ser pela própria raptora que, como a minha mãe sentenciou há vários anos atrás: "eu não tenho medo que te raptem. Devolviam-te logo a seguir!".
Eu tenho aulas, mas o rapto é extremamente bem organizado, envolvendo um carro azul, matrícula portuguesa, e a Beyoncé aos berros no rádio. Como resistir a tamanha violência? Sou forçada a entrar no carro da raptora, que me "convida" ( com extrema violência, é claro) a partir com ela para sítio incerto (embora eu tenha ouvido a palavra "Cascais" por acaso).
Primeiro sou levada para aquilo a que as pessoas chamam de "café", uma cava escura e fria onde me forçam a beber água, embora o sabor não me engane: era um calmante, de certeza, para me forçar a ser mais obediente! Eu nem estou com medo, porque, lá está, conheço a raptora, mas estou desolada por faltar às aulas! Oh pai, estava mesmo triste, a sério, eu bem lutei contra ela, mas ela tinha mais força, e eu não quis ficar sem dentes!
Para minha surpresa, voltamos ao carro, onde está um pacote de Fritos que tenho de comer (talvez para ter algum ataque de excesso de sal no sangue e desmaiar), mas como quando era pequenina me auto-intitulava "A rainha dos fritos" (facto verídico, eu era a rainha dos fritos e do esparregado, e a minha irmã era a rainha da pizza e do chocolate, títulos oficiais reconhecidos pela união europeia!) fingi apenas um leve desmaio e tive oportunidade de ver a segunda raptora, cujo nome será igualmente protegido, e que será referida como "a segunda raptora".
Enquanto me babava para o banco, numa estratégia de simulação perfeita, as minhas raptoras revelaram o seu ponto fraco, ao delirarem com um certo carro com certas pessoas lá dentro, cujo sexo não irei revelar mas posso dizer que não era o nosso (sem revelar nada, claro!). Estava clara qual seria a minha oportunidade de fuga, mas elas tinham trancado as portas e eu estava "desmaiada" e portanto não pude fugir e apanhar o comboio para a faculdade (Bolas!!! Que azar dos diabos!!).
Chegamos a Cascais onde vamos ter com uma advogada (com certeza encarregue de as safar da prisão para onde iriam parar por me terem raptado!), e sou levada para um quiosque onde elas bebem café. É aí que aparece o seu comparsa, um homem só com um dente na boca, que obviamente tinha um affaire com ambas, mas eu fingi que não percebia e que acreditava na cara de nojo que elas fizeram.
Passei o dia em Cascais, forçada a tirar fotos e a fingir-me contente, sempre maldizendo a minha sorte porque tinha tanta vontade de ir às aulas!...
De repente, lembrei-me: e se usasse o meu grito aprendido no Discovery Channel, para comunicar com os animais tipo Tarzan, e pedir-lhes socorro? Aproveitei a distracção das minhas raptoras e comecei a grasnar insistentemente ("ai que tosse horrível ah ah ah") até que uma pequena gaivota (para elas uma gaivota, para mim uma companheira de armas!), começou a atacar as minhas raptoras, fazendo com que elas caissem no chão, ferindo, inclusivamente, um cotovelo que deitou para aí meia gota de sangue!
Ao fim da tarde libertaram-me, depois, claro, de me enfiarem Mac pela goela abaixo apesar dos meus pedidos desesperados: "ai nãããããoooo eu tenho peixinho cozido em casa, não me façam issooooo!".
A verdade, queridas raptoras, é que foi dos melhores raptos de sempre. Perdoo-vos a afasia, as figuras tristes, a violência que ainda hoje me assombra, durante a noite, em pesadelos a preto e branco. Adorei ser vossa refém! Adorei as "lontras", os "cre-pes", as luvas foleiras até aos cotovelos, as poses pirosas no "Paraíso", os fãs histéricos a pedir autógrafos na passadeira vermelha, a manifestação a que não fomos porque não podíamos aparecer na RTP porque senão acabava-se o rapto...
São raptos assim que nos fazem sorrir, rir às gargalhadas, mesmo amordaçadas!

PS - claro que não ir à faculdade me traumatizou e fiquei muito triste!!! (caso estejas a ler, pai!)

Wednesday, October 10, 2007

O vento do Norte

Estranhei a indiferença com que o mundo acordou. Como se já não houvesse luas para onde olhar, nem estrelas para desejar, nem horizontes a alcançar.
Olhei para os lados, e procurei o norte com a ponta do dedo. É lá que o vento é mais frio, porque no Pólo Norte vive o pai Natal, numa fábrica de brinquedos coberta de neve. E se seguisse em frente, para lá onde o vento é frio, sem nunca parar? E se arriscasse, nem curvas nem nada, sempre em frente, atravessar estradas, mares, campos, florestas, icebergues, montanhas imensas? E as solas já gastas, os pés a doer, e o vento do norte a chamar: por aqui.
Deixa-te de sonhos e levanta-te, é dia! Pega no casaco e enfrenta as coisas de cimento e alcatrão, e não percas tempo a olhar para os lados.
O vento do Norte... tens cada coisa!

ResponIACKA!

Responsabilidade.
Só a palavra arrepia-me. É uma palavra feia, a língua bate na parte de trás dos dentes e depois estica-se cá para fora, toda enrolada "RES-PON-SA-BI-LI-DA-DE".
Gostava de encontrar os senhores inventores da língua portuguesa e dar-lhes dois calduços para ver se se deixavam de ideias destas.
"Procura-se pessoa RESPONSÁVEL", dizem todos os anúncios de emprego. Se eu fosse honesta, ficava desempregada para o resto da vida e sobrevivia como assaltante de bancos. Mas é preciso ganhar a vida, e, envergonhando-me da minha desonestidade, lá vou fazendo um esforcinho no sentido de me tornar uma adulta responsável, consciente das suas obrigações, plena de sentido de dever.
Tenho amigos responsáveis que entraram no responsável mundo do trabalho fazendo estágios responsáveis. Eu fiquei na faculdade. Mais umas especializações, que é para ver se me valorizo enquanto profissional. Ou, por outras palavras, POR FAVOR NÃO ME PONHAM JÁ NUM LUGAR RESPONSÁVEL!
Um dia, quando for velhinha, vou ser responsável. Vou tomar sempre os comprimidos a horas, e lembrar-me do sítio onde moro. Vou usar xailes no inverno para não me constipar e vou ter atenção para não dar detergente da roupa aos passarinhos.
Mas por agora, enquanto o mundo é tão grande e eu ainda sou pequena, enquanto as pernas têm formigueiro e me querem levar a todo o lado, deixem-me ser assim, plena de rebeldia e com os olhos abertos e espantados para o mundo, com a cabeça nas nuvens e os pés em algum lado que não vejo. Deixem-me beber a água da chuva e chapinhar os vossos sapatos profissionais com as minhas galochas amarelas.
Sim, em breve tem de ser. Em breve vou ter de deixar a menina e abraçar a senhora. Vou ter de sorrir sem mostrar muito os dentes que fica mal, e usar tons pastéis que são delicados.
Mas prometo a mim mesma que até lá vou fazer tremer o mundo debaixo dos meus pés!!

Saturday, October 06, 2007

E esta, hein?



Façam a vossa experiência de reconhecimento facial e vejam com que celebridades de assemelham... eu nunca tinha dado por ela. E continuo algo confusa..
Mas que tem piada, tem! Quem diria que sou parecida com a Woranuch Wongsawan?? :P

http://www.myheritage.com/

Thursday, October 04, 2007

SINAIS DE MUDANÇA ou O TEXTO SOBRE O CUSPE/CUSPO/SALIVA/... E PODIA FICAR AQUI ATÉ AMANHÃ MAS NÃO SÃO HORAS DE TAL COISA

Uma das minhas grandes metas, depois de ver o Titanic, era aprender a cuspir a sério. À homem mesmo, com barulho e tudo, para bem longe, sem pingar o queixo de baba e parecer uma velhinha inválida incapaz de comer a sopa.
Agora que penso bem nisso, aquela cena tinha muito de simbolismo e muito pouco mesmo de romantismo. Era a libertação da Rose do seu mundo da etiqueta e dos protocolos: "Jack, ensinas-me a mandar uma escarreta?", pergunta com os seus olhos brilhantes, repletos de uma esperança inocente e bela. Para mim, aquele pedaço de cuspe lançado para longe significaria a possibilidade de encontrar um Jack. Hoje percebo que se tivesse andado por aí a cuspir provavelmente nem Jack nem Jaquim. Não sei, é um feeling que tenho...
Não aprendi a cuspir. Durante uns tempos, oh vergonha, quando cuspiam para o chão mesmo à minha frente e eu não era capaz de retribuir o cumprimento na mesma moeda. Passavam os velhos, mandavam a escarra, e eu ali, uma menina da cidade que nem sequer sabia mandar uma cuspidela valente!
Não aprendi a cuspir mas aprendi a evitar as cuspidelas no chão que também é coisa que dá trabalho. Mas a verdade é que, cada vez menos, se vê (e ouve! que aquilo se ouve bem!) gente a cuspir para o chão. Chamem-lhe boa educação, civilização, o que quiserem, mas o Sô Tónio diria, com o seu ar pachorrento "bah! modernices!" seguido de uma bela cuspidela... no chão!
São pequenos sinais, evidentes porém, de que o mundo está mesmo a mudar. Nalguns aspectos para melhor, noutros para... um diferente não tão positivo. Como os miúdos de 6 anos na escola primária a gritarem asneiras que, no meu tempo, eu nem sabia que existiam! E o azeite e o vinagre em pacotinhos individuais (que, por acaso ainda só vi no MacDonald's... bom povo lusitano!). E as portas automáticas no metro que nos podem cortar em dois.
"Bah! Modernices! RRRRROOOOOOONC CUSP!"

Wednesday, October 03, 2007

Escrever a brincar

"Às vezes não compreendo nada do que escreves!"
Ele queria dizer "a maioria das vezes" mas controla-se. Não sabe se é ele que não entende ou se é ela que não escreve como deve ser. Ela tem a mania de escrever frases que violam a gramática, palavras que não existem fora da sua cabeça, ideias que são impossíveis no mundo dos homens.
"Eu escrevo o que me apetece. Mesmo que não faça muito sentido", responde, encolhendo os ombros, num misto de tristeza por ser incompreendida e um sentimento de individualidade que a seduz como é normal nos jovens.
"Então nunca vais poder escrever a sério. Assim como os escritores, que escrevem para os outros". Ficou ferido de morte pela aparente indiferença que relevou face à sua incompreensão. Quer feri-la também.
"Então vou escrever a brincar."

Hi5 ou Época de Saldos (dá cá mais 5!)



Quando apareceu o Hi5, criei a minha conta. Uma página com fotos e umas quantas parvoíces acerca de mim: o meu perfil. Tem graça, como de repente nos resumimos a um grande catálogo de gente. Se quisermos conhecer alguém, vamos ao Hi5, procuramos por zona, por grupos de interesse, por idades, por aspecto físico. Enfim, tornámo-nos meros objectos de decoração, com umas quantas frases profundas que visam mostrar como somos pessoas sensíveis, inteligentes, espirituosas.


Uma coisa que nunca percebi, que continuo sem perceber, é a ideia de adicionarmos pessoas que nunca vimos na vida à nossa lista de amigos. Qual é o objectivo da coisa? Trocar e-mails e falar pelo msn? Ou é só para termos mais uma cara numa lista de 500 pessoas em que, como é óbvio, temos uma sorte do caraças se estiverem lá enfiados mais de dez amigos de verdade?


Não aceito "friend requests" de estranhos. Mas, mesmo assim, custa-me sempre carregar no botãozinho do "No Thanks". Fico a sentir-me presunçosa, "metida à besta" no topo dos meus saltos altos e do batôn vermelho (tudo coisas que não uso mas que enfim, nesta cena imaginada são indipensáveis) com um olharzinho de desprezo: não, obrigadinha, mas não estou interessada em ter-te como amigo.

Gosto de visitar as páginas dos meus AMIGOS, ver as fotos mais recentes, deixar uns comentários engraçados, cuscuvilhar um bocadinho sobre as relações que se vão trançando entre os perfis da maria e do manel... Coisas de gaja!

Mas existem muitos aspectos na instituição Hi5iana me fazem confusão. As fotos de meninas com mãos a tapar as maminhas "ui fui apanhada de surpresa.... mas vou pôr no hi5 na mesma, sem sequer me aperceber!", homens que insistem em mostrar músculos quase sem respirar, roxos do esforço, "oh sim vê como são definidos os meus bíceps e tríceps... e o cérebro também é músculo? ehpah, tenho já de ir tomar umas vitaminas para isso também!"...



Não entendo. Não entendo mesmo. Dizem que todos têm o seu preço, mas estas pessoas estão em saldos, dão-se de graça assim, a qualquer um que visite a sua página na internet. Donde vem esta vontade de se exibir? Se calhar, onde eu uso palavras eles usam imagens. No fim, expomo-nos relativamente da mesma forma. Será que isso me torna objecto de saldos também?Huuummm...

La vita è bella!

Acordei.
- Mãe, já está a ficar de noite? - pergunta-me uma filha que exige nestum de mel o mais depressa possível.
- Não, está mau tempo, só...
O humor começa assim, cinzento como o tempo. Os pés vão-se arrastando pelas divisões enquanto faço, mais uma vez, todas as operações mecânicas que cada manhã exige.
Dada minha cabeça, treinada no tempo em que Outono era Outono, Inverno era Inverno, e por aí em diante, sem mistos de 4 estações num dia só, pensei que o melhor seria mesmo levar as minhas botas de pêlo, também conhecidas como "Os Mamutes"...
Mas esqueci-me que a minha cabeça de 22 anos já está mais que ultrapassada, que o meu senso comum começa a passar do prazo, e que mais dia menos dia vou ser surpreendida pela palavra "cota" na boca de alguma amiguinha da minha piquena quando lhe perguntar pelo Noddy.
Chego à estação mesmo a tempo de ver partir o meu comboio. Que saía ás 13h08. Onde cheguei às 13h09. E o próximo comboio? Às 13h24. Quero atirar um caixote do lixo às malditas carruagens que se afastam mas o sr polícia está a olhar para mim com uma cara estranha e só depois percebo porquê. É que do escuro fez-se luz, do frio nasceu calor, e estou debaixo de um sol abrasador com botas de pêlo. E assim fico durante 16 minutos, sentada num banquinho, a amaldiçoar cada pêlo daquelas botas que decidi calçar e que agora queria atirar para a linha de comboio e vê-las serem esborrachadas pelo pouca-terra em fúria.
Finalmente, novo comboio, lugar sentado, está mais fresco lá dentro, tudo parece compôr-se. Levanto os olhos do livro que estou a ler, pronta a olhar o céu azul e sorrir-lhe em resposta, quando... sim, há um dilúvio.
Porque eu reclamei das botas. Porque não tenho guarda-chuva nem casaco nem porra nenhuma, mas tenho botas e por isso devia estar feliz porque calcei os meus mamutes portáteis e o sr lá das nuvens quis fazer-me sentir mais apropriada. Obrigadinha pah!
Tudo bem, enfio-me no metro a correr, estações que não acabam.
Lá está, "The postman always rings twice": sim, a Giovanna USA engravida e sim morre... num acidente de carro! E claro, os filmes eram baseados na mesma obra. Bem me pareciam coincidências a mais! Mas eu sou uma miúda que até acredita em coincidências..
Saio da faculdade e regresso ao metro onde começo a ser atacada ferozmente por uma velhinha. Mas eu quero dizer FEROZMENTE mesmo, com cotoveladas mesmo nas costelas, capazes de parar a respiração a um homem dos grandes. Sou atirada quase pelos ares para cima dum banco e olho para trás, onde a senhora de cabelos brancos me sorri "desculpe"... Eu rio-me, incrédula, mas passar-lhe ali uma rasteira não ficava bem e decido esperar até à próxima paragem. Mas antes que possa tomar qualquer medida surge a velhinha ninja número dois, desta vez empurrando-me para a saída, com as suas peles pendentes dos braços a girarem à minha volta como hélices devastadoras. Desisto. Elas são muitas.
Finalmente chego ao comboio. Depois de cargas de porrada, chuva intensa, calor abrasador, esperas intermináveis e mais uma hora de dramas a preto e branco, estou viva! Sim, estou viva!
Às vezes não são os dias melhores que nos deixam mais alegres. Às vezes são estes dias, em que tudo corre mal, em que tudo parece planeado ao milímetro para nos lixar a vida, que nos fazem sentir vivos, que nos dão vontade de atirar a cabeça para trás e rir às gargalhadas até nos doer a barriga e nos arderem os olhos das lágrimas do riso.
Nestes dias, em que o mundo me prega partidas e eu me molho com a chuva que cai dos telhados, em que os sapatos exigem ficar desapertados e o senhor das lotarias nacionais que não sei quando andam à roda tem vontade de nos gritar aos ouvidos, quero gritar-lhe de volta: LA VITA È BELLAAAAAAAAA!

Tuesday, October 02, 2007

Adeus Codex, Olá Lisey!

As almas mais atentas hão de reparar que eu vou actualizando, ali naquele quadradinho à esquerda, as minhas leituras. Ainda há dias lia o Codex, do meu Sr. Professor José Rodrigues dos Santos, mas devo confessar que o deixei a meio, desiludida com as últimas linhas lidas por mim.
Muito na linha do Código Da Vinci, temos um professor de história, perito em códigos e cifras, que tem como missão recuperar as pesquisas feitas por um colega, entretanto morto.
Até aqui tudo bem. Uns enrolanços com uma sueca, uns talvez demasiados pormenores dos sítios que vai visitando (nós acreditamos que ele tenha lá estado, não é preciso mencionar quantos passos vão da porta do museu não sei quantos ao restaurante não sei que mais...), um casamento em crise e algum suspense na resolução dos mistérios. Bem, na resolução do primeiro. Se começou bem, introduzindo a história da escrita egípcia que é mesmo um dos meus ponto sensíveis (mas vai daí, quantas pessoas para além de mim estarão realmente interessadas em aprender a escrever e ler hieroglifos?), para mim enterrou-se na parte em que uma charada BÁSICA leva quase 10 páginas a ser resolvida. Juntem a palavra ECO, FOUCAULT e PENDENTE. Hummmm familiar? Demasiado familiar? Talvez nem todos tenhamos ouvido falar nisso, mas estamos a falar de um Sr. Professor, com um nível de cultura que será, ou deveria ser, mais elevado que o comum. Serão aceitáveis 10 páginas para descobrir que a charada se referia ao livro do Eco?
Então fechei o outro livro, o do Professor real, e abri uma das minha últimas aquisições, a Históiria de Lisey, do Sr. Stephen King. E tenho devorado cada palavra com a fome que o outro livro, aquele do professor, me deixou.
Não sou nenhuma crítica e o livro não está nada mal escrito. A história, porém, carece de acção, morre um bocado nas descrições exageradas e nas centenas de documentos que acreditamos que sim, que o sr leu, mas que se tornam aborrecidos.
Quem sabe se um dia não volto ao codex, já em paz com o professor fictício que não sabia o que era o pendente do foucault, e me disponho a "papar" os 3000 documentos que estão para lá enfiados? Mas por agora, vou abrindo os olhos de espanto e deixando a minha imaginação flutuar nesse universo do incrível que é o da mente do Stephen King. ..
PS- já agora, também baseado numa obra do Stephen King, está no cinema o "1408". Recomendo MESMO, com o aviso de que vão saltar da cadeira algumas vezes! E não é isso mesmo que queremos?

Ossessione VS The postman always rings twice


A sala está escura. "Estão a ver um filme", diz-me alguém que vem atrás de mim e entra, sem hesitar, na sala sem luz. Eu vou, pé ante pé, enquanto ouço o Gino e a Giovanna aos berros "Maledeta! Mia lasagna!". Sim, é só um filme. A preto e branco. Italiano. Com uma história que, se tivesse visto desde início, ameaçaria cunhar de ridícula. Mas enfim, é a magia do cinema, há para todos os gostos, e quem gosta de cenas tão "naturais" como um casal a dormir que, de repente, "ah, sim, estávamos a ser perseguidos não era?" e se levanta a correr e aos tropeções pela praia... sim, tudo bem. Tenho cá para mim que a Giovanna, que morre esticadinha depois de um acidente de carro, nem sequer estava grávida. Chamem-lhe o que quiserem, desconfiança, cepticismo, falta de romantismo, sei lá, mas uma mulher que confessa estar grávida logo quando ia levar uma carga de porrada do suposto pai da criança... humm eu não sei, mas a mim cheira-me a esturro.

E, enquanto na tela se vai projectando o Gino a gritar NOOOOOOOOOOOOON eu estou com uma fome danada e lembro-me que tenho um pacote de bolachinhas deliciosas na mala. O que é que eu fui fazer?!

O pacote faz rás-trás-splás, com o plástico a contorcer-se nas minhas mãos. Há uma menina que faz um ar incomodado. Desculpa, só tenho bolachinhas para mim! Olha, olha...

A partir do momento em que há o FINE e tenho o estômago mais aconchegadinho, aí sim, estou pronta para ver o Gino e a Giovanna em versão USA, also black and white, com morte certa no final que só conhecerei hoje, pelas 14h. Será que a Giovanna americana também vai engravidar? E o Gino americano, homem de fato macaco, também vai acabar a gritar NOOOOOOOOO?
Tudo questões importantíssimas que estou ansiosa por ver resolvidas! Por isso não percam o próximo episódio, porque eu não posso mesmo perdê-lo...

Thursday, September 27, 2007

Esquecida de mim

Será que posso ser eu só amanhã, e por hoje esquecer quem sou? Posso lavar os olhos das imagens guardadas, livrar o peito das dores acumuladas, estender as mãos ao alto na poética ignorância do saber imposível?
Será que só por hoje, umas horas, me posso esquecer dos dias, das noites, dos regressos intermináveis do sol no rendilhado dos estores? Posso fingir que não sei nada, nunca soube, que fui sempre uma folha de papel branca, uma tábua rasa, pronta a ser inscrita pela ponta dura da pedra da experiência?
Quem me dera nascer de novo, sentir-me inundada pela novidade das coisas mais simples, descobrir porque é que chove, porque é que o sol brilha, que o relâmpago e o trovão são simultâneos..
Será que, só por hoje, me posso fechar na concha mágica e perfeita da ingenuidade e dormir assim, esquecida de mim?

Sunday, September 23, 2007

É mentira.

A mentira tem perna curta. Curtinha, anda coxa, vai-se arrastando por aí. É por isso que, quando cai, cai com estrondo, não se levanta, fica suja da lama na estrada e é pisada por aqueles que passam.
Podes até fingir que não reparas, é de mau gosto ficar olhar assim, para quem passa, mas tu sabes. Reconhece-la pela hesitação com que se move, pelo engasgar dos seus passos, pela forma como tenta passar despercebida entre a multidão ruidosa.
Pelo seu jeito único de ferir os ouvidos quando ri, pelo seu gesto habitual de tentar desaparecer depressa depois de falar contigo...
Só porque não te chamo pelo nome, não quer dizer que não te conheça.

Friday, September 21, 2007

Que estranha forma de vida!

Eu existo da minha maneira estranha. Existo com o mau humor de manhã, com a pasta dos dentes que me enche a boca, com os ganchos que insistem em sair do lugar.
Existo no carro, na estrada fria, no fumo inquieto de motores em fúria. Existo com a mala ao lado, meia cheia, o optimismo congelado para usar na altura certa.
Existo na sala, calada e dormente, o espírito perdido em montanhas distantes, a mão que vagueia em apontamentos ouvidos mas não apreendidos.
Existo no regresso, doce regresso, na casa que me espera, familiar e minha, as minhas coisas nos cantos que conheço de cor, as pantufas à porta para me receber.
Existo na noite, na minha almofada, na forma na cama que tem o meu ser, no lençol de algodão dobrado à pressa, no cheiro do champô que passeia por ali.
E fora daqui, o que é feito de mim?

Vida num acto

Tornei-me mais alta. Construí pontes a partir da matéria dos meus obstáculos. Uni mundos sem pensar nas diferenças que os poderiam arrasar. Arrisquei. Levei a melhor, às vezes perdi. Outras vezes encontrei-me, sozinha, encontrando-me. Fiz a reunião do corpo e da alma e brilhei, permanente combustão estrelar que acaba numa explosão. Os meus destroços, viajando numa atomosfera sem pressão. A fita-cola à mão de uma mão amiga que me cola a mão de volta no lugar. Única união. Resplandecente conclusão. Um fim feito de pontos de interrogação. Não é término, é interrupção. São três pontos de exclamação sem necessidade, só pelo gosto. A necessidade de gostar, do prazer. Uma necessidade desnecessária que me faz viver. Um olho aberto, outro fechado. Viro a cara sem olhar para o lado. Frente, trás, diagonais transparentes. O meu corpo, feito de linhas, novelos de cores diferentes. Nós, laços, traços, abraços. Nós, miscelância de ritmos e de compassos, numa melodia perfeita, polifonia polivalente. Em frente, em frente... Um atraso de ponteiros que nos acalma a alma, a palma da mão virada para sul, pano de tule que cobre o tempo, frágil teia de aranha por cima do vento, rasga-se a norma, rasga-se o trato, é tudo espontâneo, vida num acto, baixa-se o pano, agradece o actor. O tic-tac que pára, só sobrevive o amor.

Thursday, September 20, 2007

O meu polinho

Quando fiz os meus 17 anos e meio (e há quanto tempo foi isso?!), pedi ao meu pai a carta de condução. Era fundamental, essencial, indispensável para a minha vida! Era o meu bilhete para o comboio da independência, para o mundo das meninas crescidas que pintam os lábios paradas no trânsito (apesar de nem sequer usar batôn), para os pés descalços fora do vidro (impossível quando se vai a conduzir), para a música aos berros e cantorias assustadoras ao volante (revelou-se, de facto, a essência da condução).
Tirei a carta, com a garantia de que o pai não me ofereceria o carro. Um dia, teria um carro. Um dia, tal como ele, acabaria a minha licenciatura e compraria o meu calhambeque (bip bip, quero buzinar meu calhambeque!). "Tudo bem, para que é que eu quero um carro?", dizia eu, imaginando-me por aí, no carro do papá, cheio de amigas em pleno estado de êxtase, atravessando as estradas de alcatrão fumegante de todo o país (filmes americanos a mais... eu sei!).
Acabei a carta em Abril. Em Junho tinha um carro na garagem. Ele não era novo, não era brilhante nem tinha o cheiro a pele que sai dos bancos quando nos sentamos num carro pela primeira vez. Mas era meu, só meu, e de mais ninguém. Estado de graça que durou até a minha irmã, um ano depois, tirar a sua carta de condução de veículos ligeiros e passar a dizer que era "nosso". Sacrifícios que se fazem, pelo menos tinha meio carro que era melhor que um banco inteiro no autocarro!
Eu e o meu (meio) Polo! O meu (meio) Polo e eu! Tem cicatrizes de guerra, mas não as temos todos? O volante está gasto, o tablier meio rachado, o porta-bagagens cheio de todas as tralhas possíveis, o cachecol do SCP sempre a postos, no banco de trás.
A verdade é que o meu Polo não me levou a lugares distantes e improváveis. Não, eu e o meu (meio) Polo não levantámos poeira em estradas de terra batida, percorrendo o mundo sem saber onde parar.
Tinha um sonho modesto. Queria encher o depósito e partir sem rumo, escolher ao acaso uma paragem no mapa, ou pura e simplesmente fazer pim-pam-pum nos cruzamentos e deixar-me levar. Mas ainda temos tempo Polinho...
E quando me perguntam pelo carro dos meus sonhos, falando de marcas de luxo, eu encolho os ombros. Não me preocupo muito com isso. O Polinho tem 4 rodas e leva-me a todo o lado. O Polinho não se queixa dos riscos nas portas, na traseira e na frente: de facto, ele está um bocado riscado, mas são como as rugas, sinais de experiência e vivência intensa. Mesmo quando, na auto-estrada, ele mostra o motor cansado e se arrasta nas subidas (em Monsanto subimos a 40 km/h), eu rio-me, na faixa da direita, com os velhinhos à minha frente a uns estonteantes 50km/h, até que consigamos atingir uma velocidade razoável (não há nada como uma bela descida).
Não me perguntem qual a marca do carro dos meus sonhos. Ou de que cor, a cilindrada, as polegadas das jantes. Olhem para o meu Polinho e lá está a resposta. :D

Wednesday, September 19, 2007

Matéria de sonho

Julgo que foi Shakespeare quem afirmou, um dia, que "o homem é feito da mesma matéria com que se entrelaçam os sonhos".
Ignorar, assim, tão ferozmente, a ciência da carne e dos ossos, do sangue e da pele, e fazer do Homem um ser tão alto quanto a sua imaginação é tornar-se, tão simplesmente, matéria de sonho. Porque, até certo ponto, ou talvez a partir dele, nós somos aquilo que julgamos ser, aquilo em que acreditamos acima de tudo, mesmo as nossas dúvidas.
Somos, tão claramente, a matéria dos nossos sonhos! E aquele que sonhar mais, tornar-se-á mais alto, mais forte, mais capaz.
Com o "Big Fish", de Tim Burton, aprendi uma daquelas lições que sabemos que nunca esqueceremos, ao contrário das datas e dos nomes empilhados em alguma aula de história. Aprendi que um peixinho dourado pode ultrapassar até 4 vezes o seu tamanho normal se não estiver num daqueles aquários pequeninos em que gostamos de os enfiar.
O significado era claro: aquele que sonhar mais alto, aquele que se permitir ir mais longe, crescerá. Os outros, estarão condenados ao seu tamanho vulgar de homens, com a certeza de que a comida chegará, por fim, e a água será mudada, os limos retirados, o oxigénio renovado.
Os filmes do Tim Burton são, quase sempre, sobre a diferença e sobre a magia. Não a magia das bruxas ou dos deuses, se bem que estejam repletos de personagens fantásticas, mas sobre a magia de acreditar, que se reflecte precisamente nessas personagens. Até que ponto és capaz de acreditar? Até que ponto és capaz de deixar que este filme, tão surreal, se embranhe nos teus laços de realidade e se torne tão táctil como a tua própria pele?
Ousar acreditar, permitir-se acreditar. Acreditar é arriscar, e uma das perguntas mais pessoais que se podem fazer a alguém é precisamente: acreditas? Haverá algo mais forte, mais poderoso que as nossas crenças?
A história é feita de guerras travadas em nome de crenças. E a história da nossa vida, acredito, é feita, não daquilo em que acreditamos, mas da nossa capacidade de acreditar, da própria essência da crença e, claro, do sonho.

Sunday, September 09, 2007

A estação parva

Está acabado. Já nem se digna a brilhar de forma igual, o sol. Sabe que está quase, quase no fim, e vai se deixando dormir, enquanto nós, quase a iniciar mais um ano lectivo, suplicamos por uns últimos dias de calor tórrido e banhos de mar.
E chega o Outono. O Outono é aquela estação que considero a mais parva de todas. Sim, é uma estação parva, em que não acontece nada de especial para além de cairem folhas das árvores. No Inverno sempre há chuva torrencial e ventos arrasadores, e na Primavera nascem os bichinhos e as flores... mas e no Outono? O Outono é melancolia e saudade, com os últimos vestígios do Verão que passou e os primeiros sinais do Inverno que aí vem. No Outono não há celebrações engraçadas, tirando o S. Martinho que já quase ninguém celebra. Não há roupa de Outono. Não há emoção no Outono. Não há gritos no Outono (tirando os dos vizinhos do outro lado da rua que se ouvem todo o ano).
Está bem, é sempre engraçado pisar as folhas secas nas ruas, a estalarem debaixo dos pés. E é verdade que o Outono tem cores bonitas, douradas e sagradas. E tem o cheirinho das castanhas assadas à entrada da estação de comboios, cada ano mais inflaccionadas e por isso cada vez menos procuradas.
Alguém diz que a sua estação preferida é o Outono? O Outono, tão impávido e sereno, tão quieto e calado, tão triste a lembrar-nos o fim de tudo com as árvores carecas que nos sussuram: "um dia vais ser tuuuuuuu!"
Talvez um dia encontre um estado de alma tão harmonioso que o Outono se tornará uma estação como a outras. Talvez este ano me surpreenda a admirar a quietude dos dias castanhos e me alegre pela calma à minha volta. Talvez este ano o Outono me deslumbre, com ventos mansos e chuvas miúdas. Talvez um dia se descubra que a Terra é mesmo plana. Talvez. Quem sabe?
Talvez esteja apenas desiludida com o fim do Verão e a despejar toda a minha revolta e tristeza contra o pobre Outono que não tem culpa de nada...

Friday, September 07, 2007

Ad.... ainda não te vou dizer Ad...Verão!

Estou a escrever a partir de um portátil que não é meu, usando uma rede sem fios que não é minha. Maravilha dos tempos modernos, a internet é a forma mais fácil de pedir emprestadado. Dezenas de redes desprotegidas convidam-me a ligar-me à internet a partir delas. Ora e como quem é bem educado não recusa assim convites, cá estou eu, graças a um vizinho qualquer, a escrever do meu quartinho para o mundo.
Tinha saudades de um portátil. O meu andava revoltado, cuspiu duas teclas, foi para a marca para aprender a ser mais subserviente. Mas, confesso, a sua atitude de menino rebelde conquistou-me. Olhei-o com severidade, arqueei a sobrancelha com ar zangado, mas por dentro alegrava-me saber que o meu portátil tem personalidade. Levava porrada nas teclas todos os dias, até que chegou a hora que se cansou, e, sem ai nem ui, cuspiu-me duas teclas para eu aprender.
E o que me traz aqui para escrever hoje senão o prazer de usufruir da net do vizinho? Pouco. Ando melancólica com o fim do Verão, sempre que começo a escrever sinto um apertozinho no coração, porque sei que está perto, tão perto, a hora de dizer adeus à minha estação mágica. Valeu por todos os momentos, pelo sol na barriga, pelos vidros abertos e o cabelo esvoaçante, pelo sabor a sal no regresso a casa, pelos chinelos à noite, pelo tereré feito num impulso nuns hippies demasiado novos para o poderem ser de facto, pelas noites em alerta à espera de estrelas, cometas e Marte, pela "Sangria da Alegria" que teve até direito a hino, pelos pés do lado de fora do carro, pelas canções que se tornaram promessas inocentes ("Jura que não vais ter uma...." :P), por todos os sítios e acima de tudo por todas as PESSOAS que tornaram este Verão um hino à vida, à alegria e à amizade.

Saturday, August 25, 2007

Catarse

A minha purificação. Caminhos tortuosos. Essências banhadas de experiências. Inscrevem-se nomes, datas, locais. Há marcas de dias tempestuosos, de vontades vergadas pela força do vento, de arranhões nas verdades inabaláveis.
Lavam-se as certezas adquiridas, e a sua cor tinge as pedras calcadas, como um tecido de má qualidade com que as certezas absolutas se cobrem sempre. Despertam vozes na cidade, gritos de incerto desespero com que assistem àquele que pode ser o seu último pôr-do-sol. Nada é certo, tudo é vago. Nada tenho, quem sou?
Percorrem-se estradas infinitas, poeira que se levanta, incansável, e tolda a vista.
"Tu és só o reflexo de uma miragem alucinada", diz um velho com corpo de árvore, cujas barbas chegam ao solo. "Tu vagueias, nunca chegas. Tu procuras, nunca encontras. Tu desejas, nunca possuis. Tu existes e por isso estás condenada à tua existência disforme, adornada de belas palavras e cores brilhantes, que nunca poderás compreender."

Friday, August 24, 2007

2 em 1!!

Tenho duas mãos. Dois pés. Dois olhos. Duas orelhas. Dois pulmões. Dois rins.
Sou um 2 em 1 melhor que o da Garnier!!!
Ah, e tenho uma boca que fala por duas.

Thursday, August 23, 2007

Vamos fazer a dança do sol?


Houve uma altura, depois de ter lido um livrinho qualquer do Tio Patinhas, em que os sobrinhos dos bonézinhos coloridos faziam a dança da chuva com imenso sucesso, em que acreditei piamente na possibilidade de fazer chover graças aos meus passos.

Na infância, é fácil acreditar. Dançávamos em roda, mãos a bater na boca como víamos os índios fazer, gritávamos um AIUAIE e umas quantas palavrinhas e lá ficávamos, crentes e inocentes, à espera das primeiras gotinhas de chuva.

Se alguma vez choveu, não me lembro. Se alguma gota caiu, miraculosamente, nas nossas cabecinhas, enquanto dançávamos, feitas malucas, já foi, imperdoavelmente, esquecida.

Mas neste Agosto triste, em que tão depressa faz sol como vem um vento demoníaco, lembrei-me dessas danças ingénuas em torno de fogueiras inexistentes. E pensei como era bom fazer a dança do sol. Não só do sol, mas do calor, do puro Verão, estação mágica e prometida o ano inteiro! Tudo o que precisava era de gente crente, gente com fé, com aquela fé inocente neles mesmos, que acreditam que podem mudar o mundo. Gente que não se importa de levantar a machadinha e bater na boca, soltar uns UHUHs e voltar uns aninhos atrás, em nome da magia. E acredito que, mesmo que não viesse o calor, o sol, mesmo que nada mudasse à nossa volta, mudávamos nós, e o Verão era outra vez a estação prometida ;)

Monday, August 20, 2007

Adoravel, vertiginosa e encantadoramente dolorosos saltos altos

Saltos altos. Todas as mulheres têm de ter pelo menos um par de saltos. Sejam elas altas ou baixas, os saltos altos marcam a diferença não só pelos centímetros a mais mas também pela forma como embelezam os nossos pés e pernas.
Os saltos são, por excelência, o expoente máximo do feminino. Na vida real e na arte, lá estão eles, numa montra, a piscar-nos o olho, sedutores e vertiginosamente altos. Agulhas, plataformas, cunhas... é salto e é bom.
Lembram-se de como as protagonistas de "Sexo e a Cidade" suspiravam pelos seus JimmyChoos? Sapatos, altos, altíssimos de preferência, faziam as delícias das amigas de Nova Iorque e espicaçavam-nos a vontade de comprar uns.
Muitas mulheres têm, como eu, uma relação de amor-ódio com os saltos. Adoro vê-los nos pés, mas detesto usá-los e suspiro de alívio de cada vez que os descalço.
No Inverno, os saltos são palavra estranha para mim. São as poças de água, a lama, o corre-corre para evitar uma chuvada. Saltos, no Inverno, só mesmo plataformas, confortáveis e invisíveis debaixo das calças compridas.
Mas no Verão, lá estão, os meus saltos, lindos e polidos, a fazer sobressair o pé castanhinho do sol. E aí, é difícil resistir. Eles num canto, as havaianas no outro, travam combates sangrentos pela minha atenção. Geralmente, ganham as havaianas (suponho que os saltos se desequilibrem mais facilmente) mas, principalmente à noite, os saltos dão um ar de sua graça e saltam-me para os pés, ficando eu embevecida, a olhar para os saltinhos de senhorinha nos meus pés de miúda (35/36...).
Resumindo, os saltos não são sapatos. São muito mais que isso. Como dizia a Helen Hunt em "Bobby", depois de comprar uns sapatos de salto alto pretos "It's not about how they feel, but how they look" e eles pareciam, de facto, fantásticos. Saltos são tortura até ao momento em que se cria calo. Felizmente, como não os uso muito, continuam a ser uma tortura para mim. Antes uma noite de sofrimento que uns calos nos pés. É que os calos são só um dos problemas dos fantásticos saltos: dores na coluna, problemas de coluna quando formos mais velhas, calos, joanetes e sei lá mais o quê. Argumentos fracos hoje em dia, em que as pessoas pagam para ser retalhadas em nome da beleza. O Dr House, num espisódio, recusou uma assistente por ela usar saltos altos "Uma mulher que prefere trabalhar de saltos a andar confortável é uma mulher insegura"(algo assim). Fiquei tão orgulhosa por nunca levar saltos para a faculdade!
Sou só uma mulher segura que, de vez em quando, gosta de ver o mundo do topo dos seus saltos altos.

Sunday, August 19, 2007

Oh ser ou não ser, eis a questão!

Tem piada, mas passadas umas horas já não me lembro da maioria das caras daqueles que estiveram sentados ao meu lado. Podia ser algum sintoma de problema grave, mas chama-se só falta de atenção. Se há pessoas que se me gravam na memória outras, enfim, lá vão, tão efémeras na minha vida como o almoço de ontem, com a diferença que não me adicionam calorias (e ainda bem!).
O que torna, então, algumas pessoas permanentes e outras, pura e simplesmente, descartáveis, na minha memória? Apresentem-se dois sujeitos, A e B, durante os mesmos 5 minutos, numa mesma situação. O que tornará A mais ou menos recordável que B?
1. O aspecto físico. Eu sou adepta ferrenha da beleza interior, mas os olhos também vêem. E neste ponto, conta não só a beleza mas também a originalidade. Meninas com franjinhas à moda, óculos à moda, brincos à moda e colares à moda parecem todas mascaradas de igual e torna-se quase impossível decorar as caras delas. Por outro lado, um maluquinho com aspecto de Einstein não me passará despercebido!
2. De A a Z. Alguém que fale será, é natural, mais facilmente reconhecível que alguém que se limite a dizer "passas-me o cinzeiro?". Se bem que algumas pessoas sabem criar uma aura misteriosa à volta delas, com o seu silêncio e olhar inquieto, que nos faz decorar a cara delas para a descrevermos à polícia caso rebente alguma bomba perto.

A verdade é que ter uma memória selectiva, como todos temos, pode ditar situações que preferíamos evitar. Como quando conversamos durante meia hora com alguém a quem só podemos tratar por "tu", "miúda/miúdo" e outros nomes estrategicamente usados nestas situações em que o nosso interlocutor desapareceu da nossa memória.
Um plano bom mesmo, mas mesmo, era tirar fotografias com o telemóvel (bem discreto) às pessoas que se vão sentando na minha mesa, e rotulá-las com o nome e árvore amizadeológica (uma árvore que estabelecia os nossos laços, através das pessoas que conhecíamos, para termos sempre um tema de conversa que seria, claro está, o amigo em comum).
É chato não saber o nome das pessoas. É pior ainda não lhes reconhecer a cara. Mas mau mau é não saberes se alguém te conhece mesmo ou se não passa de um psicopata e ficares ali a sorrir, com cara de parva, enquanto lhe chamas "tu".
Por isso, se me virem estranhamente inclinada na vossa direcção, com o telemóvel na mão, sorriam :)

Friday, August 10, 2007

Isn't that ironic sir?

Dormi. Às 5h da manhã, finalmente, o reino dos sonhos era meu. Depois de me virar na cama, pernas para o ar, barriga para baixo, cara esborrachada na almofada, estava, finalmente, a dormir.
Acordo com o telemóvel a tocar ainda não são 10 horas. Sabem como é quando o telemóvel toca de manhã? O toque é sempre mais irritante, mais estrindente, parece feito de propósito para nos garantir que o dia não vai correr bem.
Feitas as contas, não prevejo insónias para hoje. Até porque estarei no meu cantinho sagrado, no meio do silêncio e do escuro que ninguém pode perturbar. As malas ainda não estão feitas e ouço reclamações no andar de baixo.
Deus, o destino, o acaso, sei lá, deve ser comediante. Deve ser um gajo com aquele humor muito british, carregado de ironias. Porque quando decides deitar fora o teu "kispo", ele decide fazer chover... (e aqui fica uma bela metáfora para quem a perceber).

Ironic (Alanis Morissette)
"An old man turned ninety-eight
He won the lottery and died the next day
It's a black fly in your Chardonnay
It's a death row pardon two minutes too late
Isn't it ironic ... don't you think
Chorus

It's like rain on your wedding day
It's a free ride when you've already paid
It's the good advice that you just didn't take
Who would've thought ... it figures

Mr. Play It Safe was afraid to fly
He packed his suitcase and kissed his kids good-bye
He waited his whole damn life to take that flight
And as the plane crashed down he thought
'Well isn't this nice...'
And isn't it ironic ... don't you think
Repeat Chorus


Well life has a funny way of sneaking up on you
When you think everything's okay and everything's going right
And life has a funny way of helping you out when
You think everything's gone wrong and everything blows up
In your face

It's a traffic jam when you're already late
It's a no-smoking sign on your cigarette break
It's like ten thousand spoons when all you need is a knife
It's meeting the man of my dreams
And then meeting his beautiful wife
And isn't it ironic... don't you think
A little too ironic... and yeah I really do think...
Repeat Chorus


Life has a funny way of sneaking up on you
Life has a funny, funny way of helping you out
Helping you out "

"A vida tem uma forma estranha de te ajudar"... Eu acredito que sim ;)

PS- Já toda a gente sabe que eu gosto mesmo de me molhar na chuva.

Insónia

Há noites assim. Em que o cérebro se recusa a abrandar e o corpo não quer paz. Noites em que temos de pensar. Em que se não ficarmos acordados nada vai ficar bem. Temos que solucionar o problema da probreza no mundo, temos que saber as fórmulas da relação perfeita, temos que nos lembrar do que dissemos num dia qualquer, há anos atrás.
Há as noites em que o passado bate à porta e se demora por aí. Hesitamos mas não dormimos. Formigueiro nos neurónios, uma comichão na alma. O futuro balança no topo de uma corda como uma artista de circo que se tenta equilibrar (e "ai se ele cai... vai-se partir" :P o sono não vem mas a noite vai longa e o cérebro vai acumulando funções que o tornam menos coerente).
Se escrever coisas sem nexo, o mundo perdoa-me. Sou só uma miúda com insónias. As pessoas com insónias não têm nexo. As pessoas sem nexo com insónias são disléxicas (hummmmmm....).
E esta miúda com insónias quer comprar um barco. Decidi este Verão que quero um barco. Não quero um iate nem nada disso. Quero só um barquinho com motor para poder perder-me por aí. Na verdade, o que eu quero mesmo é chegar às praias desertas. Pronto, confessei. E depois monto uma cabana deserta numa praia deserta e levo para lá uns desertores de vez em quando, daqueles que gostam mesmo de desertar e de estar em sítios desertos. Viajamos no meu barco mais repleto e não tão deserto porque com as minhas economias não haverá muito espaço para passageiros. Dois, no máximo três, segundo as minhas contas, serão uma multidão. Mas somos desertores e por isso tudo bem. Só queremos um espaço deserto nem que para isso tenhamos de ir amontoados.
A minha vida na praia deserta seria feita à base de estórias à volta da fogueira. O que é complicado quando nunca se acendeu uma fogueira (pelo menos, não uma a sério, daquelas que os "escutas" fazem, todas giras. Será que eles as conseguem acender com duas pedras? Nota: conhecer algum escuteiro/escuteira e perguntar-lhe como é que se faz o truque.)
Depois das estórias íamos assar o peixe. O que também pode revelar-se um problema quando não se é propriamente um ser paciente, sendo que a pesca requer, acreditem que eu sei, MUITA paciência. E é preciso alguém arrancar as tripas do peixe, a não ser que um dos desertores tenha experiência no ramo da peixaria o que me facilitaria imenso a coisa. (nota 2: convencer um potencial desertor a passar uns tempos numa peixaria).
O melhor da coisa é que comíamos em folhas, que serviam de pratos, e assim nunca havia louça para lavar!
Bem, apresentando o pacote de férias, aceitam-se inscrições para desertores. Enviem o vosso C.V. completo, tendo em conta que se valoriza experiência na área da pirotecnia e o do peixe.

PS - acabo de me lembrar que este ano os escuteiros foram proibidos de acender fogueiras. O que é um acampamento sem fogueira pahhh? Agora a malta vai acampar e leva a lamparina de óleo? É uma vergonha, eu tou com os escutas.
PPS - compreendo que isso das fogueiras seja uma medida aparentemente boa para combater os fogos florestais. Mas os escuteiros são daqueles que até saltam em cima das brasas descalços, se for preciso, para garantir que não vai arder nada.
PPPS- dito isto, quero que saibam que nunca vi nenhum escuteiro saltar em cima de brasas e portanto não tentem fazer isso em casa. Deve ser preciso muito calo e toda a gente sabe que isso tá fora de moda. É isso e joanetes.
PPPPS - joanetes. Que horror de nome. Até parece que têm alguma coisa a ver com as "joanas". Eu conheço uma Joana. Mora cá em casa. No quarto ao lado do meu. É uma fixe e, garanto, não tem joanetes.
PPPPPS- e a Joana nem tem joaninhas. Eu se me chamasse Joana tinha uma colónia de joaninhas em casa. Chamando-me Laura vou-me dedicar ao cultivo de loureiros. Ou talvez não.
PPPPPPS- é incrível mas ainda não tenho sono. Os loureiros são óptimos para a comida mas ATENÇÃO: pelo que me chegou aos ouvidos o seu caule é cancerígeno e por isso não se pode abusar. Pelo sim, pelo não, e porque não gosto de mentir, vou confirmar no Google.
PPPPPPPS- não encontrei qualquer referência ao loureiro como sendo cancerígeno. Ou é falso ou o Google patrocina alguma marca de loureiros... No entanto encontrei muito boa gente com o apelido "Loureiro". Não conheço nenhum(a) Loureiro. Chato. Quem me passou a informação sobre o loureiro foi uma boa amiga, cujo segredo recebeu da mãe que provavelmente o terá aprendido com a avó. Se calhar é uma coisa "underground". Caso se venha a confirmar, depois não se esqueçam de me remeter as vossas contribuições. Afinal, quem avisa meu amigo é. Ou teu amigo é? É amigo do mundo e pronto!
PPPPPPPPS- bolas já levo 8 Ps. Já chega. A estas horas quem tiver chegado até aqui já conhece o segredo do loureiro e viu o seu esforço recompensado. Qualquer erro ou dificuldade de expressão deverá ser perdoada pelos olhos que se entortam perante o ecrã e as mãos mais hesitantes. E já não tenho unhas grandes. É diferente teclar assim. Parti 3 a jogar volei, e mandei as outras à vida. Uma pessoa não pode deixar de viver a vida por causa de umas unhas não acham? Assim, as minhas mãos ainda parecem mais pequenas. Mas MESMO pequenas. Tipo, mãos de anão da Branca de Neve. Ai, eu sou o Feliz. Ou Contente. Sou aquele que se ri de tudo.



Aposto que pensavam que vinha aí outro PS. AAHAHAH. Não: sou só eu. Porque o PS não sou eu... Eu nem sou dada a política.
E neste momento perguntam-se as únicas duas pessoas que chegaram a este ponto: "mas a miúda engoliu pilhas duracel?" e eu fico com um ar suspeito tipo: mas vocês andam a fazer algum tipo de publicidade à duracel? Eu só compro pilhas no chinês. Ou no senhor asiático. Porque aprendi hoje no cinema, num anúncio que passa antes do filme, que não se pode dizer "chinoca" nem "preto" nem "branco" nem "monhé" nem "brasuca" nem "de leste"................. Como se o racismo fosse isso.... Olhem, eu sou um bocadinho para a cor do leite com café, por causa do bronze. Sou B..PIIIIIIII (palavra proibida) mas não posso dizer porque senão sou racista. E tenho amigos mais coloridos e escurinhos, eles são P...PIIIIIIIII (palavra proibida), quer dizer são "de cor" porque mais ninguém tem cor, o resto é tudo gente transparente.... E quando eu for jantar ao restaurante da senhora asiática se estiver lá algum senhor daqueles países que se juntaram à União Europeia mais tarde tenho de lhe perguntar donde é que ele veio porque aparentemente eles não são "De L....PIIIIIII" (palavra proibida), isso é só para nos confundir as direcções.
Ah e o senhor que nos vendeu as flores no jantar de terça feira era indiano. Essa foi fácil.

Em vez de se preocuparem com as palavras preocupem-se mais com as condições de vida e com a integração das pessoas. Promovam uma maior circulação de informação sobre as diferentes culturas para que todos percebam que as diferenças não são assim tão grandes. Legalizem os imigrantes em vez de os chularem. Expliquem-lhes os direitos deles para que se possam defender. Mostrem ao mundo que as diferenças enriquecem e que a partilha de experiências nos torna maiores.
Isso sim, é importante. Por mim, chamem-me Bran...PIIIIIIII à vontade!

Para finalizar deixo aqui um poema muito bonito sobre Emigrantes e Imigrantes e sobre Imersão e Emersão. É que a estas horas convém ter uma ajudinha:

Emigra o bom português
Que vai viver em Paris;
Porém imigra o francês
Que vem prò nosso País.

Ninguém terá mais engulhos
Com esta regra ratona:
Imerge quem dá mergulhos
Emerge quem vem à tona.

Nunca mais ninguém duvida
Ante esta regra engraçada:
Com um E… temos saída,
Com um I… temos entrada.
I. Aguilar





(A da regra ratona tem piada! Têm de admitir...)

Caixinha de surpresas

Detesto o previsível e perco-me nas improbabilidades. A camisola amarela com as calças verdes. Faz-me rir. Abre a mão e fecha os olhos.
Não me digas "bom dia" quando me vires, pela manhã. Faz-me um desenho e destrói-o em pedaços de papel, para que o possa montar. Está bem, eu fecho os olhos. Mas tenho medo de abrir a mão. Juras que não é nada de mal?
Conduz do lado errado uma vez na vida, entra vestido no mar, come um gelado debaixo do guarda-chuva. Não posso abrir a mão, estou a agarrar o guarda-chuva e preciso de equilíbrio. Mas fecho os olhos se me avisares dos degraus.
Apanha o comboio sem reparares no destino, escolhe um filme sem conheceres o argumento, não me dês rosas, dá-me girassóis! E eu abro a mão e fecho os olhos, enquanto te ajudo a roubar uma flor num jardim.
E, se assim for, eu hei-de ser sempre aquela pessoa que te diz baixinho ao ouvido "Abre a mão e fecha os olhos".

Gatafunhos

Quando criamos um blog, escrevemos para quem? Escrevo para mim ou para os possíveis visitantes deste espacinho que não existe senão num mundo sem forma?
Qual é o objectivo de um blog? Divulgar ensinamentos, moralismos, lições? Dizermos "Sim, eu existo, olhem para mim!"?
Escrevemos. Vamos debitando linhas impecavelmente traçadas pelo digital. Como eu disse um dia, de que me valeram os esforços no sentido de melhorar a minha caligrafia? De que me valeram os sermões da professora Dulce? "Tens de fazer os teus trabalhos mais apresentáveis. Escreves tudo esborratado, tudo sujo e riscado. Se calhar, é melhor comprares um caderno de linhas duplas para treinares uma letra mais bonitinha."
Suei. Tracei linhas sem fim, testei letras redondas, compridas, à máquina, letras curcundas e elegantes. Finalmente, uma caligrafia impecável, legível. E agora?
Gostava de encontrar a professora Dulce e mostrar-lhe a minha caligrafia perfeita. Calculada, treinada, melhorada com os anos.
Mas na pressa, ela não tem tempo de se mascarar. Voltam os gatafunhos, a letra arrastada, os altos e baixos de uma caneta demasiado lenta para o que quero escrever.
Eu sou assim, como a minha caligrafia. Com os anos fui tentando aperfeiçoar-me, com esforço. Fui tentando ser mais calma, mais ponderada, mais compreensível para os outros. Mas, no fundo, não passo da letra arrastada, apressada e ilegível duma mão que desenha estrelas no canto das páginas. E isso não se esconde.

"Mesmo os dias maus são dias"

São as circunstâncias da vida que nos fazem crescer. É o girar do mundo que nos faz pular da cadeira e saltar para a vida. São as, por aqui conhecidas como, "chapadinhas de realidade" que nos fazem erguer os olhos mais acima e ver para além da superfície pegajosa das nuvens.
É assim e sabe bem.
Sabe bem tirar a crosta duma ferida que sarou. É vício. É o sentimento de vitória perante a dor que já não dói. Apagou-se.
E o mundo girou outra vez debaixo dos meus pés e eu não o senti. Mas ele reflecte-se em cada expressão nova que ganho, nalguma ruga que um dia surgirá, numa borbulha que odiamos pela manhã, nos casacos que não podemos usar porque é Verão. E é bom saber que ele vai continuar a girar mesmo quando eu não tiver força para rodar a grande alavanca. Mesmo assim, ele vai continuar o seu percurso eliptíco, sem se deixar dormir mais cinco minutos, rabugento, debaixo dos lençóis.
"Mesmo os dias maus são dias". Um dia escrevi esta frase num papel qualquer amarrotado no fundo da carteira. Prendi-o num carro e deixei-o ficar lá.
Mesmo os dias maus são dias. E só os podemos viver porque estamos vivos. Tem lógica, não tem? O mau fica algo cinzento, quando pensamos que um dia não vamos poder ter dias maus porque já não vão haver dias. E dias e dias e dias que se repetem, uns atrás dos outros, até ao dia que já não chega.
Com esta lição, não custa tanto. Se tiver de chorar, que seja de estores abertos para poder ver a rua mexer-se, lá em baixo, e o mundo girar, outra vez.

Tuesday, August 07, 2007

Adiarei o meu regresso ainda que em mentira...

E estou de regresso.
Pelas minhas paragens foram ficando pedaços de mim e roubei-lhes as imagens que poderei guardar para sempre comigo (ou até que o Alzheimer as leve....).
E quero partir. Quero voltar à estrada, às estações de serviço, às lutas pelos lugares à janela, às discussões pela música no rádio. Sim, quero voltar ao calor insuportável e ao desconforto nos bancos de trás. Quero voltar à linha do comboio que não acabava nunca e às sandes embaladas em papel celofane. Quero voltar às ovelhinhas que criam trânsito e aos passeios de barco pelo rio com mais ou menos energia.
Estas foram umas das melhores férias de sempre. Os destinos? Os dos costume. Então porque é que desta vez foi tão especial? Será que os lugares mudaram, ou mudei eu? Será que o regresso a casa já não é tão doce? Não sei. Mas quem me dera partir hoje, agora, já, e voltar aos caminhos do ontem que ainda se desenham na minha memória.

Wednesday, July 11, 2007

As meninas bem comportadas

Havia, na minha infância (mas há quanto tempo é que isso foi? Bolas, parecem-me séculos e ao mesmo tempo o dia de ontem) um livro que se chamava "As meninas bem comportadas" ou as meninas qualquer coisa boa.
Estas meninas faziam asneiras mas no fim aprendiam a lição. Caíam ao lago, levavam estranhos para casa (que, claro, eram sempre pessoas de boas famílias e portanto nunca as raptavam), andavam ao estaladão... enfim!
O que me levou a recordar hoje, passados tantos anos, essas meninas e as suas peripécias? A conclusão de que as meninas bem comportadas eram, na verdade, meninas mal comportadas que aprendiam com os seus erros. E que, afinal, a autora daquele livro foi a origem de todo o meu mau comportamento que, na verdade, era só bom comportamento camuflado! E mais: quem me comprou o livro foram os meus pais, fonte, portanto, de qualquer asneira por eles repreendida.
Mas o mais importante de tudo? Confirma-se a regra: "As meninas boas vão para o céu. As más... para todo o lado!". É que aquelas pestinhas andavam sempre em festas chiques em salões, grandes passeios de coche, vestidos com lacinhos da última moda. E afinal, o que fazia as meninas boazinhas não era não fazerem asneiras mas o facto de aprenderem sempre uma lição com os seus erros.
Assim, as meninas boazinhas não são as que não saltam nas poças para não molhar as meias. São as que saltam, ficam encharcadas, constipam-se e depois aprendem. E pronto, é verdade que às vezes não aprendem à primeira, mas um dia vão aprender!

PS- é verdade, eu ainda salto nas poças...

Monday, July 09, 2007

A revolta do meu teclado

O meu portátil foi des-ene-ado, como em desmembrado, só que perdeu a tecla N. Foi um momento negro quando, pequenina, ela se soltou do imenso teclado e partiu, aventureira, em busca de novos caminhos. Queria Nuvens, Notas de música, Novelos desembaraçados... Pedi-lhe "fica!", esmaguei-a contra o seu espaço vazio, e ela, insistente "Não!Não!" e escapava-se sempre, por entre os meus dedos.
Pesadelo do bloguista, cronista, experiência de escritor, isto de teclar no espaço vazio onde se estica o corpo decepado do botão de borracha.
Esqueçamos a tecla N e o seu capricho de aventura. Esqueçamos que se encontra nalgum fundo de gaveta onde aguarda o momento em que será, novamente, presa ao seu teclado por alguém mais credenciado que eu. Quando os objectos ainda se encontram dentro da garantia, é melhor não mexer, avisaram-me. Larga o tubo de cola tudo, e deixa esse martelo onde estava. Está bem, deixemos o meu N vaguear nos sonhos, acreditar que é livre no fundo da sua gaveta, pensar, talvez, que está já em viagem, a caminho de algum sítio melhor.
Cansou-se de levar porrada, até entendo. Vida difícil esta de tecla, eternamente espancada pelos dedos pesados de alguém que se lembrou que queria escrever. O "G" também já não me responde bem. Tenho de o forçar, para que me responda. Em vez de fugir, remeteu-se ao silêncio. Carrego nele repetidamente até que cede. O meu G quer Gotas de chuva, Gritos no telhado, Grinaldas de flores e Gomas de banana.
Aos poucos elas vão-se revoltando, e, pelo sim pelo não, conservo o papel e a caneta para um desses dias sem nome.

Saturday, July 07, 2007

Universos paralelos

O melhor de ir de férias nem é o sol, nem a praia, nem a piscina... Não, o melhor de ir de férias é entrar nesse universo paralelo em que todos os nossos problemas desaparecem. Os nomes são os mesmos, o aspecto é o mesmo, ainda que um bocadinho mais moreno, mas as vidas confundem-se. Deixamos as preocupações para trás, o trabalho que é preciso entregar, a nota que aguardamos daquela frequência que nos correu pessimamente, o corre-corre de cá para lá, a hora do almoço que ainda não está feito, aquela pessoa que sabemos que mente mas a quem continuamos a sorrir para evitar conflitos. Tudo desaparece. Tudo se esgota quando estamos longe, quando o que importa é apanhar o sol de frente e rir o mais que conseguirmos. Deixamos o telemóvel em casa e, por momentos, esquecemos que há gente para além daqueles que estendem a toalha à nossa volta, que há mundo do outro lado do muro que separa a nossa piscina do resto...

E no último dia de férias recebo aquela mensagem que me diz que mesmo sem saber o que dizia o Código de Hamurabi fiz bem em inventar porque tive 14 a teoria política e portanto não há exame para o qual estudar. E no dia em que chego faço o trabalho que é para entregar no dia seguinte e está tudo pronto a tempo. E ignoro aqueles que não são o que parecem porque a vida é mesmo assim, e quando estamos de férias tudo fica mais claro e percebemos que o importante mesmo são as pessoas que conhecemos e que estão lá para nós.


Sesimbra.... vamos voltar?

Sunday, July 01, 2007

Fantoches

Talvez as pazes mais difíceis sejam aquelas que fazemos connosco. Sim, talvez seja dentro de nós que se situa o reino onde é mais difícil alcançar a paz. Porque sabemos tudo, vemos tudo, somos tudo. Porque ao errarmos nos magoamos a nós, porque ao magoarmo-nos só nos podemos odiar a nós, e odiando-nos não aceitamos uma trégua com o nosso eu.
Cá dentro, somos um mundo em conflito. Um mundo que possui as armas mais poderosas de sempre, com capacidade de nos destruir por dentro. Haverá pior forma de destruição, que o corpo vazio, condenado à existência aparente, à dor da ausência, à ausência de dor?
O difícil não é perdoar os outros, é perdoarmo-nos. Nós, fantoches de prazer, sempre empenhados em fazer com que os outros nos aprovem, com que os outros nos valorizem. Demasiado empenhados para que nos lembremos de nos aprovarmos primeiro. Personalidades difusas, perdidas, vagueantes e inconscientes de si.
Para fazer a paz comigo, corto os fios que me conduzem. Solto-me do emaranhado de risos e sorrisos, palavras simpáticas e amáveis. Descoso a língua que trago presa, rasgo os pedaços de tecido colorido e brilhante, a flanela confortável, a seda macia.
Deixo esse palco de luzes e música, os espectadores que não sabem que todos eles se encontram, como eu, presos aos fios, os gestos medidos, as palavras planeadas.
Faço a paz comigo. Faço a paz com o mundo. E perdoo os fantoches que sem o saberem encenam mais um acto no palco da vida e me arranham com os seus fios que balançam ininterruptos.

Os meus heróis

Na infância, os nossos pais são os nossos heróis. Os meus pais sabiam tudo, podiam tudo. O meu pai tinha força suficiente para me carregar nos ombros, ensinou-me a ver a ursa maior nas estrelas, fazia da história um conto fantástico. A minha mãe dava vida aos sonhos, brincava sentada connosco, ríamos até nos doer a barriga, tinha sempre a solução para os nossos problemas.
Na adolescência, os nosso pais são o diabo vestido. Não sabem nada, só querem o nosso mal, parecem empenhados em destruir qualquer vestígio de vida social que tenhamos.
E, de repente, crescemos. E os nossos pais são os nossos heróis outra vez. Mesmo sem saberem tudo, mesmo sem terem a solução para qualquer problema. Porque não haverá nunca ninguém que nos ame tão incondicionalmente, que nos coloque em primeiro lugar, que mova montanhas para sermos felizes. Os meus pais são os meus heróis. Por tudo o que fazem, por tudo o que dizem, mesmo quando não concordo com eles. Por se levantarem todos os dias de manhã para irem trabalhar, mesmo cansados, para nos poderem dar tudo o que precisamos. Por receberem tantas vezes a ingratidão e estarem sempre de braços abertos para me receber a mim. Por aceitarem que somos diferentes e nunca me terem imposto um caminho. Por me permitirem que cometa os meus erros, mesmo com medo que me magoe. Por quererem, pura e simplesmente, que eu seja feliz.
Os maiores heróis não são os de ferro, os imbatíveis, os insensíveis. Os maiores heróis são os de carne e osso, que sofrem, que choram, que sangram, que têm medo, e que, mesmo assim, fazem tudo por nós.

Sunday, June 17, 2007

Tens sonhos?

O tilintar da chave na fechadura que não abre. Teias de aranha que cobrem com o seu véu de noiva o recanto do olhar. Fios de tempo, segundos que se transformam em matéria. Mais um centímetro no cabelo, mais uma ruga no canto da boca. Bate; quem se sabe se abro? Se bateres com força, quem sabe se te ouço? Se insistires, quem sabe se não me levanto e vou até à porta? Espreito e espero em silêncio. Dizes-me o teu nome e deixas as chaves na fechadura. O silêncio. O peso do tempo. Se os meus ossos deixarem, eu estendo a mão até ti. Se o meu corpo permitir, sou gente no alvorecer. Se a minha alma quiser, abro as asas e fujo daqui. Prisioneira. Dessa porta que não abre, dessas teias que me cegam, desse nevoeiro de tule que nos faz duvidar.
Tarde demais. Se não estiveres, fui devagar. Os pés que se arrastaram pelo chão encerado. O meu reflexo turvo que desaparece à minha passagem. Magia. Pós de fada presos à pele. Tens sonhos? Vendo-te dois sonhos e uma utopia, em troca de uma dose de realidade negra. Os sonhos não têm prazo de validade, parece-me uma troca justa, e as utopias são sempre jovens. Consumo a tua dose de realidade em êxtase. Quero sentir os pés no chão. Quero acordar sem desespero. Tenho sonhos comigo para dar e vender. E sinto-a nas veias como um veneno dilacerante. E a realidade confunde-me as cores, e o mundo é negro e o meu corpo é vermelho. E, de repente, não tenho asas. E, de repente, sou só alguém. Perco-me nessas ruas iguais, nessa multidão desfigurada, em néons e ruídos. Escondo o sorriso e baixo a cabeça quando avanço. Posso fingir que está tudo bem enquanto a realidade me faz alucinar.

Monday, June 04, 2007

Cansada

Cansei das formalidades. Das frases feitas, o sorriso amável, as respostas politicamente correctas. Cansei das botas em dias de chuva e do casaco quando está frio. Cansei do "obrigada" quando não há nada a agradecer, do "desculpa" quando estou certa, do silêncio quando quero gritar. Estou cansada de aceitar os defeitos e perdoar os erros que me magoam. Cansada de pensar se estarei certa ou errada em vez de fazer o que me apetece. Estou cansada duma vida congelada em maneiras e hipocrisia. Cansada de regras de educação que me obrigam a ser simpática com aqueles que me julgam sempre na minha ausência.
Cansei da nossa relação perfeita à superfície. Cansei dos arranhões que escondo, das palavras que engulo, dos sorrisos de etiqueta. Dos apertos de mão formais, dos beijinhos que trazem veneno, das palavras deixadas a pairar para quem as quiser apanhar.
Quero gritar. Quero rasgar o véu dourado com que cubrimos as noites e deixar a podridão ao vento. Para que todos sejam forçados a vê-la e a reconheçam.
E, depois, cada sorriso será genuíno, cada palavra mais que educação, cada abraço um gesto sincero.

Thursday, May 24, 2007

Tenho um caniche!

Sabem como é quando saem do cabeleireiro com um penteado novo que, por milagre, não vos fez jurar nunca mais lá voltar? É um daqueles raros momentos em que não pensamos "Mas que merda é esta?!" e em que queremos andar a pé para todo o mundo poder admirar a nossa nova pelugem capilar...
Mas e quando chega a hora de o lavar pela primeira vez? De repente, eis que o cabelo se descontrola, pontas atiçam-se em todas as direcções, a escova começa a parecer minúscula ao pé da juba e então sim, gritam: MAS QUE MERDA É ESTA?!

SOS mundo, estou num momento desses! O meu lindo cabelo longo foi substituído por um penteado à lá caniche e eu só quero um gorro bonito para o esconder!
"Respira, respira... o cabelo cresce, nada de dramas...! SIM, E ATÉ LÁ? "Pões uns ganchinhos, umas fitinhas..." ARRRRGH (diálogo travado entre mim e o espelho)
Volto a lavar o cabelo, a penteá-lo, a prendê-lo com ganchos e ganchinhos. Encho-o com quilos de espuma na esperança de domar a juba há muito adormecida pelo peso dos meus velhos cabelos compridos.
"Há pessoas que nem sequer têm cabelo!", um argumento estúpido, mesmo vindo de um espelho... Tento concentrar-me nas velhinhas carecas mas de repente lembro-me que não conheço nenhuma velhinha careca. Lembro-me daquele árbitro que não tem pêlos e vejo se me consigo sentir melhor (é horrível, eu sei, tentar sentir-me melhor com o sofrimento dos outros, mas neste momento não estou em mim, caramba!) Sei que tenho uma afro que usei no carnaval, mas acho que, mesmo assim, o caniche é menos medonho visto de longe...

É inútil! Dedico-me a criar uma lista de aspectos positivos:

  • menos calor no verão

  • menos trabalho a pentear

  • menos.....

pronto, é curta mas existe, e já se sabe que isso do tamanho não interessa para nada!

Monday, May 21, 2007

Laura Lopez Castro - No es por ser ni por estar

Tem tudo a ver comigo: a melodia, a letra, o vídeo, a voz dela, as estrelinhas e até o nome :P


Sunday, May 20, 2007

Janela

Gosto do mundo, visto da minha janela. Encosto-me a ela e olho. E sonho em ver tudo. Sonho que estas linhas me levam para lá da estação que vem inscrita no meu bilhete. Que tenho um passe para o mundo. Sem limites, prazos ou condições. E se o mundo fosse meu...

Sunday, May 13, 2007

Sonho

Tinha sede. Andava e nunca chegava. E cada passo mais perto era um passo mais longe de onde partira. E chegar onde se não tinha destino? A meta entrelaçada de sonhos que voa ao sabor do vento. Já não a vejo, cobriu-se do pó do tempo. Perdeu-se no meio da areia que me prende os pés. Queria chegar. Lá. Onde dizem que os sonhos se tornam reais. Onde podes ter asas e beber das flores. Abelha, borboleta, efémera. Efémeros os passos, os pés. Efémeras as pegadas que desparecem atrás de mim. Viro-me e nunca fui. Nunca lá estive.
Acordei. Era sonho. Não voltou. Ficou guardado nos fios da almofada, grãos de areia nos lençois, tu que não voltas mais.

Thursday, May 10, 2007

Irresponsabilidade boémia

Como um desabafo, a minha época parece-me errada. A época do cinzento, da correria, da falta de tudo: de tempo, de espaço, de atenção, de carinho.
Sei que não estou sozinha: talvez seja um mal da minha geração, este sentimento de não pertencer ao nosso tempo, de nostalgia por uma época que não vivemos nem conhecemos senão a partir dos livros e filmes, e da boca daqueles que estiveram mais perto dela. Há quem deseje os loucos anos 20, os rebeldes 60, o espírito dos 80. Sonhamos com brindes durante um concerto de jazz nos clubes de New Orleans, com vestidos até aos pés e pó de arroz debaixo dos leques do século XVIII, com as calças à boca de sino e as flores no cabelo enquanto gritamos palavras de revolução.
Estava a conduzir o meu carro do século XX (sim, ele ainda é do século passado, mas, "porém, ele move-se!") enquanto ouvia uma entrevista numa estação de rádio qualquer. Um fotógrafo dizia que sempre fora vadio. Uma palavra com uma conotação sempre tão negativa, ganhava uma outra força quando dita pela sua voz. Vida vadia, essa vida um pouco fora das normas sociais, sem horários nem compromissos habituais, em que partia com a câmara para onde fosse para fotografar o que quisesse. O sonho de uma irresponsabilidade boémia. E o escritor, debruçado sobre o papel sob a luz ténue de uma qualquer lâmpada, o cigarro pendente dos lábios, os óculos a descairem sobre a ponta do nariz. As frases a surgirem e a desaparecerem novamente sob uma chuva de riscos numa eterna procura da perfeição. O escritor que se disfarça com os nomes e os rostos das suas personagens e idealiza para elas um rumo, um mundo e um ser. Tão perto de ser Deus, força suprema, destino, sei lá, criando e destruindo vidas, gerindo as emoções e acções de pessoas de tinta e papel.
Quem me dera essa vida vadia, de sonhos e origamis...

Friday, May 04, 2007

Obrigatório MESMO

Cheguei lá por indicação no blog do Carlos Moura. Valeu a pena. Mais que isso, foi fundamental. Um trabalho que ganhou o Pulitzer e que nos recorda como a vida é preciosa e frágil, e que todos os dias devem ser vividos ao máximo... Carpe Diem. Vejam mesmo!

http://www.pulitzer.org/year/2007/feature-photography/works/index.html

Jogo de vida


No meu 10º ou 11º ano fui apresentada a uma forma de (vi)ver que me mudou para sempre: a filosofia. Todos temos um pouco de filósofos em nós, quando decidimos compreender, ou tentar compreender, aquilo que, de momento, não compreendemos. Filosofia estética, metafísica, moral... que importa? Filosofia, amor ao conhecimento, procura eterna, eterna sede de saber. Foi nessa disciplina, Filosofia, como se todos os seus princípios se pudessem aprender em 2 ou 3 anos, que aprendi uma das maiores lições, que guardo até hoje: o mais importante não são as respostas, mas saber fazer as perguntas.
"Só sei que nada sei", dizia, paradoxalmente, Platão. A aceitação de que nunca poderemos saber tudo foi uma das mais difíceis, a da inevitabilidade da ignorância. Talvez tenha sido devido a essa certeza de que não podemos compreender tudo que a ideia de Destino teve tanta força na Grécia....

Destino.. ou sorte? Quantas vezes não nos confrontámos com esta questão, face aos acontecimentos que não conseguimos compreender? Enquanto uns defendem a ideia de um destino inviolável, há quem se bata pelo lado do acaso. Irónico, o facto de destino e sorte serem, na sua essência, sinónimos. Prefiro acreditar no livre arbítrio: se tudo estiver destinado, que resta ao homem senão seguir coordenadas já traçadas? Diz-me um defensor do destino: Mas foste tu que traçaste o teu destino, quando ainda não eras corpo, para que pudesses aprender alguma lição. Aceito o argumento, enquanto é coerente. Renego-o quando me pergunta se sei o que acontece quando não cumprimos o nosso destino:
é porque estava traçado não o cumprirmos e, assim sendo, não era o nosso destino... certo?


"It's choice - not chance - that determines your destiny", Jean Nidetch

Thursday, May 03, 2007

Passo a passo


São os pequenos passos que nos levam a caminhar as maiores distâncias...