Eles não sabem nada de mim, e no entanto gritam o meu nome, as sílabas enroladas nas consoantes como se me diluísse na própria palavra que me nomeia. Eles não sabem nada de mim, porque nunca souberam ver-me. Olharam e acharam que isso era suficiente. Eles nunca me souberam ler e por isso nunca me tiveram, nunca me entenderam. Eu nunca fui desse mundo porque esse mundo nunca soube ser meu. Eles falam em meu nome, do meu nome, pelo meu nome, e no entanto não compreendem que eu sou muito mais que um nome. Sou muito mais que um corpo, uma cara, um estado de espírito. Eu sou um turbilhão vivo, uma noite cerrada em que os segredos se escondem por detrás de cortinas fechadas e estores corridos. Nunca soubeste abrir a janela e deixar entrar a luz da noite, a única luz em que tudo é verdade pura, sólida negridão que se entranha nas veias. Nunca me tiveste. Nunca me conheceste. Nunca soubeste nada de mim...
e no entanto...
Monday, March 31, 2008
Thursday, March 06, 2008
bom dia bom dia
Afinal há sol. Sol e flores e uma brisa que de tão meiga chega a doer. Há estradas que não dão a lado nenhum, que existem para serem percorridas com pés de lã e saltinhos infantis. Há músicos sentados no passeio, sem chapéus onde deitar moedas, com notas de março que fazem lembrar o chilrear dos pássaros e os copos de cristal no segundo antes de se quebrarem. Há pedras partidas em pedaços, com formas que conheço dos sonhos que de vez em quando regressam quando já estavam, há muito, esquecidos. Há tempo de menos para coisas a mais. Há dezenas, centenas de sons que ecoam sem que os consiga isolar e dar-lhes um nome. E se eu pudesse... multiplicar o meu eu, desdobrar-me, desmontar-me, partir para diferentes destinos daqueles que não surgem nas revistas porque, na verdade, não têm mesmo nada para ver. E vê-los assim, no seu nada que é um todo ofegante, um todo que rasura a alma que não está habituada ao nada que se estende à vista. Sem óculos de sol, sem saltos altos. Os pés descalços e a relva macia que desperta para dizer bom dia. Bom dia mundo. Bom dia vida.
avião de papel
Um avião de papel voa baixinho, rente aos telhados vermelhos, sem rota definida nem hora de chegada. Ele nunca chega, aliás. Ele simplesmente vai. Longe, cada vez mais longe, até onde as asas de papel suportarem o vento. Desliza e abana, plana sem motivos. Só porque sim.
Apelo
Dia 14 de Março, sexta-feira, pelas 21 horas no largo 5 de Outubro em Oeiras (frente à igreja, na vila) vamos fazer uma vigília em memória/homenagem ao (Moko) Diogo Ferreira. Também será um protesto pela insegurança que sentimos actualmente no nosso concelho e no nosso país. Passa esta mensagem aos teus contactos pelos meios que dispões. Cabe-nos a nós mudar o mundo e temos de acreditar que é com pequenos gestos como estes, mas cheios de força, que ele avança.
A iniciativa não é minha, mas lá estarei. Não só pelo Moko mas por todos nós. Apelo, sinceramente, a todos aqueles que, mesmo não conhecendo o Moko, possam ir, que se desloquem até lá. Afinal, somos nós os homens e mulheres do amanhã não é? Vamos tentar fazer a diferença e criar um mundo melhor para nós. Por mais inútil que possa parecer é mudando uma pessoa de cada vez que se muda a humanidade... certo? Como diziam numa música "Eles têm as armas mas nós temos a voz"...
Por favor não deixem de aparecer. Pelo Moko, por todas as vítimas de violência, por todos aqueles que amam, para que não sejam eles, um dia, e por vocês mesmos. Obrigada
A iniciativa não é minha, mas lá estarei. Não só pelo Moko mas por todos nós. Apelo, sinceramente, a todos aqueles que, mesmo não conhecendo o Moko, possam ir, que se desloquem até lá. Afinal, somos nós os homens e mulheres do amanhã não é? Vamos tentar fazer a diferença e criar um mundo melhor para nós. Por mais inútil que possa parecer é mudando uma pessoa de cada vez que se muda a humanidade... certo? Como diziam numa música "Eles têm as armas mas nós temos a voz"...
Por favor não deixem de aparecer. Pelo Moko, por todas as vítimas de violência, por todos aqueles que amam, para que não sejam eles, um dia, e por vocês mesmos. Obrigada
Wednesday, March 05, 2008
Até um dia
Não é adeus. Não se diz adeus a quem já mora dentro de nós. Não nos despedimos dos sorrisos que sobrevivem mesmo depois de se extinguirem.
Haja o que houver aí onde estás, espero que estejas em paz. Que a tua alma se encha de alegria quando vês as centenas de pessoas que tocaste e cuja vida revolucionaste com os teus gestos e palavras. Que a vida nem sempre é justa já todos o sabíamos. Como dói a injustiça, isso, vamos descobrindo aos poucos. Perguntam porque acontecem coisas más às melhores pessoas. Há quem diga que só essas vão ainda a tempo de ser salvas.
Não quero chorar: quero sorrir e gritar ao mundo que tive o privilégio de ter alguém assim na minha vida. E abaná-los pelos ombros e dizer: Chega! Chega de correr de um lado para o outro, discutir, cansar a cabeça com coisas sem importância. Aproveitem o dia, beijem quem amam, abracem quem querem, dancem à chuva se assim vos apetecer. Chega de violência, de intolerância, de rancores. Chega de ódios sem sentido, a vida é demasiado curta para isso. Curta mas grande, enorme, brilhante. Vivam cada dia como se fosse uma viagem única no mundo. Foi assim que fizeste. E, dessa forma, conquistaste a imortalidade dentro de cada um de nós.
Isto não é um adeus Moko. É até um dia. Vou sentir a tua falta**************
Haja o que houver aí onde estás, espero que estejas em paz. Que a tua alma se encha de alegria quando vês as centenas de pessoas que tocaste e cuja vida revolucionaste com os teus gestos e palavras. Que a vida nem sempre é justa já todos o sabíamos. Como dói a injustiça, isso, vamos descobrindo aos poucos. Perguntam porque acontecem coisas más às melhores pessoas. Há quem diga que só essas vão ainda a tempo de ser salvas.
Não quero chorar: quero sorrir e gritar ao mundo que tive o privilégio de ter alguém assim na minha vida. E abaná-los pelos ombros e dizer: Chega! Chega de correr de um lado para o outro, discutir, cansar a cabeça com coisas sem importância. Aproveitem o dia, beijem quem amam, abracem quem querem, dancem à chuva se assim vos apetecer. Chega de violência, de intolerância, de rancores. Chega de ódios sem sentido, a vida é demasiado curta para isso. Curta mas grande, enorme, brilhante. Vivam cada dia como se fosse uma viagem única no mundo. Foi assim que fizeste. E, dessa forma, conquistaste a imortalidade dentro de cada um de nós.
Isto não é um adeus Moko. É até um dia. Vou sentir a tua falta**************
Thursday, February 28, 2008
o meu eterno sorrir
O meu sorriso não é prata nem ouro: é sempre a eterna inflexão de um momento de alquimia inesperada.São assim os sorrisos: estranhos à beira da estrada que se perdem de vista pelo caminho, pontos de luz que seguimos com os olhos e se extinguem entre o bater de asas de uma borboleta. Vivem do instante fugaz e a ele pertencem. Não se conhecem nunca, não se possuem nunca. Esgares oscilantes entre o contentamento e o desalento, jogos de luz e sombra que se traçam entre os cantos do rosto. E no instante em que víamos surgir um movimento familiar, ele desfaz-se no tempo, como uma página velha que se faz pó sob o toque do dedo, e tudo volta ao início. Aí reside a magia do eterno sorrir.
Monday, February 25, 2008
cantaremos
Sabes, por vezes escrevo coisas pelo simples prazer de escutar, dentro de mim, a harmonia da dança em que se envolvem, umas nas outras.
Sim, eu sei.
E sabes que, um dia, muito provavelmente, será tempo de escrever sobre coisas sérias e tristes, daquelas que fazem as pessoas ler as páginas cinzentas dos jornais.
Sim, provavelmente, é a vida.
Mas a vida de quem?
(silêncio)
A tua? A minha? A vida que temos ou a que escolhemos?
Se calhar... as duas?
Se calhar. Vou escrever. Queres cantar as palavras depois?
Cantaremos.
O que quisermos?
Até ao fim.
Sim, eu sei.
E sabes que, um dia, muito provavelmente, será tempo de escrever sobre coisas sérias e tristes, daquelas que fazem as pessoas ler as páginas cinzentas dos jornais.
Sim, provavelmente, é a vida.
Mas a vida de quem?
(silêncio)
A tua? A minha? A vida que temos ou a que escolhemos?
Se calhar... as duas?
Se calhar. Vou escrever. Queres cantar as palavras depois?
Cantaremos.
O que quisermos?
Até ao fim.
Saturday, February 16, 2008
dias maiores
houve dias maiores. Em que o sol nasceu mais cedo e tocou a terra batida dos caminhos onde cresceram flores exóticas nunca antes vistas. Em que o mar se envergonhou e recuou quilómetros, deixando à vista a areia molhada repleta de seres das profundezas. O céu estava parado, o vento não guiava as nuvens que se transmutavam de formas. houve quem dissesse que era o fim. Outros, poucos, acreditaram que era o início.
Friday, February 15, 2008
cansei (lenga-lenga) - vício da rima
cansei das manhãs,
do vão da escada,
das ruas de pedra,
da terra molhada,
da linha do horizonte,
de telescópios cansados,
de feridas abertas,
de olhos fechados,
de mapas escritos,
de caminhos desertos,
de sinais confusos,
de planos correctos,
das linhas da mão
do meu tornozelo
da cova no queixo,
do meu cotovelo,
das multidões apertadas,
da solidão absoluta,
dos gritos alucinados,
do silêncio à escuta,
da luz fluorescente,
do escuro sem vida,
do dia apagado,
da noite perdida,
do gigante feroz,
do anão revoltado,
da formiga contente,
do leão emproado,
da história sem fim,
do capítulo final,
da vida, da morte,
de tudo e tal.
é só vício de rima
do vão da escada,
das ruas de pedra,
da terra molhada,
da linha do horizonte,
de telescópios cansados,
de feridas abertas,
de olhos fechados,
de mapas escritos,
de caminhos desertos,
de sinais confusos,
de planos correctos,
das linhas da mão
do meu tornozelo
da cova no queixo,
do meu cotovelo,
das multidões apertadas,
da solidão absoluta,
dos gritos alucinados,
do silêncio à escuta,
da luz fluorescente,
do escuro sem vida,
do dia apagado,
da noite perdida,
do gigante feroz,
do anão revoltado,
da formiga contente,
do leão emproado,
da história sem fim,
do capítulo final,
da vida, da morte,
de tudo e tal.
é só vício de rima
O velho piano
O teclado era branco. Não, minto: as suas teclas estavam amareladas pelo tempo, como os sorrisos gastos dos velhos, mal preenchidos de dentes. Olhava-me com o ar descontraído de quem já não tem nada a provar, nada a mudar, de quem já escreveu a historia da sua vida, a fechou numa garrafa e atirou-a ao mar. os meus dedos eram demasiado pequenos, na altura. esticava-os com esforço para conseguir fazer os acordes perfeitos, doiam-me as articulações, metia-se-me a língua de fora como sempre o fazem as crianças quando querem conseguir coisas perfeitas.
um dia ele saiu, com toda a pompa e circunstância, pela janela do 12º andar. Estava velho, as cordas frouxas. Uma pequena quantidade de gente, que na altura me pareceu multidão, olhava-o de baixo, murmurava frases feitas, clichés. Pousei as pautas no chão e parti. Não sei se as levou o vento ou não.
um dia ele saiu, com toda a pompa e circunstância, pela janela do 12º andar. Estava velho, as cordas frouxas. Uma pequena quantidade de gente, que na altura me pareceu multidão, olhava-o de baixo, murmurava frases feitas, clichés. Pousei as pautas no chão e parti. Não sei se as levou o vento ou não.
as malhas das horas
às vezes as horas enrolam-se nos relógios. Tropeçam nos ponteiros e aí ficam, caídas, alguma meia rasgada "ai merda que já fiz uma malha!", a resmungar da sua má sorte.
a gente espreita, sem dar grande importância (já todos sabemos que se dermos muita importância à maioria das coisas elas ganham manias insuportáveis), vira um pouco os olhos para elas, morde o lábio de baixo à espera de ver mudar o dígito. Volta o rabugento para casa entra o novo, restabelecido, forte, decidido a alongar-se o máximo possível. Dá vontade de gritar : o tempo da educação física acabou, meu querido! Não te alongues que não vale a pena! Mas ficamos quietos, pelo sim pelo não, não và a hora levar a mal e deixar-se ficar, preguiçosa, só para chatear
a gente espreita, sem dar grande importância (já todos sabemos que se dermos muita importância à maioria das coisas elas ganham manias insuportáveis), vira um pouco os olhos para elas, morde o lábio de baixo à espera de ver mudar o dígito. Volta o rabugento para casa entra o novo, restabelecido, forte, decidido a alongar-se o máximo possível. Dá vontade de gritar : o tempo da educação física acabou, meu querido! Não te alongues que não vale a pena! Mas ficamos quietos, pelo sim pelo não, não và a hora levar a mal e deixar-se ficar, preguiçosa, só para chatear
Não fosse a noite cair
Andava em passos largos, não fosse a noite cair, de repente e sem aviso, e cobrir tudo de cinza. A gente nem sempre sabe quando está para chegar, empastando os nossos cabelos com nesgas de escuridão que escorrem para os olhos. Enfim, quase corria, demorando porém os pés nas pedras do chão. Tinha por elas um respeito imenso, quase religioso, calcando-as a medo, com as pontas dos pés. Dir-se-ia que saltitava, vista de trás. As índias velhas diriam que galopava, que procurava ser livre. Se lho dissessem ter-se-ia rido: "só procuro o caminho de casa, nada mais".
Ninguém em casa a esperava, na verdade. Só uma cadeira torta, uma perna mais curta, o forro rasgado. A cadeira da avó, coberta de pó (quanto tempo teria? 2 dias? 2 anos? 2 séculos?), um pó sagrado que vinha de quem lá se tinha sentado um dia. Talvez um historiador não resistisse a tocá-lo com as pontas dos dedos, levá-las à boca, beijá-lo, sentir na ponta da língua mil vidas passadas que se fundiam e confundiam ali, naquele pó. Mas era só a cadeira vazia, a cadeira da avó que era a do gato agora. A do gato surdo que ali afiava as unhas e se espantava sempre com o silêncio do tecido que se rasgava por debaixo das patas.
Ninguém em casa a esperava, na verdade. Só uma cadeira torta, uma perna mais curta, o forro rasgado. A cadeira da avó, coberta de pó (quanto tempo teria? 2 dias? 2 anos? 2 séculos?), um pó sagrado que vinha de quem lá se tinha sentado um dia. Talvez um historiador não resistisse a tocá-lo com as pontas dos dedos, levá-las à boca, beijá-lo, sentir na ponta da língua mil vidas passadas que se fundiam e confundiam ali, naquele pó. Mas era só a cadeira vazia, a cadeira da avó que era a do gato agora. A do gato surdo que ali afiava as unhas e se espantava sempre com o silêncio do tecido que se rasgava por debaixo das patas.
Tuesday, February 05, 2008
Quando foi?
Havia eu e ele. E o mundo, como pano de fundo, bandeira meia descolorida pelo sol, agastada pelas intempéries que, de vez em quando, insistem em suceder. Mas, enfim havíamos nós e a isso se resumiam os dias. Às horas que se precipitavam galopantes quando juntos, ou numa cadência de conta-gotas na ausência. Havia as estrelas, as do céu e as do mar, que espraivam os braços na areia molhada pela manhã ou se dispersavam na escuridão da noite, cada vez mais fortes, cada vez mais altas. Havia as estórias partilhadas, os segredinhos de algibeira contados a dois tempos, as palavras inúteis mas belas que se ofereciam como caixa de bombons quando não sobrava dinheiro depois do cinema. E, acima de tudo, havia nesse passado uma inocência assombrosa de menina, uma espécie de pacto com o mundo que prometia não destruir sonhos nem quebrar ilusões.
Até que um dia, sem saber bem quando (são datas que não se fixam em calendários), quebrou-se o pacto. Os olhos escureceram, alongaram-se os dias, curvaram-se os gestos. A isso obrigou o tempo, diriam os mais sábios, que aceitam o amanhã com paciência e sensatez. As meninas fazem-se mulheres, os sonhos fazem-se planos, as ilusões são esperanças e os amores são vulcões meios adormecidos. Um dia, podem despertar e destruir tudo em seu redor. Urge cumprir horários e regras, respeitar os códigos, dezenas, centenas de premissas irrevogáveis. O mundo já não é bandeira ao fundo, é palco principal cujo pano cai a qualquer momento. Quando cai, não resta senão levantá-lo de novo: doem os braços, afligem-se os dedos, partem-se unhas, às vezes. Ou deixamo-lo caído - nem sempre há tempo para o levantar - e partimos em digressão, à espera de um novo holofote mágico que nos encadeie e nos faça acreditar que ali, onde só há luz, está de facto a baleia do Pinóquio, que o engole num zumzum de mar.
Todas as meninas se fazem, mais dia menos dia, mulheres. Mas todas as mulheres guardam em si, mesmo que não o saibam, a menina que foram um dia.
Até que um dia, sem saber bem quando (são datas que não se fixam em calendários), quebrou-se o pacto. Os olhos escureceram, alongaram-se os dias, curvaram-se os gestos. A isso obrigou o tempo, diriam os mais sábios, que aceitam o amanhã com paciência e sensatez. As meninas fazem-se mulheres, os sonhos fazem-se planos, as ilusões são esperanças e os amores são vulcões meios adormecidos. Um dia, podem despertar e destruir tudo em seu redor. Urge cumprir horários e regras, respeitar os códigos, dezenas, centenas de premissas irrevogáveis. O mundo já não é bandeira ao fundo, é palco principal cujo pano cai a qualquer momento. Quando cai, não resta senão levantá-lo de novo: doem os braços, afligem-se os dedos, partem-se unhas, às vezes. Ou deixamo-lo caído - nem sempre há tempo para o levantar - e partimos em digressão, à espera de um novo holofote mágico que nos encadeie e nos faça acreditar que ali, onde só há luz, está de facto a baleia do Pinóquio, que o engole num zumzum de mar.
Todas as meninas se fazem, mais dia menos dia, mulheres. Mas todas as mulheres guardam em si, mesmo que não o saibam, a menina que foram um dia.
Tuesday, January 15, 2008
Pouco normal
Existem algumas pessoas que, sem razão aparente, cruzam as nossas vidas. Aqueles com quem apanhamos o comboio ou por quem passamos na rua quase todos os dias. Anónimos muitas vezes mais familiares do que muitos conhecidos, reconhecemos-lhes os traços, aprendemos-lhes os nomes, descobrimos-lhes histórias por entres frases soltas. Como o Zé Mário. O rapaz de 29 anos, barba por fazer, que reclama da vida em voz alta quando vai no metro. Que fez o curso de informática e não lhe deram emprego: "os jovens precisam de emprego!", grita enquanto bate com a mão no vidro, revoltado. O Zé Mário tem uma doença, é óbvio, mas talvez isso o torne mais lúcido. Não engole a revolta, não cala a mágoa, não recalca o desespero. Ao contrário de nós, de lábios cerrados e testa franzida, o Zé Mário diz o que pensa, o que muitos de nós pensam, e faz rir alguns, mais jovens, e tremer outras, mais velhinhas.
"Mas que porcaria é esta?!", inquiria a plenos pulmões há uns poucos dias. E as velhinhas afastavam-se dele, chapéus-de-chuva na mão não fosse ele passar-se e saltar para cima delas. É que, infelizmente, hoje já não se diz o que se pensa. Hoje o normal é calar, aturar, deprimir, recalcar, envelhecer, amargurar. E é por ser tão fora do normal que o Zé Mário se tornou especial.
"Mas que porcaria é esta?!", inquiria a plenos pulmões há uns poucos dias. E as velhinhas afastavam-se dele, chapéus-de-chuva na mão não fosse ele passar-se e saltar para cima delas. É que, infelizmente, hoje já não se diz o que se pensa. Hoje o normal é calar, aturar, deprimir, recalcar, envelhecer, amargurar. E é por ser tão fora do normal que o Zé Mário se tornou especial.
Monday, January 07, 2008
tudo isso eu serei
Todos esses sonhos que tenho guardados na gaveta, eu serei. Mesmo os de gaivota, conquistarei. Mesmo os de sereia, poderei. Na pérola onde as ostras têm o futuro, eu posso ver. Não tenho medo porque é assim. Quem sonha sempre pode sempre. Fim.
Agonia
Do tudo e do nada. Agonia da primeira entrevista, do primeiro contacto, das primeiras palavras. Agonia da hora de entrar e da hora de sair. Agonia que se prolonga pelo dia e que se vai esbatendo com o passar dar horas. Agonia de chegar sempre atrasada, que morre quando dizem que os jornalistas são, por norma, pessoas atrasadas (horariamente, como fiz questão de frisar cá em casa, justificando uma vida inteira de atrasos. Justificação essa recebida com a mesma incredulidade que provocaram as minhas descobertas sobre ser uma criança índigo - com problemas em cumprir horários - e ter o hemisfério esquerdo do cérebro mais desenvolvido - algo que também ajuda aos atrasos).
Passa a agonia e o gosto vai saltitando por entre os momentos de hesitação e gestos que se tornam hábitos. Dar o nome à entrada, lutar contra o rato (do pc), recusar os 30 000 panfletos que me tentam entregar pelo caminho, evitar a piscina que se cria ali, mesmo ao pé da minha secretária. Tudo isso vai se inscrevendo na pele como micro-tatuagem que não se vê.
- Achas que tenho ar de jornalista?
Ao que parece, os jornalistas não têm "ar". Têm caras e bocas como toda a gente e cabelos que se despenteiam e rímel que escorre quando chove e chapéus de chuva que reviram ao vento. Dizem eles, que não percebem nada disto.
Passa a agonia e o gosto vai saltitando por entre os momentos de hesitação e gestos que se tornam hábitos. Dar o nome à entrada, lutar contra o rato (do pc), recusar os 30 000 panfletos que me tentam entregar pelo caminho, evitar a piscina que se cria ali, mesmo ao pé da minha secretária. Tudo isso vai se inscrevendo na pele como micro-tatuagem que não se vê.
- Achas que tenho ar de jornalista?
Ao que parece, os jornalistas não têm "ar". Têm caras e bocas como toda a gente e cabelos que se despenteiam e rímel que escorre quando chove e chapéus de chuva que reviram ao vento. Dizem eles, que não percebem nada disto.
Friday, January 04, 2008
desejos
Talvez dia 5 seja algo tarde para revelar os meus desejos para 2008. Ou talvez não. Acredito que, enquanto houver vida, nunca é tarde demais. Quero fugir a clichés e evitar os desejos de sempre. Esse é um dos meus desejos. Quero ser feliz com o que tenho, sempre com a ambição de ir mais além. Quero saber desfrutar de cada momento, por irrisório que pareça, como sendo único, pois é isso, que de facto, cada momento é. Quero que a minha filha seja uma criança de verdade, daquelas que sonham e conseguem construir castelos que voam, e fadas que respiram debaixo de água e mundos onde as pessoas comem algodão doce de manhã à noite, porque essa é a base da felicidade. Quero que as pessoas importantes para mim se sintam especiais, únicas e verdadeiramente essenciais na minha vida. Quero conseguir sorrir depois de um dia desgraçado e gritar: SOBREVIVI quando chegar a casa. Quero acabar a licenciatura e partir à descoberta da vida fora das paredes de um auditório. Quero experimentar o mundo, provar coisas novas, dançar a rumba, a salsa, o flamenco e rir até me doer a barriga.
No fundo, no fundo, quero ser feliz. Não é o que queremos todos?
No fundo, no fundo, quero ser feliz. Não é o que queremos todos?
Thursday, January 03, 2008
Dominar o mundo
Desde as 00h de 2008 que não conseguia parar de pensar em entrar com o pé direito. Infelizmente, também não conseguia para de me esquecer disso, resultando desta equação uma frustração incrível e suspeitas de Alzheimer prematuro. Hoje convenci-me de que, finalmentre, entraria com o pé direito. E cruzando a porta da redacção onde me estreei hoje como estagiária, dei um pulinho apoiada no pé direito, fazendo uma entrada que podia ter corrido mal caso o chão estivesse molhado, mas que me deu confiança para o ano inteiro. Entre beijinhos e apresentações, lá me fui apercebendo de como as coisas funcionam. Apercebi-me de que, se não levar um rato novo para a redacção muito em breve, vou acabar hospitalizada numa ala psiquiátrica. Apercebi-me, à medida que ia ouvindo conversas, que isto de ser jornalista de viagens tem os seus benefícios tais como massagens, noites e refeições totalmente à borlix. Também me apercebi, infelizmente, que os estagiários não devem desfrutar de todos esses benefícios, mas, enfim, quantos estagiários escrevem notícias logo no primeiro dia? Poucos, asseguro-vos. A maioria dos que conheci corrigia os textos dos outros. Por isso, estou contente. Como disse a uma amiga, saí da redacção com a sensação: "Ah! Sou jornalista e vou dominar o mundo!". Uma sensação que neste momento se assemelha a uma dor de cabeça pelas horas prolongadas em frente a um ecrã saído da Idade Média. Mas enfim, amanhã lá volto eu. E de rato novo na mala.
Saturday, December 15, 2007
A eternidade em globo de neve
Tenho a eternidade escrita na palma da mão. Disse-me a velha que passava na praia, pés descalços na areia, toda vestida de negro. Do meu futuro não quero senão o amanhã sempre incerto. Não quero as previsões amarrotadas a um canto do pensamento nem os desígnios que me conduzem cega pelos caminhos. Quero a eternidade presa ao seu globo de neve. Agitá-la, desmembrá-la, dar-lhe o tempo que precisa até que assente. Ela só funciona enquanto está presa. Uma vez quebrado o globo, a neve deixa de voar.
A ontologia do Natal
Fazer da vida uma festa. Haverá algo melhor que celebrar cada momentinho, aproveitar cada desculpa para nos juntarmos com aqueles que são mais importantes? No fundinho, um Carpe Diem exaltado em que nos perdemos entre chapéus de bruxas, perucas de carnaval ou gorros natalícios.
Penso que qualquer introdução ao meu ciclo de festas temáticas é já desnecessária. Quem lê este blog sabe bem que, mês sim mês não, há festa temática marcada no calendário. O que pouca gente sabe é o trabalho que implica preparar uma festa destas: arranjar uma data, um sítio, a comida, a decoração, entretenimento... Mas quem corre por gosto não cansa e por mais que eu me queixe das dores de cabeça acabo sempre deliciada nos preparativos de uma nova festa.
Combinar o habitual jantar de Natal, este ano, revelou-se uma missão impossível até para o próprio papai noel. Datas sempre ocupadas, exames, trabalhos, jantares que se sobrepunham, uma ginástica de números que quase me levou à loucura. Mas, como é cliché de Natal, o que conta é a intenção, e portanto o nosso jantar viu-se "reduzido" a um cházinho tardio. Onde? Numa garagem. Porquê? Porque sim. Porque não havia outro espaço, porque não havia outro dia, e porque o que importava era estarmos todas juntas.
Daquele chá que parecia condenado pela pobreza resultou uma reunião surpreendentemente natalícia. Natalícia porque desta vez não havia pratos elaborados nem outras coisas que pudessem encobrir aquilo que realmente é importante: estarmos juntas. E com uns bolinhos, bolachinhas, pipocas e chá (abençoadas chaleiras eléctricas!) fez-se um encontro de Natal perfeito. A troca de prendas, que agora tanta gente critica porque "ah e tal é o problema do consumismo", foi acima de tudo uma troca de carinho. Prendas simbólicas, a puxar à gargalhada ou à lágrima, repletas dessa tal intenção que preencheu cada cantinho daquela garagem.
É nisso que reside a ONTOLOGIA do Natal (efeitos secundários duma frequência feita às 10h da manhã...). É nessa troca de mimos que vão para além dos brilhos, das luzes, das mesas perfeitas, do papel de embrulho, dos laçarotes de mil cores espalhados pelo chão.
E se vocês tiverem a sorte de, como eu, poderem partilhar cházinhos de natal deste género, então têm o mundo nas vossas mãos ;)
Feliz Natal para todos porque, para mim, a época de Natal foi hoje oficialmente iniciada!!
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