A crise é horrível. Lemo-la nos jornais, nas caras das pessoas quando contam os trocos para pagar as compras, na conversa do amigo do amigo que perdeu o emprego. Até aí, a crise é horrível, mas podemos com ela.
Depois, a crise chega até nós. Assim, quase sem aviso, uma estalada de realidade de que leva tempo até nos recompormos. Já não é só horrível: é chocante, difícil de acreditar. Olhas para ela de frente e, mesmo assim, não a reconheces: é como um furacão que torna tudo disforme e esbatido e que, num instante, destrói aquilo que davas como quase certo. Pela primeira vez, sentes medo a sério da "crise". Essa palavra escarrapachada em todos os jornais que já se tinha tornado tão parte do teu dia-a-dia que quase a esquecias. Pensas no que podes fazer e sabes que, em todo o mundo, milhares de pessoas estão a pensar exactamente o mesmo que tu: e agora?
Há uns meses ouvi, na rádio, um homem que falava de todas as crises pelas quais já tinha passado ao longo da vida - e sobrevivido. E, nessa altura, senti que havia esperança. Naquela voz tremida pela idade não havia medo, nem necessariamente coragem. Havia sabedoria. Aquele tipo de coisas que julgo que só se aprendem mesmo com a experiência e os anos. Aquelas coisas que, depois de as escutarmos pela primeira vez, são uma espécie de âncora que procuramos nos momentos difíceis. Palavras que vêm trazer à alma o aconchego que falta nas antigas certezas do dia-a-dia.
E eu acredito tanto em nós.
Thursday, February 19, 2009
Monday, January 19, 2009
Dias mais ou menos
Há dias maus. Ou dias mais ou menos, vá. Em que só queríamos a cama, uma tarde de cinema típica de domingo com as comédias de sempre a passar em dose de elefante, o pijama de flanela e o aquecedor na potência máxima, só desta vez, porque até nos preocupamos com o consumo de energia e o fim do mundo.
Nestes dias, ou temos a coragem de nos atirarmos pelas escadas e, assim, sermos forçados a ficar em casa (ora, bolas!), ou, como o comum dos mortais, arrastamo-nos entre as torradas e o café com leite, a escova dos dentes e o casaco, e enfrentamos a chuva, o nevoeiro e o frio como bravos guerreiros vikings.
Mas também há dias de vacas na Praça de Espanha. Quando conduzimos quase em piloto-automático, alguém ao nosso lado grita: OLHA UMA VACA! e nós esperamos, a qualquer momento, embater com uma tonelada de manchas pretas e brancas. (quanto pesará uma vaca? google: "peso vaca" - cerca de 400 kgs) Afinal, não há embate. Quatro ou cinco vaquinhas limitam-se a pastar em plena Praça de Espanha, num metro quadrado de relva, à chuva e sob os gases dos tubos de escape dos carros que abrandam para espreitar estes espécimes raros na capital.
É nestes dias que a minha secretária excessivamente desarrumada (a mais desarrumada da área, já conferi) me irrita ao ponto de quase acreditar que alguém a desarruma todas as noites só pelo gozo de me chatear. Os jornais com 3 meses empilhados à esquerda parecem-me apenas potenciais formas de atear um fogo e as migalhas das bolachas que acabei de comer são motivo suficiente para dar um raspanete à senhora das limpezas que saiu daqui há uma hora...
Nestes dias mais ou menos, tudo o que eu quero é chegar a casa, tirar as botas, afundar-me no sofá e fingir que passei o dia inteiro assim. Mas, assim, não tinha visto as vacas e tinha perdido o acontecimento da semana em Lisboa...
Nestes dias, ou temos a coragem de nos atirarmos pelas escadas e, assim, sermos forçados a ficar em casa (ora, bolas!), ou, como o comum dos mortais, arrastamo-nos entre as torradas e o café com leite, a escova dos dentes e o casaco, e enfrentamos a chuva, o nevoeiro e o frio como bravos guerreiros vikings.
Mas também há dias de vacas na Praça de Espanha. Quando conduzimos quase em piloto-automático, alguém ao nosso lado grita: OLHA UMA VACA! e nós esperamos, a qualquer momento, embater com uma tonelada de manchas pretas e brancas. (quanto pesará uma vaca? google: "peso vaca" - cerca de 400 kgs) Afinal, não há embate. Quatro ou cinco vaquinhas limitam-se a pastar em plena Praça de Espanha, num metro quadrado de relva, à chuva e sob os gases dos tubos de escape dos carros que abrandam para espreitar estes espécimes raros na capital.
É nestes dias que a minha secretária excessivamente desarrumada (a mais desarrumada da área, já conferi) me irrita ao ponto de quase acreditar que alguém a desarruma todas as noites só pelo gozo de me chatear. Os jornais com 3 meses empilhados à esquerda parecem-me apenas potenciais formas de atear um fogo e as migalhas das bolachas que acabei de comer são motivo suficiente para dar um raspanete à senhora das limpezas que saiu daqui há uma hora...
Nestes dias mais ou menos, tudo o que eu quero é chegar a casa, tirar as botas, afundar-me no sofá e fingir que passei o dia inteiro assim. Mas, assim, não tinha visto as vacas e tinha perdido o acontecimento da semana em Lisboa...
Thursday, January 15, 2009
Sinfonia da melancolia
Passos.
Uma última palavra esvoaçante entre os braços.
Uma só, depressa
antes que, de repente, alguém apareça!
Antes que a luz descubra, por completo, os prédios e as casas
em frente dos quais as palavras se tornaram gestos
e os gestos ganharam asas.
Antes que o coração desta terra volte a bater
e a gente encha as ruas, caminhando sem se deter.
Sacos nas mãos, saltos nos pés, sonhos guardados
- quando é que nos tornámos tão estranhos e errados?
Antes que as pontes ameacem ruir,
e ninguém pare para as ver no momento de cair.
Antes que os destroços de pedra se misturem com os destroços de nós
e que o ruído de mil passos nos abafe e cale a voz.
Quando?
Quando é que cegámos por completo?
Cidades inteiras perdidas em cegueiras que passam por um defeito discreto.
Quando é que nos tornámos tão sós?
Quando é que todos os outros passaram a ser tão diferentes de nós?
Não são passos que escuto em torno de mim:
é a sinfonia de uma inteira melancolia feita de notas que são as gentes assim.
Thursday, January 08, 2009
Richness For Dummies
"There's plenty of money out there. They print more every day. But this ticket, there's only five of them in the whole world, and that's all there's ever going to be. Only a dummy would give this up for something as common as money. Are you a dummy?"
(Grandpa George em "Charlie and the Chocolate Factory", 2005)
Thursday, November 20, 2008
Pornografia Infantil, NÃO
Se o Bush criou o Eixo do Mal com países, os bloggers também podem renovar o conceito. Porque jamais o Mal (assim com maiúscula) foi exclusividade de uma nação, uma raça, uma língua ou uma religião. Essa coisa do Mal existe nos indivíduos, e nunca saberemos ao certo se resulta de uma distorção cerebral, ou de uma alma defeituosa. Ok, podre.O que sabemos é que o esse Eixo passa por estas palavras: angels, lolitas, boylover, preteens, girllover, childlover, pedoboy, boyboy, fetishboy ou feet boy.São os termos mais usados na pesquisa de pornografia infantil. Hoje a blogosfera adere a uma campanha para trocar as voltas a quem escreve estas palavras nos motores de busca. O objectivo é "entupir os motores de busca com os nossos posts para que no dia de hoje, o dia D, este crime tenha uma barreira a mais".Para mais esclarecimentos ir a http://margemdeerro.blogspot.com/2008/11/pornografia-infantil-no.html"Porque os blogs não têm de ser só “diários egocêntricos”. ( O Ponto do i)
eu junto-me. E tu?
Wednesday, November 12, 2008
Crescemos
Estamos a crescer. É irreversível, inegável, incontrolável. É o ciclo da vida, aquele de que fala a música do Rei Leão quando o pequeno Simba é balançado no topo do precipício pelo macaco mágico. Aos poucos, todos deixamos os livros para trás e afundamo-nos nas nossas cadeiras de rodinhas com que vaguemos, distraídos, por algum escritório. Às vezes, e é estranho, somos tratados pelo apelido. Dão-nos apertos de mão e tratam-nos por você. Nós comportamo-nos como vimos os crescidos fazerem. Às vezes. Ousamos um rodopio quando ninguém está a olhar, cantamos no corredor do supermercado em voz baixa, rabiscamos bonecos numa folha de papel quando temos uma conversa "séria" ao telefone.
Alguns de nós já tiveram filhos - eu sou mãe! Outros já compraram casas e discutem a pintura das paredes e as taxas euribor e coisas do género! Outras já têm um vestido de noiva guardado e vestem-no de vez em quando, enquanto dançam à frente do espelho. E ele já serve, não sobra nas mangas, os sapatos não caem quando tentam andar!
A maquilhagem fica-nos bem. Os saltos altos assentam-nos nos pés sem nos fazerem parecer despropositadas. A chave do carro, pronta a levar-nos até ao fim do mundo, fica tranquila, sobre a mesa, quando bebemos café.
Falamos dos empregos e, às vezes, tudo parece um filme. Tenho atrás de mim o mesmo cenário onde confessei o meu primeiro beijo, onde combinámos uma ida às matinés do Bauhaus (até à meia noite e com direito a dez sumos - o auge!), de onde partimos, a pé, para fugir a uma aula e dar um mergulho no mar do fim de Junho. E as mesmas pessoas - nunca nos apercebemos de como crescem aqueles que vemos quase todos os dias - que, para mim, continuam iguais.
Nós somos iguais. Só que mais crescidos... não é?
Alguns de nós já tiveram filhos - eu sou mãe! Outros já compraram casas e discutem a pintura das paredes e as taxas euribor e coisas do género! Outras já têm um vestido de noiva guardado e vestem-no de vez em quando, enquanto dançam à frente do espelho. E ele já serve, não sobra nas mangas, os sapatos não caem quando tentam andar!
A maquilhagem fica-nos bem. Os saltos altos assentam-nos nos pés sem nos fazerem parecer despropositadas. A chave do carro, pronta a levar-nos até ao fim do mundo, fica tranquila, sobre a mesa, quando bebemos café.
Falamos dos empregos e, às vezes, tudo parece um filme. Tenho atrás de mim o mesmo cenário onde confessei o meu primeiro beijo, onde combinámos uma ida às matinés do Bauhaus (até à meia noite e com direito a dez sumos - o auge!), de onde partimos, a pé, para fugir a uma aula e dar um mergulho no mar do fim de Junho. E as mesmas pessoas - nunca nos apercebemos de como crescem aqueles que vemos quase todos os dias - que, para mim, continuam iguais.
Nós somos iguais. Só que mais crescidos... não é?
Thursday, November 06, 2008
madrugada
Quando o mundo adormece,
eu paro para ver.
Gosto de ser a única acordada
e saber
o que mais ninguém sabe,
e ter,
o que mais ninguém tem:
as cores que despertam, aos poucos, na rua.
As sombras bruxuleantes que dançam sob os candeeiros,
o cão que, coxeando, se arrasta para um canto.
O carro onde alguém suspira por alguém.
A estrela a que parece faltar uma ponta,
o baloiço onde se escreveram iniciais dentro de um coração,
a dançar, devagar, ao ritmo do vento.
Dum sentimento,
Dum momento
que ali se fez eterna música
que me murmura nas madrugadas.
eu paro para ver.
Gosto de ser a única acordada
e saber
o que mais ninguém sabe,
e ter,
o que mais ninguém tem:
as cores que despertam, aos poucos, na rua.
As sombras bruxuleantes que dançam sob os candeeiros,
o cão que, coxeando, se arrasta para um canto.
O carro onde alguém suspira por alguém.
A estrela a que parece faltar uma ponta,
o baloiço onde se escreveram iniciais dentro de um coração,
a dançar, devagar, ao ritmo do vento.
Dum sentimento,
Dum momento
que ali se fez eterna música
que me murmura nas madrugadas.
Wednesday, November 05, 2008
Monday, November 03, 2008
quando é outono
A areia fina entre os dedos, como quem traz fotografias. O cheiro a mar nos cabelos, como quem traz palavras escritas num guardanapo de papel. A pele onde o sal secou, como quem traz um sorriso prestes a surgir. As roupas ainda húmidas, como quem traz um segredo no bolso de trás.
Já tenho saudades da praia.
Já tenho saudades da praia.
Wednesday, October 29, 2008
O incrível poder das telefonistas
Após mais uma dezena de telefonemas feitos para a central de táxis, dei por mim a imaginar o tipo de formação que as telefonistas devem receber a início. É que não é fácil uma pessoa demonstrar de forma tão elucidativa o quanto a aborrece falar com outra. Aqueles suspiros tão prolongados que estou sempre à espera de as ouvir cair para o lado, roxas, com falta de ar. Aqueles "hum hum" pronunciados pelo nariz (e imagino-os sempre a escapar das narinas com o fumo cinzento de um cigarro comprido e fininho) que nos dizem "não te estou a ouviiiir". Quantas horas de treino implicará toda esta aparelhagem de que é dotada cada telefonista? Quantos dias serão precisos até serem capazes de fazer com que nos sintamos a pessoa mais irritante à face da terra? Às vezes, quase que nos temos de desculpar por ligar.
- Mas isso é ao pé "daonde"?
- Olhe, eu não sei, só tenho a morada
PFFFF (mistura de suspiro com baforada de touro enraivecido)
Felizmente, as centrais de táxi ainda não implementaram as videochamadas, porque aí, meus amigos, tudo será muito pior. Desde olhares desdenhosos a abanares de cabeça milimetricamente estudados para nos fazerem sentir mais do que envergonhados por não sabermos de cor e salteado onde fica a Rua Nossa Senhora das Cabaças e ainda ousarmos (ousarmos!) pedir um táxi para nos levar lá.
E, quando alguma é simpática, aposto que deve ser imediatamente espancada, mal desliga o telefone! Afinal, há limites para tudo!
- Mas isso é ao pé "daonde"?
- Olhe, eu não sei, só tenho a morada
PFFFF (mistura de suspiro com baforada de touro enraivecido)
Felizmente, as centrais de táxi ainda não implementaram as videochamadas, porque aí, meus amigos, tudo será muito pior. Desde olhares desdenhosos a abanares de cabeça milimetricamente estudados para nos fazerem sentir mais do que envergonhados por não sabermos de cor e salteado onde fica a Rua Nossa Senhora das Cabaças e ainda ousarmos (ousarmos!) pedir um táxi para nos levar lá.
E, quando alguma é simpática, aposto que deve ser imediatamente espancada, mal desliga o telefone! Afinal, há limites para tudo!
Wednesday, October 01, 2008
O hippie que gostava de lucky strikes...
“É strike. Como o Lucky Strike mas sem o Lucky: é assim que se diz greve em inglês.”
Desligou o telefone. A frase fez-me olhar outra vez para ele: de cabelo comprido, barba, bigode, óculos de sol à John Lennon. Um hippie com os seus cinquenta anos que ensinava greves em inglês pelo telefone, auxiliando-se de uma marca de tabaco, enquanto conduzia o táxi pela A5. No rádio tocava música clássica: ele ia tamborilando os dedos sobre o volante, num teclado invisível.
Pensei como seria há trinta anos. E como o seu passado se parecia reflectir no seu presente. Quase todos os hippies ficaram nas fotografias. Enterrados em baús de calças à boca de sino e camisas coloridas. Um bilhete de um concerto, alguns discos, pedaços de poemas escritos em pacotes de açúcar.
Queria perguntar-lhe como era o mundo quando ele tinha 23 anos, como eu. Que mais palavras se faziam a partir dos maços de tabaco: King’s, Double Happiness, Silk Cut... E desejar-lhe que a sua strike também fosse cheia de sorte, como a do maço de tabaco.
Mas limitei-me ao bom dia, depois de pagar.
Desligou o telefone. A frase fez-me olhar outra vez para ele: de cabelo comprido, barba, bigode, óculos de sol à John Lennon. Um hippie com os seus cinquenta anos que ensinava greves em inglês pelo telefone, auxiliando-se de uma marca de tabaco, enquanto conduzia o táxi pela A5. No rádio tocava música clássica: ele ia tamborilando os dedos sobre o volante, num teclado invisível.
Pensei como seria há trinta anos. E como o seu passado se parecia reflectir no seu presente. Quase todos os hippies ficaram nas fotografias. Enterrados em baús de calças à boca de sino e camisas coloridas. Um bilhete de um concerto, alguns discos, pedaços de poemas escritos em pacotes de açúcar.
Queria perguntar-lhe como era o mundo quando ele tinha 23 anos, como eu. Que mais palavras se faziam a partir dos maços de tabaco: King’s, Double Happiness, Silk Cut... E desejar-lhe que a sua strike também fosse cheia de sorte, como a do maço de tabaco.
Mas limitei-me ao bom dia, depois de pagar.
Thursday, September 11, 2008
Só para vos dizer...
Há uma nova voz nessas ondas que enchem o céu, entopem os rádios, inundam os carros no trânsito. Sim, sou eu. Na TSF, às quintas-feiras, às 9h45. Vamos ouvir e rir!
Eu garanto que me rio sempre. Gargalhadas mesmo, quero buzinar e convidar os carros ao meu lado para fazerem o mesmo! Aquele "Laura Patrício", tão sério, tão crescido, ainda me parece uma brincadeira. E depois as palavras que no dia anterior foram gravadas entre gargalhadas e súplicas de oxigénio, frente a um microfone maior que a minha cara.
E então sigo, com o maior sorriso que os músculos faciais me permitem, como se estivesse num filme francês!
ahhhhh... :)
Eu garanto que me rio sempre. Gargalhadas mesmo, quero buzinar e convidar os carros ao meu lado para fazerem o mesmo! Aquele "Laura Patrício", tão sério, tão crescido, ainda me parece uma brincadeira. E depois as palavras que no dia anterior foram gravadas entre gargalhadas e súplicas de oxigénio, frente a um microfone maior que a minha cara.
E então sigo, com o maior sorriso que os músculos faciais me permitem, como se estivesse num filme francês!
ahhhhh... :)
Saturday, August 30, 2008
Sunday, August 24, 2008
nunca ninguém sabe de mim
Perdoa-me o jeito meio sem jeito com que às vezes me expresso. É o tempo que me enrola os sentidos e me despe de sensibilidade e tacto. Não ligues às cores que não ligam umas nas outras, aos rasgões com que se enche o quarto, à desordem que se instalou em mim: eu sou meio assim, meia sem jeito, meia feita do nada. Esquece a menina das fotografias, tranças seguras em fitas vermelhas, sorriso manchado de gelado, um brilhozinho de cinema a espreitar no canto do olho: não sei dela. Procurei-a nos becos e nos bancos de jardim, liguei para os hospitais, para a polícia, li anúncios de jornais, e nada... é sempre assim:
nunca ninguém sabe de mim.
nunca ninguém sabe de mim.
Monday, June 16, 2008
Hoje
Hoje pedi pela primeira vez um carro de aluguer completamente sozinha.
Hoje discuti o meu primeiro salário, que não chegou à conta porque andava perdido por ai numa realidade virtual qualquer...
Hoje saí de casa de sandálias e voltei a correr para calçar botas porque estava a chover. Quando cheguei à redacção estava sol.
Hoje sentei-me na esplanada à espera da minha amiga Inês para almoçar e congratulei-me por conseguir guardar um lugar tão disputado. Quando acendi um cigarro começou a chover.
Hoje raptei a ventoinha do editor e deixei que as duas hélices tipo saco de plástico fingissem que me arrefeciam.
Hoje descobri que o meu Banco pensa que sou menor, apesar de ter feito os 18 há mais de 5 anos. Além disso, também parecem pensar que sou um homem, visto que me dão sempre o título de Senhor.
Hoje liguei a uma amiga só para saber se ela estava bem e para ouvir uma voz familiar que me dissesse que sim, que está tudo bem.
Hoje fiz as palavras-cruzadas e descobri que Escavar não é Cavar: é Minar.
Hoje ouvi Svensson, o músico sueco que morreu a fazer mergulho, e pensei que às vezes morremos da forma mais inesperada. Sempre.
Hoje escrevi duas vezes no blog, o que não acontecia há meses.
Hoje olhei muitas vezes para o desenho da minha filha, ao lado do computador, em que tenho pernas que parecem chouriços e seguro um balão com um coração: pensei que as crianças são os seres mais perspicazes do mundo.
Hoje combinei as minhas primeiras férias de trabalhadora e reservei a minha primeira quinzena de liberdade: soube a mundo de crescidos.
Hoje respeitei o meu direito ao silêncio quando me apeteceu gritar e isso fez-me sorrir.
Hoje foi só mais um dia. Imaginei o que poderia escrever de uma vida inteira. Isso fez-me feliz.
Hoje discuti o meu primeiro salário, que não chegou à conta porque andava perdido por ai numa realidade virtual qualquer...
Hoje saí de casa de sandálias e voltei a correr para calçar botas porque estava a chover. Quando cheguei à redacção estava sol.
Hoje sentei-me na esplanada à espera da minha amiga Inês para almoçar e congratulei-me por conseguir guardar um lugar tão disputado. Quando acendi um cigarro começou a chover.
Hoje raptei a ventoinha do editor e deixei que as duas hélices tipo saco de plástico fingissem que me arrefeciam.
Hoje descobri que o meu Banco pensa que sou menor, apesar de ter feito os 18 há mais de 5 anos. Além disso, também parecem pensar que sou um homem, visto que me dão sempre o título de Senhor.
Hoje liguei a uma amiga só para saber se ela estava bem e para ouvir uma voz familiar que me dissesse que sim, que está tudo bem.
Hoje fiz as palavras-cruzadas e descobri que Escavar não é Cavar: é Minar.
Hoje ouvi Svensson, o músico sueco que morreu a fazer mergulho, e pensei que às vezes morremos da forma mais inesperada. Sempre.
Hoje escrevi duas vezes no blog, o que não acontecia há meses.
Hoje olhei muitas vezes para o desenho da minha filha, ao lado do computador, em que tenho pernas que parecem chouriços e seguro um balão com um coração: pensei que as crianças são os seres mais perspicazes do mundo.
Hoje combinei as minhas primeiras férias de trabalhadora e reservei a minha primeira quinzena de liberdade: soube a mundo de crescidos.
Hoje respeitei o meu direito ao silêncio quando me apeteceu gritar e isso fez-me sorrir.
Hoje foi só mais um dia. Imaginei o que poderia escrever de uma vida inteira. Isso fez-me feliz.
Apesar de tudo
Apesar de tudo, há um sorriso quando a FCSH vem à conversa.
Seja com antigos colegas, recordando nomes sonantes que começam por M e acabam em ão (e pelo meio têm -our), ou ainda aquele que tinha nome de vila...
Seja com os senhores da central de táxis que se riem quando dizemos Faculdade de ciências sociais e humanas e dizem: "Ah, a novaaaa!" (o que é um pouco assustador, na verdade).
Seja com outros jornalistas, saídos das primeiras fornadas de licenciados em CC, que recordam semiótica com um sorriso que prova que não tiveram o prof que começa em M e acaba em ão (e que tem o tal -our a meio).
Críticas e censuras à parte, somos da Nova. Somos, para sempre, dessa universidade em que há uma população imensa de góticos e dreads que partilha o espaço da esplanada, em que há shows de reaggae espontâneos e mitos urbanos sobre alunos em pânico que se atiram das escadas (vá, confesso, este último foi mesmo criado por mim). Somos dessa "casa" em que os elevadores funcionam mal e quando funcionam às vezes param e deixam 20 pessoas do sexo feminino à beira de um ataque de claustrofobia à medida que se vão apercebendo que ninguém as vem salvar. Esse sítio onde as baguetes são sempre alternativa à cantina dos ricos e à dos pobres. Dizem que somos esquisitos (quantas vezes a frase, dita por alguém que me acompanhava à faculdade: "bem, a tua faculdade tem bué pessoal esquisito!") e nós encolhemos os ombros e sorrimos. Há a casa das cópias, as casas de banho de tectos inclinados e sem luz, os horários remexidos 50 vezes antes, a meio e depois das inscrições no início do ano lectivo, uns galos (sim, os animais, maridos das galinhas, pais dos pintinhos...) que nunca cheguei a ver mas que me garantiram que existem, de facto. Nós somos isso tudo, sim. Somos os tais que levaram com semiótica, pragmática e outras disciplinas com nomes de código e que superaram tudo isso.
É por isso que podemos dizer mal dela. Não é assim que funcionam as famílias? Nós podemos acusar, criticar, apontar o dedo. E se os outros decidirem atacá-la talvez alguns de nós se levantem em sua defesa.
Apesar de tudo (e este tudo é tão grandeeee).
"É orgia, é bacanal
é comuni-
é comunicação social"
Seja com antigos colegas, recordando nomes sonantes que começam por M e acabam em ão (e pelo meio têm -our), ou ainda aquele que tinha nome de vila...
Seja com os senhores da central de táxis que se riem quando dizemos Faculdade de ciências sociais e humanas e dizem: "Ah, a novaaaa!" (o que é um pouco assustador, na verdade).
Seja com outros jornalistas, saídos das primeiras fornadas de licenciados em CC, que recordam semiótica com um sorriso que prova que não tiveram o prof que começa em M e acaba em ão (e que tem o tal -our a meio).
Críticas e censuras à parte, somos da Nova. Somos, para sempre, dessa universidade em que há uma população imensa de góticos e dreads que partilha o espaço da esplanada, em que há shows de reaggae espontâneos e mitos urbanos sobre alunos em pânico que se atiram das escadas (vá, confesso, este último foi mesmo criado por mim). Somos dessa "casa" em que os elevadores funcionam mal e quando funcionam às vezes param e deixam 20 pessoas do sexo feminino à beira de um ataque de claustrofobia à medida que se vão apercebendo que ninguém as vem salvar. Esse sítio onde as baguetes são sempre alternativa à cantina dos ricos e à dos pobres. Dizem que somos esquisitos (quantas vezes a frase, dita por alguém que me acompanhava à faculdade: "bem, a tua faculdade tem bué pessoal esquisito!") e nós encolhemos os ombros e sorrimos. Há a casa das cópias, as casas de banho de tectos inclinados e sem luz, os horários remexidos 50 vezes antes, a meio e depois das inscrições no início do ano lectivo, uns galos (sim, os animais, maridos das galinhas, pais dos pintinhos...) que nunca cheguei a ver mas que me garantiram que existem, de facto. Nós somos isso tudo, sim. Somos os tais que levaram com semiótica, pragmática e outras disciplinas com nomes de código e que superaram tudo isso.
É por isso que podemos dizer mal dela. Não é assim que funcionam as famílias? Nós podemos acusar, criticar, apontar o dedo. E se os outros decidirem atacá-la talvez alguns de nós se levantem em sua defesa.
Apesar de tudo (e este tudo é tão grandeeee).
"É orgia, é bacanal
é comuni-
é comunicação social"
Sunday, June 15, 2008
Ela
É mais fácil escrever sobre personagens imaginárias que sobre nós próprios. Os seus actos nunca vão além do papel, as suas palavras não podem extravasar a tinta de que são feitas, mesmo quando ressoam dentro do leitor que se esforça por lhes descobrir o ritmo certo, o sotaque adequado, a forma como os lábios terão pronunciado aquele último som. As personagens nunca morrem: adormecem para acordar, vezes sem conta, na memória de quem as conheceu. Ressuscitam de cada vez que alguém abre a primeira página do livro e lê: "Ele não sabia ler, nem escrever, mas aprendera que as coisas tinham nomes e que os nomes eram das coisas". É por isso que a minha vida está cheia de eles e elas, os e as, aquele e aquela. Ela sabe, sente e atormenta-se. Ela vive e a sua energia está espalhada em cada letra da sua (tua? minha?) fisionomia.
Não costumo chorar com os livros. Era a melhor forma de começar, mas seria mentira.
Ela não costuma chorar com os livros. Eles choram-na a ela, deitam-lhe lágrimas grossas sobre o rosto, carregam-lhe a garganta de alguns soluços. É raro, mas quando acontece ela deixa que eles a chorem toda, de uma vez, com o ar a atropelar-se entre os lábios e olhos turvos que impedem que veja a próxima palavra. Esforça-se por voltar a ver, ler, ser. Esforça-se por compreender. Abana a cabeça e suspira. Termina num só sopro: em vez de ler, devora. Come as palavras depressa e, tal como acontece com o comum guloso, sente-se mal disposta a seguir. Há um vazio feito de imensidão dentro dela, sente-se cheia de palavras, há letras que se acotovelam e sons que se sobrepõem como garras de metal. Emoções que se esmagam (do sim e do não, do bom e do mau), um medo que consegue filtrar os sonhos e que atormenta o sono.
Quando um livro é realmente bom, ela sabe que ele viverá para sempre num cantinho do seu ser. Que há frases sublinhadas que vai querer tatuar na pele, embora nunca o venha a fazer. Que há expressões que vai querer saborear todas as manhãs e outras que por mais que tente nunca a deixarão em paz. Que há um descompasso no coração que se deve a cada palavra que decorou, a cada personagem que amou e a cada descrição que foi capaz de ver com os olhos fechados.
Ela não costuma chorar com os livros. Eu sim.
Não costumo chorar com os livros. Era a melhor forma de começar, mas seria mentira.
Ela não costuma chorar com os livros. Eles choram-na a ela, deitam-lhe lágrimas grossas sobre o rosto, carregam-lhe a garganta de alguns soluços. É raro, mas quando acontece ela deixa que eles a chorem toda, de uma vez, com o ar a atropelar-se entre os lábios e olhos turvos que impedem que veja a próxima palavra. Esforça-se por voltar a ver, ler, ser. Esforça-se por compreender. Abana a cabeça e suspira. Termina num só sopro: em vez de ler, devora. Come as palavras depressa e, tal como acontece com o comum guloso, sente-se mal disposta a seguir. Há um vazio feito de imensidão dentro dela, sente-se cheia de palavras, há letras que se acotovelam e sons que se sobrepõem como garras de metal. Emoções que se esmagam (do sim e do não, do bom e do mau), um medo que consegue filtrar os sonhos e que atormenta o sono.
Quando um livro é realmente bom, ela sabe que ele viverá para sempre num cantinho do seu ser. Que há frases sublinhadas que vai querer tatuar na pele, embora nunca o venha a fazer. Que há expressões que vai querer saborear todas as manhãs e outras que por mais que tente nunca a deixarão em paz. Que há um descompasso no coração que se deve a cada palavra que decorou, a cada personagem que amou e a cada descrição que foi capaz de ver com os olhos fechados.
Ela não costuma chorar com os livros. Eu sim.
Friday, June 13, 2008
O Sexo, a Cidade e a Aldeia (sim, as aldeãs também têm direito à vida)
Era completamente necessário. Absolutamente indispensável. Totalmente essencial. Ver “O Sexo e a Cidade” no dia seguinte à estreia era mais que uma forma de passar um bom momento: era uma questão de honra para quem cresceu a ver as quatro New York chicks (agora mais crescidinhas) desde a primeiríssima série.A geração dos 20 e poucos, a nossa, tem uma relação engraçada com elas. Suponho que a dos 40 também: afinal, cresceram juntas, lá foram aprendendo juntas e juntas descobriram pecados com nomes próprios – Jimmy Choo, Manolo, Prada...Nós, as dos 20 e picos, começámos a ver “Sex and the City” quando ainda não sabíamos o que era um nem o outro. Tudo era absolutamente encantador: a Carrie a assobiar para os táxis, os Cosmos que acompanhavam os detalhes mais sórdidos, a ingenuidade da Charlotte, quase tão grande como a nossa, as lágrimas, e lágrimas e lágrimas que se seguiam a cada ruptura com o Mr. Big...Sentámo-nos, armadas de pipocas e garrafas de água. O momento pedia sapatos de salto alto, agora que já temos idade para tal, micro-vestidos e talvez os famosíssimos Cosmos para acompanhar. Limitámo-nos aos jeans, tops, casaquinhos de malha... estamos em Oeiras e NY fica a alguns quilómetros (uns poucos...) de distância. Rimos, aguentámos as lágrimas, aceitámos o final mais que previsto: como não? Poderia acabar doutra forma?A pergunta, mais que típica, paira no ar: afinal, qual das protagonistas do Sexo e a Cidade é mais parecida connosco? Não haverá um bocadinho de todas elas em todas nós? Mas claro que sim! Só que há sempre uma que nos diz mais e fazendo a prova dos nove, tal como a Ale (www.l-d-v.blogspot.com), havia que tirar as dúvidas. Um quizz na net era a prova irrefutável (afinal, haverá algo mais científico e objectivo?): “your answers peg you as a Carrie-type, much influenced by the Air Sign qualities, associated with Gemini...”- e não é que até no meu signo acertaram?
Wednesday, June 04, 2008
A minha vida dava um filme indiano
Ok, talvez um indiano não, porque geralmente há sempre pessoas a dançar nesses filmes, com o taj mahal como pano de fundo, e tudo o que eu poderia oferecer eram bailaricos com o areeiro ao fundo e drogados a cruzarem as ruas a venderem pensos e lenços de papel.
Se calhar a minha vida dava mesmo era um musical: cantoria não falta, no carro, ao pc, mesmo durante a hora de almoço, indo contra todas e quaisquer regras de etiqueta!
No fundo, no fundo, eu acho mesmo é que a minha vida dava um drama. Ou uma comédia. Porque perder os documentos do carro no dia em que os recebi é mau. Ser parada pela polícia pela primeira vez em 4 anos precisamente nesse dia é pior ainda. Mas ser parada pela segunda vez (em quatro anos, não se esqueçam), e apanharem-me a falar através de aparelho sonoro durante o momento de condução do veículo... isso é VOODOO! Começo a considerar, seriamente, consultar uma bruxa, uma vidente, alguém com ligações místicas e poderosas a esse mundo do invisível.
E eu pergunto, no topo da minha pureza, quem me poderia desejar mal?...
Se calhar a minha vida dava mesmo era um musical: cantoria não falta, no carro, ao pc, mesmo durante a hora de almoço, indo contra todas e quaisquer regras de etiqueta!
No fundo, no fundo, eu acho mesmo é que a minha vida dava um drama. Ou uma comédia. Porque perder os documentos do carro no dia em que os recebi é mau. Ser parada pela polícia pela primeira vez em 4 anos precisamente nesse dia é pior ainda. Mas ser parada pela segunda vez (em quatro anos, não se esqueçam), e apanharem-me a falar através de aparelho sonoro durante o momento de condução do veículo... isso é VOODOO! Começo a considerar, seriamente, consultar uma bruxa, uma vidente, alguém com ligações místicas e poderosas a esse mundo do invisível.
E eu pergunto, no topo da minha pureza, quem me poderia desejar mal?...
Saturday, April 19, 2008
Ma, la, ca, sa
Pensava que me tinha esquecido de como se fazia. Disparate, estava tudo lá, as instruções escondidas a um recanto da memória com o aviso "Utilizar em caso de necessidade". Era só fazer como dantes, limpar o pó que cobria as pontas dos dedos, resgatar o cabelo ao seu descontrolo no alto da cabeça e estalar os dedos, como sempre, na busca da sílaba perfeita. O ma, o la, o ca, o sa... direitinhas, enfileiradas, escorrendo gota a gota pelos lábios ainda destreinados. A voz não era a minha: era aquela, a de sempre, a das noites sem horas e dos dias sem término previsto. Era a doce melancolia quem se escapava, novamente, por entre os portões da história do meu ser. E deixei-a dançar toda a noite, até lhe doerem os pés, até lhe pesarem as pernas. Rodopiou, saltou, bailarina desengonçada em caixinha de música anciã. Se a chuva caía lá fora, ainda melhor. Ainda melhor porque o sol nem sempre tem razão e naquele dia a chuva era o compasso alterado das minhas explicações. Não sabemos porquê, mas ela sim. Ela chove sempre por e para alguém, mesmo para aqueles que ainda ou já não são. Sem guarda-chuva, sombrinha nem nauseabundos tectos artificiais para me separar do mundo. Tudo se dilui nessa água inicial, tudo se compõe e estala em sinfonia. Dos pés com raízes que não vemos (elas estão lá, inscritas nas linhas que os tatuam à nascença) à cabeça de humano artifício, funde-se a luz com a cruz, a negridão com a compreensão, e somos, enfim, filhos das nossas próprias mãos.
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