Estamos a crescer. É irreversível, inegável, incontrolável. É o ciclo da vida, aquele de que fala a música do Rei Leão quando o pequeno Simba é balançado no topo do precipício pelo macaco mágico. Aos poucos, todos deixamos os livros para trás e afundamo-nos nas nossas cadeiras de rodinhas com que vaguemos, distraídos, por algum escritório. Às vezes, e é estranho, somos tratados pelo apelido. Dão-nos apertos de mão e tratam-nos por você. Nós comportamo-nos como vimos os crescidos fazerem. Às vezes. Ousamos um rodopio quando ninguém está a olhar, cantamos no corredor do supermercado em voz baixa, rabiscamos bonecos numa folha de papel quando temos uma conversa "séria" ao telefone.
Alguns de nós já tiveram filhos - eu sou mãe! Outros já compraram casas e discutem a pintura das paredes e as taxas euribor e coisas do género! Outras já têm um vestido de noiva guardado e vestem-no de vez em quando, enquanto dançam à frente do espelho. E ele já serve, não sobra nas mangas, os sapatos não caem quando tentam andar!
A maquilhagem fica-nos bem. Os saltos altos assentam-nos nos pés sem nos fazerem parecer despropositadas. A chave do carro, pronta a levar-nos até ao fim do mundo, fica tranquila, sobre a mesa, quando bebemos café.
Falamos dos empregos e, às vezes, tudo parece um filme. Tenho atrás de mim o mesmo cenário onde confessei o meu primeiro beijo, onde combinámos uma ida às matinés do Bauhaus (até à meia noite e com direito a dez sumos - o auge!), de onde partimos, a pé, para fugir a uma aula e dar um mergulho no mar do fim de Junho. E as mesmas pessoas - nunca nos apercebemos de como crescem aqueles que vemos quase todos os dias - que, para mim, continuam iguais.
Nós somos iguais. Só que mais crescidos... não é?