Quando partilhávamos palavras, era como se o mundo ruisse, em desassossego. Como se toda a inocência depositada sobre os lábios fosse suficiente para travar o contínuo girar da Terra e fazê-la quebrar-se sobre si mesma.
Quando partilhávamos palavras, tudo o resto era nada. Todos os outros desapareciam, cobertos pela banalidade, todos os sons emudeciam, como se nada fosse mais doce que os nossos "um dia". Deitavas palavras ao ar como quem atira pétalas de um malmequer, e eu seguia-as com os olhos até se perderem para sempre dentro de mim.
Caminhávamos juntos, devagar, com a sabedoria daqueles que já aprenderam que a vida passa demasiado depressa para que nos tentemos adiantar a ela, esculpindo cada sombra com o olhar, aprendendo novas línguas: a das flores, a do vento, a da chuva, a do tempo.
E depois dizias-me que tivesse cuidado, mas sempre incitando-me com os olhos a dar mais um passo, a vencer o medo dos espinhos, a aprender a segurar a terra com as mãos.
E nós gritávamos "És o melhor avô do mundo!", de olhos fechados, sentido o vento levantar-nos os cabelos enquanto o chão passava, veloz, sob os nossos pés.
Escutavas cada concerto com paciência, lias cada frase com um sorriso de orgulho, aplaudias cada novo talento como se fôssemos capazes de tudo. Guardavas cartões e desenhos como tesouros, no bolso da camisa, dobrados em quatro. Acreditavas que éramos capazes de tudo, não era, avô? E se alguém me ensinou a sonhar, foste tu. Agora, eu também acredito.
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