Monday, July 09, 2007

A revolta do meu teclado

O meu portátil foi des-ene-ado, como em desmembrado, só que perdeu a tecla N. Foi um momento negro quando, pequenina, ela se soltou do imenso teclado e partiu, aventureira, em busca de novos caminhos. Queria Nuvens, Notas de música, Novelos desembaraçados... Pedi-lhe "fica!", esmaguei-a contra o seu espaço vazio, e ela, insistente "Não!Não!" e escapava-se sempre, por entre os meus dedos.
Pesadelo do bloguista, cronista, experiência de escritor, isto de teclar no espaço vazio onde se estica o corpo decepado do botão de borracha.
Esqueçamos a tecla N e o seu capricho de aventura. Esqueçamos que se encontra nalgum fundo de gaveta onde aguarda o momento em que será, novamente, presa ao seu teclado por alguém mais credenciado que eu. Quando os objectos ainda se encontram dentro da garantia, é melhor não mexer, avisaram-me. Larga o tubo de cola tudo, e deixa esse martelo onde estava. Está bem, deixemos o meu N vaguear nos sonhos, acreditar que é livre no fundo da sua gaveta, pensar, talvez, que está já em viagem, a caminho de algum sítio melhor.
Cansou-se de levar porrada, até entendo. Vida difícil esta de tecla, eternamente espancada pelos dedos pesados de alguém que se lembrou que queria escrever. O "G" também já não me responde bem. Tenho de o forçar, para que me responda. Em vez de fugir, remeteu-se ao silêncio. Carrego nele repetidamente até que cede. O meu G quer Gotas de chuva, Gritos no telhado, Grinaldas de flores e Gomas de banana.
Aos poucos elas vão-se revoltando, e, pelo sim pelo não, conservo o papel e a caneta para um desses dias sem nome.

1 comment:

Ale said...

A minha amiga Alana ficou sem o R em Siena! Ele soltou-se como o teu N!Huuummm... A mim cheira-me a revolução!!!