Sunday, March 21, 2010

Memorabilia

Sim, eu assumo: eu sou uma confusão. Não é só o meu quarto, o meu carro ou a minha secretária em qualquer redacção onde eu finque o pézinho durante mais de uma semana. Não, não há nenhuma conspiração internacional de vilões que, durante a noite, remexem nas minhas coisas instaurando o caos - admitamos, finalmente.
Os nativos de gémeos, dizem, são meio confusos por natureza. Eu, filha de um gémeo e mãe de uma gémea, sou totalmente confusa por natureza. Não é só desorganizada, que eu até consigo encontrar um fiozinho de arrumação (pronto, raramente) no meio do meu caos. A minha cabeça parece sempre uma casa depois de uma festa: copos espalhados por todo o lado, cinzeiros aqui e ali, post its esquecidos ao acaso debaixo das almofadas.
A treta do signo já não funciona como desculpa, cá em casa. Ainda tentei convencer toda a gente de que a culpa não era minha, que não posso evitar porque sou uma criança índigo, mas também ninguém levou a coisa muito a sério. E aquilo de que da confusão nasce o génio... esqueçam, também não engana ninguém.
Assim sendo, restou-me assumir o meu problema: eu sou o meu próprio caos. Mas (porque nestas coisas de admitir problemas convém sempre haver um "mas") a culpa não é minha. A culpa é do meu coraçãozinho lamechas que se apega tanto a um cinzeirinho foleiro oferecido por uma velhinha no Alentejo como a um gatinho bebé e orfão.
Olá, eu sou a Laura e sou viciada em memórias.
Pronto, está dito.
É o cinzeiro horroroso dado pela velhinha, é o azulejo piroso oferecido em Santa Luzia, são os copinhos de shot roubados em jantares inesquecíveis no restaurante chinês, o falso vaso egípcio montado e pintado quando tinha 10 anos e sonhava ser a nova Indiana Jones... E o coração lamechas lá vai acumulando o lixo como se fossem tesouros.
Olá, eu sou a Laura e hoje deitei fora quase todo o lixo que ocupava o meu quarto. Pronto, a cómoda do meu quarto - um passinho de cada vez que isto não é assim zás trás e estás curada!
E não é que me sinto muito melhor?

(Não fui capaz de deitar fora o vaso egípcio, mas coloquei-o longe do meu ângulo de visão, em cima do roupeiro. Conta pelo menos meio ponto, não?)

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