Saturday, February 03, 2007

No regresso




Nunca a cidade cantara tão alto as suas dores. Esboçaste um sorriso ao ouvi-los: eram os fados que nunca ouviras e sempre sonharas. Os gemidos tremidos que nunca soltaras mas sempre sentiras. A vida que nunca viveras mas que há muito conhecias. Esperavas alguém que partira, mas nunca viras. Esperavas o seu regresso desde sempre. E era o dia, tinhas a certeza. As guitarras gritavam por ele, enchendo as pedras da calçada de um cinzento mais límpido. Olhaste e pudeste vê-lo, mais uma vez, aquele que nunca antes viras. E era tal e qual como o recordavas. Nas águas do Tejo ele dançava para ti. Os últimos acordes fugiam das cordas das guitarras. A música tornava-se livre do objecto que a aprisionava. Também tu eras livre, no seu abraço. Entrelaçados, deixavam que as ondas vos embalassem o silêncio. Não havia nada a dizer. O que se diz a alguém que viveu sempre dentro de nós?

E quando, pela manhã, te encontraram, já tinhas partido também.

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